Formação

A Cruz de Cristo: amor, cura e salvação

Festa da Exaltação da Santa Cruz (Jo 3,13–17)

comshalom
Festa da Exaltação da Santa Cruz

Neste mês de setembro, mês da Bíblia, oferecemos a você caro(a) leitor(a) um texto para a sua Lectio baseada no podcast em que comentamos o Evangelho dominical no canal do YouTube “/@FelizesOsQueOuvem”. Meditemos então alguns pontos com o texto de hoje. 

Estamos no encontro noturno entre Jesus e Nicodemos (Jo 3,1–21). Nicodemos é um judeu notável, um fariseu, membro do Sinédrio, homem sério e sincero que vai encontrar-se com Jesus à noite. Ali, suas trevas têm encontro com a Luz. Jesus fala do novo nascimento, da e do desígnio do Pai. É dentro desse diálogo que aparecem os versículos da festa de hoje (Jo 3,13–17). Eles são uma janela para o coração de Deus: revelam o imenso amor do Pai, quem é o Filho Único, por que é necessário que Ele seja “levantado” e o que Deus quer de nós.

  1. Aquele que subiu é o que desceu

“Ninguém subiu ao céu a não ser aquele que desceu do céu: o Filho do Homem” (v. 13). Não se trata de uma escalada humana, mas de uma iniciativa divina. O Enviado do Pai desceu até nós para levar-nos ao Pai. Há, aqui, o movimento que atravessa todo o Evangelho: kénosis e exaltação. Jesus se abaixa (obediência até a morte e morte de cruz) e, por isso, o Pai o sobre-exalta (cf. Fl 2,6-11). Diante disso, a fé deixa de ser esforço de “subir sozinho” e se torna adesão humilde a quem já desceu para nos buscar.

  1. O Filho do Homem levantado

“Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado” (v.14). O “levantar” aponta à cruz e à glória. Por paradoxal que seja, na cruz, Jesus é exaltado: o patíbulo torna-se trono. E o fazer o sinal da cruz, tornar-se-á um gesto de ousadia, uma profissão de fé corajosa, como desde cedo a Igreja o atesta. Contemplar o Crucificado é ver o amor que sobe, erguido, para atrair todos a si (cf. Jo 12,32).

  1. Olhar para a serpente e olhar para Cristo

Em Números 21,4-9, no deserto, os israelitas mordidos pelas serpentes venenosas eram curados quando olhavam para a serpente de bronze erguida por Moisés numa haste. Deus mandou elevar o próprio sinal do pecado — e, ao olhá-lo, o povo reconhecia a culpa e recebia a cura. Na cruz acontece o cumprimento daquela profecia: vemos, ao mesmo tempo, a consequência do pecado (a morte) e a cura que Deus nos oferece. Olhar rendido para Jesus é confessar: “eu não posso me salvar”. É apresentar a ferida a quem a pode curar e salvar. Isto nos lembra Santa Teresa: “eu só peço que olheis para Ele(Caminho de Perfeição 26,3). A oração começa quando percebemos que Ele já nos olha.

  1. Fé e vida eterna

Duas vezes o texto de hoje repete: “para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.” (cf. Jo 3,15-16). Ao longo dos Evangelhos, Jesus diz: “seja feito conforme a tua fé” (Mt 8,13.9,29.15,28); “a tua fé te salvou” (Mc 5,34; Lc 7,50). A é condição para cura e salvação; ela nos une ao Salvador. E Deus se deixa tocar por qualquer ato sincero de fé. A vida eterna não é só no futuro distante; começa agora, cada vez que confio n’Ele.

  1. Deus amou tanto o mundo…

Chegamos ao Coração do Evangelho: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito…” (v. 16a). Não um filho adotivo, mas o Unigênito. Medimos a gravidade do pecado pela excelência da oferta: o sangue precioso do Filho Único derramado por nós. Deus quis salvar-nos assim, deixando um sinal visível para todas as gerações — o Crucificado — para recordarmos, simultaneamente, o nosso pecado assumido e o amor que o carregou. Daqui deve brotar gratidão: “Ele sofreu por mim”.

  1. Jesus não veio para condenar o mundo

Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar, mas para salvar (cf. v. 17). Na primeira vinda, Ele abre os braços, não aponta o dedo. A rejeição da luz é que autoexclui a pessoa. As trevas não se misturam com a luz. A condenação acontece quando eu recuso a misericórdia. Hoje é o tempo favorável para acolher o Enviado do Pai. Se, neste tempo nos inclinarmo-nos para Deus, na hora derradeira, também iremos nos inclinar para o bem eterno. O nome dessa salvação é Jesus (Yeshua: Deus salva).

Dicas de oração que brotam desses pontos:

  • Faça o sinal da cruz devagar, como profissão de fé e pertencimento a Cristo. “Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos, Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.”
  • Tendo em vista Jesus crucificado, una em sua memória os versículos dos Salmos: “o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51(50),5) e “tenho sempre o Senhor ante meus olhos” (Sl 16 (15),8). O mesmo olhar que reconhece a culpa enxerga o Senhor que a assumiu.
  • Lembre-se que tudo é graça. Não caia na tentação pelagiana de querer salvar-se por suas próprias forças; A cruz desmonta a ilusão da autossuficiência.

 

Sugestões de Passos para sua Lectio Divina 

Texto: Jo 3,13–17 (se puder, leia todo o diálogo: Jo 3,1–21).

  1. Lectio (Leitura)
    Leia devagar. Marque no texto as palavras: desceu, subiu, levantado, crê, vida eterna, amou, não para condenar, para salvar.
    Dica: leia o v. 16 substituindo “o mundo” pelo “seu nome”.
  2. Meditatio (Meditação)
    Pergunte-se:

    • Onde estou tentando “subir sozinho” em vez de deixar-me conduzir por quem desceu até a mim?
    • Qual “mordida da serpente” (pecado/ferida) eu preciso apresentar ao olhar de Cristo hoje?
    • O que, no meu cotidiano, mostra que creio (ou que ainda resisto) ao Senhor?

  3. Oratio (Oração)
    Fale com Jesus:

    • “Senhor, eu creio, ajuda a minha pouca fé.”
    • “Obrigado, Pai, porque me amaste tanto...”
    • “Toma Senhor (nomeie uma situação/ferida) e cura-me pelo Teu amor.”
  4. Contemplatio (Contemplação)
    Silêncio. Olhe para Ele — lembre-se: Ele já nos olha antes. Permaneça alguns minutos sem pedir nada, deixando que a certeza “Deus me amou” desça ao coração.
  5. Actio (Ação)
    Escolha um gesto concreto de quem crê no Crucificado: reconciliar-se, perdoar, consolar alguém, servir em silêncio, fazer o sinal da cruz com consciência antes de uma tarefa difícil.

Até a próxima semana. Shalom!


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *