Formação

A cruz gloriosa

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Cruz de Cristo
Cruz de Cristo

Como Moisés levantou uma serpente no deserto…

Atualmentea cruz já não se apresenta aos fiéis em seu aspecto de sofrimento, dedura necessidade da vida ou inclusive como um caminho para seguir aCristo, mas em seu aspecto glorioso, como motivo de honra, não depranto. Antes de tudo, digamos algo sobre a origem desta festa. Elarecorda dois acontecimentos distantes no tempo. O primeiro é ainauguração, por parte do imperador Constantino, de duas basílicas, umano Gólgota, outra no sepulcro de Cristo, no ano 325. O outroacontecimento, no século VII, é a vitória cristã contra os persas, quelevou à recuperação das relíquias da cruz e sua devolução triunfal aJerusalém. Contudo, com o passar do tempo, a festa adquiriu umsignificado autônomo. Converteu-se em uma celebração gloriosa domistério da cruz, que, sendo instrumento de ignomínia e de suplício,Cristo transformou em instrumento de salvação.

As leiturasrefletem esta perspectiva. A segunda leitura volta a propor o célebrehino da Carta aos Filipenses, onde se contempla a cruz como o motivo damaior «exaltação» de Cristo: «aniquilou-se a si mesmo, assumindo acondição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendoexteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais,tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus oexaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos osnomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terrae nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, queJesus Cristo é Senhor». Também o Evangelho fala da cruz como do momentono qual «o Filho do homem foi levantado para que todo o que creia tenhapor Ele vida eterna».

Houve, na história, dois modos fundamentaisde representar a cruz e o crucifixo. Os chamamos, por comodidade, de omodo antigo e o moderno. O modo antigo, que se pode admirar nosmosaicos das antigas basílicas e nos crucifixos da arte romântica, églorioso, festivo, cheio de majestade. A cruz, frequentemente sozinha,sem crucifixo, aparece projetada em um céu estrelado, e sob ela ainscrição: «Salvação do mundo, salus mundi», como em um célebre mosaico de Ravena.

Noscrucifixos de madeira da arte românica, este tipo de representação seexpressa no Cristo que reina com vestes reais e sacerdotais a partir dacruz, com os olhos abertos, o olhar para a frente, sem sombra desofrimento, mas radiante de majestade e vitória, já não coroado deespinhos, mas de pedras preciosas. É a tradução do versículo do salmo:«Deus reinou do madeiro» (regnavit a ligno Deus). Jesus falavade sua cruz nestes mesmos termos: como o momento de sua «exaltação»: «Equando eu for levantado da terra, atrairei todos para mim» (Jo 12, 32).

Aforma moderna começa com a arte gótica e se acentua cada vez mais, atéconverter-se no modo ordinário de representar o crucifixo. Um exemplo éa crucifixão de Matthias Grunewald no altar de Isenheim. As mãos de ospés se retorcem como arbustos ao redor dos cravos, a cabeça agoniza sobum feixe de espinhos, o corpo coberto de chagas. Igualmente, oscrucifixos de Velázquez e de Dali e de muitos outros pertencem a estetipo.

Os dois modos evidenciam um aspecto verdadeiro do mistério.A forma moderna-dramática, realista, pungente – representa a cruzvista, por assim dizer, por diante, «de cara», em sua crua realidade,no momento em que se morre nela. A cruz como símbolo do mal, dosofrimento do mundo e da tremenda realidade da morte. A cruz serepresenta aqui «em suas causas», isto é, naquilo que, habitualmente, aocasiona: o ódio, a maldade, a injustiça, o pecado.

O mundoantigo evidenciava não as causas, mas os efeitos da cruz; não aquiloque produz a cruz, mas o que é produzido pela cruz: reconciliação, paz,glória, segurança, vida eterna. A cruz que Paulo define como «glória»ou «honra» do crente. A festividade de 14 de setembro chama-se«exaltação» da cruz porque celebra precisamente este aspecto«exaltante» da cruz.

Deve-se unir à forma moderna de considerar acruz, a antiga: redescobrir a cruz gloriosa. Se no momento em que seexperimentava a provação, podia ser útil pensar em Jesus cravado nacruz entre dores e espasmos, porque isto fazia que o sentíssemospróximo a nossa dor, agora há que pensar na cruz de outro modo. Explicocom um exemplo. Perdemos recentemente uma pessoa querida, talvez depoisde meses de grande sofrimento. Pois bem: não há que continuar pensandonela como estava em seu leito, em tal circunstância, em tal outra, aque ponto se havia reduzido no final, o que fazia, o que dizia, talveztorturando a mente e o coração, alimentando inúteis sentimentos deculpa. Tudo isto terminou, já não existe, é irreal; atuando assim nãofazemos mais que prolongar o sofrimento e conservá-la artificialmentecom vida.

Há mães (não digo para julgá-las, mas para ajudá-las)que depois de terem acompanhado durante anos um filho em seu calvário,quando o Senhor o chama para Si, rechaçam viver de outra forma. Emcasa, tudo deve permanecer como estava no momento da morte do filho;tudo deve falar dele; visitas contínuas ao cemitério. Se há outrascrianças na família, devem adaptar-se a viver também neste climapermeado de morte, com grave dano psicológico. Estas pessoas são as quemais necessitam descobrir o sentido da festa de 14 de setembro: aexaltação da cruz. Já não és tu que leva a cruz, mas a cruz que televa; a cruz que não te arrebata, mas que te ergue.

Há que pensarna pessoa querida como é agora que "tudo terminou". Assim faziam comJesus os artistas antigos. Contemplavam-no como é agora, como está:ressuscitado, glorioso, feliz, sereno, sentado no trono de Deus, com oPai que "enxugou toda lágrima de seus olhos" e lhe deu "todo poder noscéus e na terra". Já não entre os espasmos da agonia e da morte. Nãodigo que se possa sempre dominar o próprio coração e impedir que sanguecom a recordação do sucedido, mas há que procurar que impere aconsideração de fé. Senão, para que serve a fé?


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