Formação

A conversão segundo São Paulo

1. Justificados pela fé em Cristo

Na vez passada, buscamos aquecer de nossa fé em Cristo no contato com a fé do evangelista João; desta vez buscaremos fazer a mesma coisa no contato com a fé do apóstolo Paulo.

Quando S. Paulo, em Corinto, nos anos 57-58, escreveu a Carta aos Romanos, devia estar ainda viva e ardente nele a recordação da rejeição encontrada alguns anos antes em Atenas em seu discurso no Areópago. Não obstante, no início na Carta, ele se diz seguro de ter recebido a graça do apostolado, «para obter a obediência na fé da parte de todos os povo» (Rm 1, 5).

A obediência e, por conseguinte, de todos os povos! O insucesso não havia arranhado no mínimo sua certeza de que «o Evangelho é poder de Deus para aquele que crê» (Rm 1, 17). Naquele momento, a imensa tarefa de levar o Evangelho aos confins do mundo estava agora toda a sua frente. Não devia ser uma tarefa impossível e absurda? Mas Paulo dizia: «Sei em quem acredito» (2 Tm 1, 12), e dois mil anos deram razão à audácia da sua fé.

Refletia sobre estas coisas a primeira vez que visitei Atenas e Corinto, e me dizia: «Se tivéssemos hoje um grãozinho desta fé de Paulo, não nos deixaríamos intimidar pelo fato de que o mundo está ainda em grande parte por evangelizar e que assim rejeita, por sua vez, desdenhosamente, como os areopagitas, de fazer-se evangelizar».

A fé em Cristo, para Paulo, é tudo. «Esta vida que vivo na carne – escreve em forma de testamento a Carta aos Gálatas – eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e deu a si mesmo por mim» (Gl 2, 20) [1].

Quando se fala de fé em São Paulo o pensamento corre espontaneamente ao grande tema da justificação mediante a fé em Cristo. E é sobre isso que queremos concentrar a atenção, não para iniciar aí uma enésima discussão, mas para acolher a consoladora mensagem. Dizia na primeira meditação que hoje há necessidade de uma pregação kerigmática, apta a suscitar a fé onde essa não existe ainda ou está morta. A justificação gratuita mediante a fé em Cristo é o coração de tal pregação e é um pecado que essa seja, ao contrário, praticamente ausente da pregação ordinária da Igreja.

Sobre esse respeito acontece uma coisa estranha. Às objeções agitadas pelos reformadores, o concílio de Trento deu uma resposta católica na qual havia lugar para a fé e para as boas obras, cada uma, se entende, na sua ordem. Não nos salvamos pelas boas obras, mas não nos salvamos sem as boas obras. De fato, porém, desde o momento que os protestantes insistiam unilateralmente sobre a fé, a pregação e a espiritualidade católica acabaram por aceitar quase só a ingrata tarefa de recordar a necessidade das boas obras e da contribuição pessoal à salvação. O resultado é que a grande maioria dos católicos chegava ao fim da vida sem ter mais ouvido um anuncio direto da justificação gratuita mediante a fé, sem muitos «mas» e «porém».

Depois do acordo sobre este tema de outubro de 1999, entre a Igreja católica e a Federação mundial das Igrejas luteranas, a situação mudou em linha de princípio, mas tenta agora passar à pratica. No texto daquele acordo, vem expresso o desejo que a doutrina comum sobre a justificação passe agora à prática, fazendo-se experiência vivida por parte de todos os fiéis e não mais somente o objeto de doutas disputas entre teólogos. É aquilo que nos propomos de obter, pelo menos em pequena parte, com a presente meditação. Leiamos antes de tudo o texto:

«Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, mas são justificados gratuitamente pela sua graça, em virtude da redenção realizada por Cristo Jesus. Deus o apresentou para servir como instrumento de expiação por meio da fé, em seu sangue, com o fim de manifestar a sua justiça, depois da tolerância com os pecados passados no tempo da divina paciência. Ele manifesta sua justiça no tempo presente, para mostra-se justo e justificar quem tem fé em Jesus» (Rm 3, 23-26)

Não se entende nada desse texto e até acabaria por incutir mais medo que consolação (como aconteceu de fato por séculos), se não se interpretar corretamente a expressão «justiça de Deus». Foi Lutero que redescobriu que «justiça de Deus» não indica aqui o seu castigo, ou pior, sua vingança em relação ao homem, mas indica, ao contrário, o ato mediante o qual Deus «torna justo» o homem. (Ele verdadeiramente dizia «declara», não «torna», justo, porque pensava em uma justificação extrínseca e forense, em uma imputação de justiça, mais que a um real ser justificado).

