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A experiência do dom – A encíclica Papal

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

OPapa Bento XVI, na sua terceira Carta Encíclica, Caridade na Verdade,ilumina as reflexões acerca da fraternidade, desenvolvimento econômicoe sociedade civil com a admirável experiência do dom. Este é umcontraponto imprescindível como reverso de uma visão meramenteprodutiva e utilitarista da existência. Não se pode, pois, repensardinâmicas e esquemas em busca da superação das crises por novasconfigurações prescindindo da verdade central da fé cristã – tal oprincípio de que o ser humano está feito para o dom.

Acompreensão de si como dom é que exprime e realiza a dimensão datranscendência. Prescindir desta dimensão é cair no vazio produzido porum humanismo sem referências a valores que se ancoram para além dodinheiro e do mercado. Há quem pense que partir do bojo da genuinidadeética é caminhar na direção apenas de uma maestria sem vigor deprofecia. Há, na verdade, a demanda de uma profecia que só nasce destafonte ética, com propriedade para sustentar na profecia e na ação oscaminhos novos da conduta humana. Não bastaria simplesmente analisar eapontar criticamente os percalços sem a criação de condições pessoais ehumanitárias capazes de manter noutras direções os rumos dassociedades. Isto é, as direções da justiça e do respeito aos direitos.Quem e o que sustentará as práticas humanas que podem antecipar asfeições dos novos céus e da nova terra? Oxalá as indispensáveisanálises e as configurações de sistemas pudessem dar, por si mesmas,este sustento.

Nãodeixou e não deixa de existir sistemas que têm essa pretensão, perdendode vista o limite de sua territorialidade e a força de que dispõem pararealização de tarefa tão exigente. Por isso, sistemas se dissolveram – permanecem com suas teorias apenas os laivos teóricos sem asefetivações prometidas, cometendo barbáries de desrespeitos aosdireitos humanos e mantendo a liberdade humana refém de ideologias quese esvaem pelas condições próprias dos seus limites. Abordar econfigurar no horizonte das crises contemporâneas, na verdade uma crisede civilização, a experiência do dom é proposta profética de mudança deparadigma. A resistência para aceitação da indicação é grande.

Certamente,porque é mais fácil ou habitual o caminho das considerações próprias deuma visão meramente produtiva e utilitarista da humanidade. Ahumanidade não se sustenta apenas se o planeta, em si mesmo, se salvar.Há um sentido, como força imprescindível, que sustenta e fecunda oprocesso de busca dessa salvação ao planeta. Ou a conquista de uma novaordem econômica, sentido que vem da consideração ética, criando lastrosna cultura, da existência como dom.

BentoXVI, por isso mesmo, recorda que, erroneamente, o homem moderno sepensa como único autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Aanálise da realidade é um insubstituível instrumental paraindentificação de mecanismos que precisam ser desmontados,reconfigurados ou substituídos. Precisa, no entanto, de indicações,caminhos e experiências que, permanentemente, desmontem o fechamentoegoísta no qual o coração humano facilmente se enclausura. É sempreoportuno ter presente que não se pode ignorar a natureza humana ferida,inclinada para o mal. Ignorar essa perspectiva na busca de superação dagrande crise de civilização no cenário contemporâneo é dar lugar,reafirma o Papa no horizonte da doutrina católica, a graves erros nodomínio da educação, da política, da ação social e dos costumes. Istosignifica dizer,  que na economia, como noutros campos, os efeitosperniciosos são consequências do pecado. Persiste ainda a pretensãohumana, com força de convicção, da auto-suficiência, pretendendoeliminar o mal presente na história apenas com a própria ação.

Noâmbito da economia, sublinha o Papa Bento XVI, está presente aconvicção de que a exigência de autonomia não deve aceitar influênciasde caráter moral. Aí está uma explicação, pensando especificamente oâmbito da economia, porque ocorre usos abusivos e destrutivos dosinstrumentos econômicos. Fica claro porque sistemas econômico, sociaise políticos, diz o Papa, espezinharam a liberdade da pessoa e doscorpos sociais, permanecendo incapazes de assegurar a justiça queprometiam. O serviço ao desenvolvimento humano integral não se esgotarájamais na acuidade de análises, por mais que adentrem os seusrecônditos.

Hárecursos que estão na compreensão, pois, da existência como dom. Éimportante ter presente, afirma Bento XVI, na Carta Encíclica, que odom ultrapassa o mérito. A sua regra é a gratuidade. Na existência comodom, a verdade não é produzida, simplesmente, pela pessoa. A verdade édada, encontrada, recebida. Tal como o amor, ele recorda, a verdade nãonasce da inteligência e da vontade, mas de certa forma impõe-se ao serhumano. Há uma lógica própria do dom. Deve ser explicitada para levar àexperiência.


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