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A excelência no lar

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A excelência no lar é um valor a recuperar. É o que sustenta nesta entrevista a filósofa Maria Pia Chirinos, professora de antropologia na Pontifícia Universidade da Santa Cruz.

–Que é excelência no lar?

–Chirinos: Curiosamente nos encontramos ante dois termos que se tornaram contraditórios: a excelência é o próprio do herói ou – em nossa sociedade – do homem de finanças, do cantor ou… do jogador de futebol. Mas não de quem exerce um trabalho tão cotidiano como o da casa.

E, no entanto, curiosamente também, aí onde o fast food se impôs, onde se perdeu o sentido do lar, encontramos mais famílias despedaçadas, mais desequilíbrios psíquicos, mais delinqüência juvenil, mais vício ao álcool e às drogas. Há estudos que demonstram isso até a saciedade: outra coisa é que se publiquem com essa crueza.

Mas independentemente disso, com «excelência no lar» me refiro a algo tão simples quanto sério. Concretamente: a não trivializar um elemento necessário para que a família funcione. Explico-me. É um dato certo que há milhares, centenas de milhares de pessoas que começam seu caminho matrimonial cheias de esperança no futuro. Querem ser felizes, desejam ter filhos, educá-los, compartilhar um projeto comum… Mas não poucos fracassam. Por quê? Como contribuir a que essa boa intenção chegue a bom porto?

As respostas são muitas. Uma é precisamente a excelência no lar. Isto é, outorgar mais relevância à dimensão material de uma casa e a seus trabalhos, que não vêm incluídos automaticamente na cerimônia de casamento, nem podem encontrar-se em um programa baixado gratuitamente da internet.

Daí a seriedade do tema: a excelência no lar implica um esforço comum dos esposos e logo dos filhos por criar um lugar como um clima de carinho e ajuda mútua, com tradições e personalidade próprias, fruto também de alguns trabalhos que transcendem a cotidianidade e a materialidade.

O autêntico bem-estar de um lar é algo muito diferente ao da suíte de um hotel de cinco estrelas, que ao terceiro dia cansa: a excelência do lar é esse traço que faz de uma casa algo mais que quatro paredes a todo luxo, mas sem calor. Esta excelência material e cotidiana, diria, é uma condição essencial do êxito de um casamento que ambiciona esse projeto comum, com êxitos e fracassos, mas sem omissões.

–Este primeiro encontro internacional teve o respaldo de uma entidade cristã. Quem aporta a visão cristã das tarefas domésticas ao debate?

–Chirinos: O respaldo da Dawliffe Hall Educational Foundation foi precisamente o que permitiu aportar essa visão e transcendê-la. De todas as maneiras, se me permite, antes de continuar gostaria de assinalar uma estranha maneira de entender a contribuição cristã a esse debate.

Há aqueles que pensam que a fé contribui a assumir os trabalhos do lar com toda a carga de renúncia e de sacrifício que parecem ter. Mas, compreendido perfeitamente que se tenham dado situações assim e inclusive que se sigam dando, o problema está mal enfocado e cabe outra visão também cristã e por isso profundamente humana.

Precisamente a fé nos coloca na pista correta porque corrobora uma idéia de fundo que, a meu ver, é a chave e que se deve ao fundador do Opus Dei, São Josemaría Escrivá de Balaguer: o trabalho, todo trabalho, desde o mais material até o mais intelectual, não é questão econômica, nem sociológica, mas antropológica. No caso dos trabalhos do lar, devem corresponder a uma autêntica vocação profissional, que exige preparação e dotes muito específicos, para que possam receber o qualificativo de «excelentes». Há que aprender a cuidar bem do lar.

–Como convenceria as pessoas a inscreverem-se em um congresso de assuntos domésticos?

–Chirinos: Dom Congresso em Londres participaram cerca de 300 pessoas de todo o mundo. A BBC fez uma reportagem de 4 minutos em seu informativo. O «Financial Times» publicou um amplo artigo dois dias antes do começo das sessões. Por quê? Talvez por tocar em um ponto candente de nossa sociedade.

Prova disso é um dado recente: o êxito de um artigo de Matthew Crawford, da Universidade de Virgínia, sobre o trabalho manual, que o «New York Times» qualificou de melhor ensaio de 2006. Em minha com o autor, compartilhei o problema e coincidimos na perspectiva antropológica de fundo e em «pôr o dedo na ferida»: «por que se desprestigiaram?». A resposta de Crawford é rotunda: foi-lhes tirado seu caráter racional. Acreditamos que qualquer trabalho manual possa ser substituído pela máquina.

Um Congresso sobre a excelência no lar é uma resposta positiva a este problema: pode-se e deve-se refletir para devolver-lhes seu caráter de conhecimento prático, tal e como Aristóteles definiu a poesia, obviamente com todas as limitações do caso. A isto, acrescentaria que são trabalhos criativos e artísticos: criam um habitat profundamente humanizador, capaz de facilitar e adquirir virtudes como a generosidade, o espírito de serviço, etc, muito necessários em uma sociedade individualista e consumista. Alasdair MacIntyre também o formulou em um de seus livros com uma noção muito interessante: a dependência humana.

Fonte: Zenit


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