Eu disse «redescobriu», porque bem antes dele Santo Agostinho tinha escrito: «A “justiça de Deus” é aquela graça à qual, por sua graça, ele nos faz justos (iustitia Dei, qua iusti eius munere efficimur), exatamente como a “salvação do Senhor” (Sl 3, 9) é aquela pela qual Deus nos faz salvos» [2].

O conceito de «justiça de Deus» é explicado assim na Carta a Tito: «Quando são manifestas a bondade de Deus e seu amor pelos homens, ele nos salva, não em virtude de obras de justiça por nós realizadas, mas por sua misericórdia» (Tt 3, 4-5). Dizer: «É manifestada a justiça de Deus», equivale portanto a dizer: é manifestada a bondade de Deus, seu amor, sua misericórdia. Não são os homens que, de improviso, mudaram vida e hábitos e se puseram a fazer o bem; a novidade é que Deus agiu, teve antes a sua mão ao homem pecador e sua ação cumpriu os tempos.

Aqui está a novidade que distingue a religião cristã de qualquer outra. Qualquer outra religião traça ao homem um caminho de salvação, mediante observâncias práticas ou especulações intelectuais, prometendo-lhe, como prêmio final, a salvação ou a iluminação, mas deixando-o substancialmente só na realização de tal tarefa. O cristianismo não começa pelo que o homem deve fazer para salvar-se, senão com o que Deus fez para salvá-lo. A ordem é contrária.

É verdade que amar a Deus com todo o coração é «o primeiro e maior dos mandamentos», porém os mandamentos não são a primeira ordem, mas a segunda. Antes da ordem dos mandamento está a ordem do dom, da graça. O cristianismo é a religião da graça! Se não se tem em conta isto no diálogo inter-religioso, não poderá nada mais que gerar confusão e dúvidas no coração de muitos cristãos.

2. Justificação e conversão

Desejaria agora mostrar como a doutrina da justificação gratuita pela fé não é uma invenção de Paulo, mas o puro ensinamento de Jesus. No início de seu ministério, Jesus ia proclamando: «O tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15). O que Cristo encerra na expressão «Reino de Deus» –sto é, a iniciativa salvífica de Deus, seu oferecimento de salvação à humanidade–, S. Paulo o chama «justiça de Deus», mas se trata da mesma realidade fundamental: «Reino de Deus» e «justiça de Deus» são unidos entre si pelo próprio Jesus quando diz: «Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça» (Mt 6, 33). «Jesus –escrevia São Cirilo de Alexandria– chama de «reino de Deus» a justificação mediante a fé, a purificação batismal e a comunhão do Espírito» [3].

Quando Jesus dizia: «Convertei-vos e crede no Evangelho», já ensinava portanto a justificação mediante a fé. Antes dele, converter-se significava sempre «voltar atrás» (como indica o mesmo termo empregado em hebraico para esta ação, isto é, o termo shub); significa regressar à aliança violada mediante uma renovada observância da lei.

Converter-se, consequentemente, tem um significado principalmente ascético, moral e penitencial, e se realiza transformando a conduta de vida. A conversão é vista como condição para a salvação; o sentido é: convertei-vos e sereis salvos: convertei-vos e a salvação chegará a vós. Na boca de Jesus, este significado moral passa a um segundo plano (pelo menos no início de sua pregação), em respeito a um significado novo, até agora desconhecido.

Converter-se já não significa voltar atrás, à antiga aliança e à observância da lei; significa mais dar um salto adiante, entrar na nova aliança, aferrar este Reino que apareceu, entrar nele. E entrar nele mediante a fé: «Convertei-vos e crede» não significa duas coisas distintas e sucessivas, mas a própria ação: convertei-vos, isto é, crede; convertei-vos crendo! «Prima conversio ad Deum fit per fidem», escreve S. Tomás de Aquino: «A primeira conversão a Deus consiste em crer» [4].

«Convertei-vos e crede» significa portanto: passai da antiga aliança, baseada na lei, à nova aliança, baseada na fé. O Apóstolo diz o mesmo com a doutrina da justificação mediante a fé. A única diferença se deve ao que aconteceu, enquanto tanto, entre a pregação de Jesus e a de Paulo: Cristo foi rejeitado e levado à morte pelos pecados dos homens. A fé «no Evangelho» («crede no Evangelho») agora se configura como fé «em Jesus Cristo», «em seu sangue» (Rm 3, 25).

3. A fé-apropriação

Tudo, portanto, depende da fé. Mas sabemos que há diferentes tipos de fé: existe a fé-assentimento do intelecto, a fé-confiança, a fé-estabilidade, como a chama Isaías (7, 9). De qual se trata quando se fala da justificação «mediante a fé»? Trata-se de uma fé totalmente especial: a fé-apropriação. Não me canso de citar a esse respeito um texto de S. Bernardo:

«De minha parte, o que não posso obter por mim mesmo eu me aproprio (“usurpo!”) com confiança do lado transpassado do Senhor, porque está cheio de misericórdia. Meu mérito por isso, é a misericórdia de Deus. Meu mérito não é o que eu fiz, é a misericórdia de Deus. Certamente não sou pobre no que se refere a méritos enquanto continue sendo Ele rico em misericórdia. Se as misericórdias do Senhor são muitas (Sl 119, 156), também eu terei méritos em abundância. Que há então de “minha” justiça? Pois, Senhor, recordarei só tua justiça, pois essa é também a minha, porque tu és para mim justiça de Deus». [5]

Está escrito de fato: «Cristo Jesus se fez para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção» (1 Cor 1, 30). «Para nós», não para si mesmo! Já que nós pertencemos a Cristo mais que a nós mesmos, tendo-nos Ele comprado a alto preço (1 Cor 6, 20), inversamente o que é de Cristo nos pertence mais que se fosse nosso. Eu chamo isto de golpe de audácia na vida cristã.

São Cirilo de Jerusalém expressava assim, em outras palavras, a mesma convicção: «Oh bondade extraordinária de Deus aos homens! Os justos do Antigo Testamento agradaram a Deus nas fadigas de longos anos; mas o que eles chegaram a obter, através de um longo e heróico serviço agradável a Deus, Jesus te dá no breve espaço de um agora. De fato, se tu crês que Jesus Cristo é o Senhor e que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo e serás introduzido no paraíso por aquele mesmo que ali introduziu o bom ladrão» [6].

4. Justificação e confissão

Dizia no começo que a justificação gratuita mediante a fé deve transformar-se em experiência vivida pelo crente. Nós, católicos, temos nisso uma vantagem enorme: os sacramentos e, em particular, o sacramento da reconciliação. Este nos oferece um meio excelente e infalível fazer cada vez mais novamente a experiência da justificação mediante a fé. Nela se renova aquilo que aconteceu uma vez no batismo, no qual, disse Paulo, o cristão foi «lavado, santificado e justificado» (cf. 1 Cor 6, 11).

Na confissão ocorre cada vez o «admirável intercâmbio», no admirabile commercium. Cristo toma sobre si meus pecado e eu tomo sobre mim sua justiça!

Em Roma, como em qualquer grande cidade, há infelizmente muitos chamados marginais, pobres irmãos vestidos com sujos farrapos que dormem ao tempo arrastando consigo suas poucas coisas. Imaginemos o que aconteceria se um dia se ouvisse por aí que na Via Condotti há uma butique de luxo onde cada um deles pode ir, deixar seus farrapos, tomar um bom banho, escolher a roupa de que mais goste e levá-la assim, gratuitamente, «sem gastos nem dinheiro», porque por algum desconhecido motivo o proprietário se deu à generosidade.

É o que acontece em cada confissão bem feita. Jesus reforçou com a parábola do filho pródigo: «Trazei depressa a melhor roupa» (Lc 15, 22).
Levantando-nos de novo depois de cada confissão, podemos exclamar com as palavras de Isaías: «Revestiu-me de roupas de salvação, em manto de justiça me envolveu» (Is 61, 10). Repete-se cada vez a história do publicano: «Oh Deus! Tende compaixão de mim, que sou pecador!». «Digo-vos que este voltou a sua casa justificado» (Lc 18, 13s).

5. «Para que possa conhecer a Ele»

De onde tirou S. Paulo a maravilhosa mensagem da justificação gratuita por meio da fé, em sintonia, como vimos, com a de Jesus? Não tirou dos livros dos Evangelhos, que ainda não haviam sido escritos, mas se acaso das tradições orais sobre a pregação de Jesus e sobretudo da própria experiência pessoal, isto é, de como Deus havia atuado em sua vida. Ele mesmo o afirma dizendo que o Evangelho que prega (este Evangelho da justificação pela fé!) não aprendeu de homens, mas pela revelação de Jesus Cristo, e relaciona tal revelação com o acontecimento da própria conversão (Cf. Ga 1, 11 ss).

Ao ler a descrição que São Paulo faz de sua conversão, em Filipenses 3, vem-me à mente a imagem de um homem que avança de noite, através de um bosque, à pálida luz de uma vela. Presta muita atenção para que não se apague, pois é tudo o que tem para fazer o caminho. Mas depois eis aqui que, seguindo seu caminhar, chega a aurora; no horizonte surge o sol, sua luzinha empalidece rapidamente até que já não se preocupa de tê-la na mão e a joga fora.

A luzinha era para Paulo sua justiça, um mísero pavio fumegante, ainda que fundado em títulos ressonantes: circundado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, judeu, fariseu, irrepreensível na observância da lei… (Cf. Fl 3, 5-6). Um bom dia, também no horizonte de sua vida apareceu o sol: o «sol de justiça» como ele chama, neste texto, com infinita devoção, «Cristo Jesus, meu Senhor», e então sua justiça lhe pareceu «perda», «lixo», e não quis já ser encontrado com uma justiça suja, mas com a que deriva da fé. Deus o fez experimentar antes, dramaticamente, aquilo que o chamava a revelar à Igreja.

Neste texto autobiográfico aparece claro que o centro focal de tudo não é, para Paulo, uma doutrina, ainda que fosse a da justificação mediante a fé, mas uma pessoa, Cristo. O que deseja sobre toda coisa é «ser encontrado nele», «conhecer a ele», onde aquele simples pronome pessoal diz infinitas coisas. Mostra que, para o Apóstolo, Cristo era uma pessoa real, viva, não uma abstração, um conjunto de títulos e de doutrinas.

A união mística com Cristo, mediante a participação em seu Espírito (o viver «em Cristo», ou «no Espírito»), é para ele a meta final da vida cristã; a justificação mediante a fé é só o início e um meio para alcançá-la [7]. Isto nos convida a superar as contingentes interpretações polêmicas da mensagem paulina, centradas no tema fé-obras, para reencontrar, por debaixo delas, o genuíno pensamento do Apóstolo. O que a ele importa antes de tudo afirmar não é que estamos justificados pela fé, mas que estamos justificados pela fé em Cristo; não é tanto que estamos justificados pela graça, mas estamos justificados pela graça de Cristo.

É Cristo o coração da mensagem, antes ainda que a graça e a fé. Depois de haver, nos precedentes dois capítulos e meio da Carta aos Romanos, apresentado a humanidade inteira em seu estado universal de pecado e de perdição («todos pecaram e estão privados da glória de Deus»), o Apóstolo tem o incrível valor de proclamar que esta situação mudou agora radicalmente para todos, judeus e gregos, «em virtude da redenção realizada em Cristo», «pela obediência de um só homem» (Rm 3, 24; 5, 19).

A afirmação de que esta salvação se recebe por fé e não por obras está presente no texto e era talvez o mais urgente de esclarecer no tempo de Lutero. Mas aquela chega em segundo lugar, não em primeiro, especialmente na Carta aos Romanos, onde a polêmica contra os judaizantes está muito menos presente que na Carta aos Gálatas. Cometeu-se o erro de reduzir a um problema de escolas, dentro do cristianismo, a que era, para o Apóstolo, uma afirmação ao alcance muito mais amplo e universal.

