Formação

A experiência da fé, um ato audaz

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Uma experiência vivida

     No documento deacordo entre a Igreja católica e a Federação mundial das Igrejasluteranas, apresentado solenemente na Basílica de São Pedro por JoãoPaulo II e o arcebispo de Uppsala em 1999, há uma recomendação finalque me parece de uma importância vital. Diz substancialmente isto:chegou o momento de fazer desta grande verdade uma experiência vividapelos crentes, e não mais um objeto de disputas teológicas entresábios, como sucedeu no passado.

     A celebração do Ano Paulino nosoferece uma ocasião propícia para fazer esta experiência. Ela pode darum respaldo a nossa vida espiritual, um descanso e uma liberdade novas.Charles Péguy contava, em terceira pessoa, a história do maior ato defé de sua vida. Um homem, diz (e se sabe que este homem era ele mesmo),tinha três filhos e um dia caíram enfermos, os três juntos. Então tinhafeito um ato de audácia. Ao pensar nisso se admirava também um pouco, ehá que dizer que havia sido verdadeiramente um ato arriscado. Como setomam três crianças do solo e se põem juntas, quase brincando, nosbraços de sua mãe ou de sua babá que ri e grita, dizendo que são muitase não terá forças para levá-las, assim ele, audaz, como um homem, haviatomado – entende-se, com a oração – seus três filhos enfermos etranquilamente os havia posto nos braços d’Aquela que carrega todas asdores do mundo: «Olha – dizia – lhes dou, me viro e vou para que não medevolvas. Já não os quero, veja bem. Deves encarregar-te deles». (Semmetáforas, tinha ido em peregrinação a pé desde Paris a Chartres paraconfiar a Nossa Senhora seus três filhos enfermos). Desde aquele diatudo foi bem, porque era a Santa Virgem que se ocupava deles. É curiosoque nem todos os cristãos façam isto. É muito simples, mas nunca sepensa no simples.

     A história nos serve neste momento parailustrar a idéia de um ato de audácia, porque se trata de algoparecido. A chave de tudo, se dizia, é a fé. Mas há diversos tipos defé: há a fé-assentimento do intelecto, a fé-confiança, afé-estabilidade, como a chama Isaías (7, 9). De que fé se trata, quandose fala da justificação «mediante a fé»? Trata-se de uma fé totalmenteessencial: a fé-apropriação.

     Escutemos, sobre este ponto, SãoBernardo: «Eu – diz –. O que não posso obter por mim mesmo, o aproprio(usurpo!), com confiança no Senhor, porque é cheio de misericórdia. Meumérito, por isso, é a misericórdia de Deus. Não me faltam méritos,enquanto ele seja rico em misericórdia. Se as misericórdias do Senhorsão muitas (Sal 119, 156), eu também abundarei em méritos. E o quedizer de minha justiça? Oh, Senhor, recordarei somente tua justiça. Defato ela é também minha, porque tu és para mim justiça da parte deDeus». Está escrito também que «Cristo Jesus… se converteu para nósem sabedoria, justiça, santificação e redenção (1 Cor 1, 30). Para nós,não para si mesmo!

     São Cirilo de Jerusalém expressava, com outraspalavras, a mesma idéia do ato de audácia da fé: «Oh bondadeextraordinária de Deus para com os homens! Os justos do AntigoTestamento agradaram a Deus nas fadigas de longos anos; mas o que eleschegaram a obter, após um longo e heróico serviço agradável a Deus,Jesus lhes dá no breve espaço de uma hora. De fato, se tu crês queJesus é o Senhor e que Deus o ressuscitou dentre os mortos, te salvaráse serás introduzido no Paraíso pelo mesmo que introduziu o bom ladrão».

     Imagina,escreve Cabasilas, desenvolvendo uma imagem de São João Crisóstomo, quetenha acontecido no estádio uma luta épica. Um bravo enfrentou um crueltirano e, com grande fadiga e sofrimento, o venceu. Tu não combateste,não esgotaste nem sofreste feridas. Mas te admiras do valente, tealegras com ele em sua vitória, provocas e agitas por ele a assembléia,te inclinas com alegria perante o triunfador, lhe beijas a cabeça e lhedás a mão, em resumo, se tanto o aclamas que consideras tua a vitória;eu te digo que terás certamente parte no prêmio do vencedor.

     Mashá mais: supõe que o vencedor não tenha necessidade alguma para simesmo de prêmio que conquistou, mas que deseja, mais que nenhuma coisa,ver honrado seu autor, e considera como prêmio de seu combate acoroação do amigo, em tal caso, esse homem não obterá a coroa, aindaque não se tenha esgotado nem tenha sido ferido? Certamente a obterá!Assim sucede entre Cristo e nós. Ainda não havendo trabalhado e lutado– ainda não tendo mérito algum –, contudo, por meio da fé nós aclamamosa luta de Cristo, admiramos sua vitória, honramos seu troféu que é acruz e mostramos pelo valente um amor veemente e inefável; fazemosnossas suas feridas e sua morte. E assim se obtém a salvação.

     A liturgia de Natal nos falará dosacrum commercium entrenós e Deus realizado em Cristo. A lei de toda troca se expressa nafórmula: o que é meu é teu e o que é teu é meu. Daí deriva que o que émeu, ou seja, o pecado, a fraqueza, passa a ser de Cristo; assim, asantidade passa a ser minha. Já que nós pertencemos a Cristo mais que anós mesmos (cf. 1 Cor 6, 19-20), se segue, escreve Cabasilas, que, aoinverso, a santidade de Cristo nos pertence mais que nossa própriasantidade. E isto é remontar na vida espiritual. Sua descoberta não sefaz, habitualmente, ao princípio, mas ao final do próprio itinerárioespiritual, quando se experimetaram os demais caminhos e se viu que nãolevam muito longe. 

     Na Igreja católica temos um meio privilegiadopara ter experiência concreta e cotidiana deste sagrado intercâmbio eda justificação pela graça, mediante a fé: os sacramentos. Cada vez queeu acorro ao sacramento da reconciliação tenho experiência de serjustificado pela graça,ex opere operato, como dizemos nateologia. Subo ao templo, digo a Deus: «Oh Deus, tem piedade de mim quesou um pecador» e, como o publicano, volto a casa «justificado» (Lc 18,14), perdoado, com a alma resplandecente, como no momento em que saí dafonte batismal. 

     Que São Paulo, neste ano dedicado a ele, nos obtenha a graça de fazer como é este ato de audácia da fé.


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