Já era mais um dia de quarentena, fui tomar café, embora sem vontade. Na cozinha, eu escutei o som do rádio do meu avô, que estava ligado como todas as manhãs. Neste dia, me deparei com um sentimento dentro de mim. Na verdade, era o mesmo dos outros dias, desde que tudo isso começou, só que agora com uma força maior. Eu me sentia desinstalada. Afinal, foi isso mesmo que aconteceu. Não posso sair e viver minha vida como antes.
E só de pensar que estava tudo indo tão bem na universidade, no encontro fiel com os meus amigos na lanchonete de sempre, sem falar no novo trabalho na livraria do meu bairro que eu iria começar.
Resolvi olhar pela janela, o que não ajudou, pois ali estava a cena mais frequente desses últimos dias: o vento levando e trazendo as folhas nas ruas, o food truck do café fechado, a única pessoa na rua era a vizinha varrendo a calçada. Eu sabia que a quarentena não impediria ela de varrer. Fechei a janela e fui até a sala onde estava o meu avô, Isaías. Ele desligou o rádio e, percebendo que eu não estava bem, perguntou: “O que foi, minha querida?” e sem demora, respondi: “Fui desinstalada, vô!” Ele disse, espontaneamente: “Que maravilha! Conheço alguém que também foi desinstalado e viveu com amor essa situação.” Ele, sabiamente, me começou a me contar a história de um Rei, muito rico – é claro – feliz, mas era diferente, ele mais servia do que era servido, tratava todos como filhos, era Justo e Santo.
Pelo fato de encantar a todos pelo bem que fazia, os políticos e outras pessoas começaram a se sentirem ameaçados por ele. Temiam perder a honra e o poder que tinham, então inventaram mentiras sobre o Rei, o prenderam e o condenaram, por causa do amor aos seus filhos, creio ter sido por isso, afinal ele nunca fez mal algum. O Rei aceitou passar por tudo isso com amor, silêncio e mansidão, pois sabia que aquilo passaria. “Viu?! Ele também foi desinstalado, precisou se submeter aos homens mesmo sendo rei. Mas tirou um grande bem dessa situação aparentemente mal: a salvação dos homens, a minha e a sua salvação. Ah, não posso deixar de te dizer o nome desse Rei, seu nome é Jesus de Nazaré, e o melhor é que Ele ressuscitou, está vivo e vive contigo esse tempo.”
Nossa, eu precisava ouvir aquilo. Agora meus dias de quarentena tem um sentido, na verdade, agora eu tenho um sentido. Agradeci meu avô, ele beijou minha testa e colocou na minha mão um bilhete que dizia assim: “Quando tudo dá certo na vida, o ser humano tende insensivelmente a concentrar-se em si mesmo – grande desgraça, porque se apodera dele o medo de perder tudo e vive ansioso e infeliz. Para o homem, A desinstalação é justamente a salvação.” Uma frase de Inácio de Larrañaga.
Percebi que antes, eu estava fechada em mim, afinal, nem lembro a última vez que conversei assim com meu avô. Essa história traz um novo rumo a minha vida e me convence de que, para mim, a desinstalação foi justamente a salvação.
Por Marcela Serrão