Na descrição das batalhas medievais há sempre um momento em que, superados os arqueiros, a cavalaria e todo o resto, a luta se concentrava em torno do rei. Aí se decidia o resultado final da batalha. Também para nós a batalha hoje está em torno do rei. Como no tempo de Paulo, a pessoa de Jesus Cristo é o que verdadeiramente está em jogo, não tal ou qual doutrina relativa a ele, por importante que essa seja. O cristianismo «permanece ou cai» com Jesus Cristo e com nada mais.

6. Esquecimento do passado

Na continuação do texto autobiográfico de Filipenses 3, Paulo nos sugere uma idéia prática com a qual concluir nossa reflexão:

«Irmãos, eu não creio ter alcançado todavia [a perfeição], mas uma coisa faço; esqueço o passado e me lanço ao futuro, correndo à meta para alcançar o prêmio ao qual Deus nos chama desde o alto, em Cristo Jesus» (Fl 3, 12-14).

«Esqueço o passado», Que «passado»? O do fariseu, do qual falou antes? Não, o passado de apóstolo, na Igreja! Agora a «ganância» a considerar «perda» é outra: é precisamente o ter já considerado uma vez tudo uma perda por causa de Cristo. Era natural pensar: «Que valor, esse Paulo: abandonar uma carreira de rabino tão bem encaminhada por uma obscura seita de galileus! E que cartas escreveu! Quantas viagens empreendeu, quantas igrejas fundou!».

O Apóstolo advertiu confusamente do perigo mortal de voltar a pôr entre ele e Cristo uma «justiça própria» derivada das obras –esta vez as obras realizadas por Cristo–, e reagiu energicamente. «Eu não creio –disse– ter alcançado a perfeição». São Francisco de Assis, em uma situação similar, abreviava ante qualquer tentação de auto-complacência dizendo: «Comecemos, irmãos, a servir ao Senhor, porque até agora pouco ou nada temos feito». [8]

Esta é a conversão mais necessária para aqueles que já seguiram a Cristo e viveram a seu serviço na Igreja. Uma conversão totalmente especial, que não consiste em abandonar o mal, mas, em certo sentido, em abandonar o bem! Isto é, em desapegar-se de tudo o que se fez, repetindo-se a si mesmo, segundo a sugestão de Cristo: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10). E nem sequer, talvez, o bem que devíamos fazer!

Um belo relato natalino nos faz chegar assim ao Natal, com o coração pobre e vazio de tudo. Entre os pastores que foram na noite de Natal adorar o Menino havia um tão pobrezinho que não tinha nada o que oferecer e se envergonhava muito. Chegados à gruta, todos rivalizavam para oferecer seus presentes. Maria não sabia como recebê-los todos, ao ter nos braços o Menino. Então, vendo o pastorzinho com as mãos livres, confiou-lhe Jesus. Ter as mãos vazias foi sua sorte e, em outro plano, será também a nossa.

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[1] Há atualmente quem queira ver na expressão «fé do Filho de Deus», ou «fé de Cristo», freqüente nos escritos paulinos (Rm 3,22.26; Gl 2, 16; 2, 20; 3, 22; Fl 3, 9), um genitivo subjetivo, como se se tratasse da fé própria de Cristo ou da fidelidade da qual ele dá prova sacrificando-se por nós. Prefiro ater-me à interpretação tradicional, seguida também por autorizados exegetas contemporâneos (Cf. Dunn, op. Cit. Pp. 380-386), que vê em Cristo o objeto, não o sujeito da fé; não portanto a fé de Cristo (supondo que se possa falar de fé nele), mas a fé em Cristo. Sobre ela o Apóstolo funda a própria vida e nos convida a fundar a nossa.
[2] S. Agostinho, E Espírito e a letra, 32, 56 (PL 44, 237).
[3] S. Cirilo Al., Comentário ao Evangelho de Lucas, 22, 26 (PG 729050).
[4] S. Tomás de Aquino, S. Th, I-IIae, q. 113, a. 4.
[5] Bernardo de Claraval, Sermões sobre o Cântico, 61, 4-5 (PL 183, 1072).
[6] Cirilo de Jerusalém, Catequesis V 10 (PG 33, 517).
[7] Cf. J. D. G. Dunn, A teologia do apóstolo Paulo, Brescia, Paidéia, 1999, p. 421.
[8] Celano, Vida primeira, 103 (Fontes Franciscanas, n. 500).

[Traduzido por Zenit] 


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