É tempo de conversão. Assim disse o Papa Francisco em sua homilia de cinzas. Tempo de acostumar nosso coração às ausências que a Quaresma nos chama a viver. É tempo de rasgar nossa carne, paixões e tudo mais que nos torna presos a nós mesmos. É tempo de viver mais intensamente a oração que nos leva a Deus e o jejum que nos liberta do apego às coisas materiais.
É tempo de silenciar o coração. De olhar para dentro. De revisar nossa bagagem, despojar os excessos, aparar as arestas do nosso agir. É tempo de nos olharmos de frente, nos despirmos diante de Deus com as verdades mais profundas, sem medo da exposição.
Deus cura, Deus faz, Deus junta. Deus tudo coloca no lugar. O que hoje você anseia que seja ordenado por Deus? Quais realidades convidam à mortificação, à espera, à oferta? Quais as ausências precisam ser sentidas para que hoje você seja capaz de valorizar mais as pessoas e bens que Deus o concedeu?
Para perceber que o que parecia ser essencial não é e para reconhecer que o que não é presente faz falta, é tempo de orientarmos nosso interior para as coisas que não passam, de buscar as coisas do alto e assim darmos pesos e medidas adequadas a todas as realidades e pessoas que nos cercam.
Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. (Mt 6,21)
A frase do evangelista, propícia para esse tempo, nos alerta para a importância de termos nosso coração ancorado em Deus, encontrando-O no silêncio, na Palavra, nos Sacramentos, na simplicidade da vida e nas pessoas que nos cercam.
Suportar as faltas é um jeito divino de descobrirmos o real valor daquilo que somos e temos. É na falta que percebemos que algo “sobra” nas nossas vidas e que, portanto podemos nos desapegar e que outras são de fato importantes. Na falta nos damos conta do quanto estamos envolvidos e a partir daí somos capazes de equilibrar nossos afetos e ações.
Nos tempos de bonança quando tudo está bem, quando estamos do lado dos pais, com estudo, trabalho, maridos, namorados, com a nossa fé em dia, atuantes em tudo que nos propomos a fazer corremos o risco de “perdermos” a capacidade de dar o real valor ao que temos. Corremos o risco de exceder o valor que damos a cada uma delas ou mesmo de não valorizá-las como deveríamos. É nesse contexto que a falta de algum desses itens nos ajuda a valorizar ordenadamente nossos afetos em relação a cada um deles. A falta é esse termômetro.
A perda é uma forma de purificar nossos sentidos. É um modo de reconhecermos a falta que a falta faz: nas perdas, nas crises de fé, nas ausências das pessoas queridas, nas cisões inesperadas. São nestas e em outras situações que aprendemos a reconhecer o valor do que temos e somos. Por isso a falta é tão necessária, porque ela equilibra, ordena e purifica. A quaresma é esse tempo, tempo de falta, falta que conduz à verdade.
Que ela seja para cada um de nós um tempo de reconhecer o valor das ausências e assim sejamos mais firmes no propósito de bem vivermos esse momento. Para nós a pergunta que nos abre caminhos: o que hoje precisa ou deveria faltar? Onde há apegos em sua vida? O que precisa ganhar um novo sentido, ser equilibrado, purificado na cruz do Deus que morreu por nós.
Que essa quarentena seja um tempo de encontros: com Deus e com nós mesmos. Um verdadeiro tempo de voltar para o Senhor e como que espelhados retornar a nós mesmos, agora purificados.
Elisangela Assis
Jovem em Missão – Brasília
