O evangelho nos apresenta um milagre operado por Jesus em favor de dez leprosos e como apenas um deles voltou para agradecer.
Jesus, na fronteira entre a Galiléia e a Samaria, prepara-se para enfrentar a última “subida a Jerusalém”.
Um grupo de leprosos permanece à distância, segundo a lei, Levítico 13,45-46. Jesus lhes impõe agir segundo a lei, como se já tivessem obtido a cura. Nos sinais que opera, Jesus realiza sua missão profética: para além do anúncio do novo tempo que chegou com Ele, está também a observação ao povo que recebeu a eleição.
Observação para tomar consciência de seu pecado de infidelidade pois havia se esquecido de ser salvo por Deus, perdendo-se atrás de suas leis. No episódio do Evangelho, vemos reflexos das atitudes possíveis diante do milagre nos nove leprosos que não voltam atrás, atitude utilitarista de quem procura o milagre pelo milagre, e depois a atitude do décimo leproso que se viu curado e voltou imediatamente para agradecer, atitude justa de quem não procura somente milagres de Deus, mas antes o Deus dos milagres. Este não obteve somente a saúde, mas também a salvação. Jesus o despede: “Levanta-te e vai, a tua fé te salvou!”
O homem agraciado que volta atrás para agradecer tem feições bem características: é estrangeiro, samaritano, é leproso, isto é impuro, golpeado, amaldiçoado.
Possui feições que nos evocam outras bem conhecidas: “Samaritano, endemoniado! diziam dele” (João 8, 48).
Há semelhança no agraciado: consangüinidade com o rosto mesmo do Doador gratuito, Cristo, que antes ainda de proporcionar qualquer coisa, assumiu a mesma condição daquele que estava na necessidade – fez-se semelhante com ele, para abrir-lhe a porta da salvação.
É esse portanto o rosto do homem renovado pelo encontro com Cristo: rosto de estrangeiro e de leproso; depois rosto de libertado da lei, rosto de alegria no reconhecimento, para expandir livremente.
Diante de Deus, o homem agradecido é como estrangeiro, desprovido de toda segurança e garantia que pode constituir a convivência no mesmo ambiente.
Todos os homens foram sempre estrangeiros e peregrinos diante de Deus. Existe um único terreno de possível encontro, única palavra de comum linguagem: o grito da fé, único sinal que pode fazer-nos reconhecidos por ele como “seus”.
A condição de estrangeiro que também crê, que permite ao samaritano criar em si mesmo espaço para a gratidão: espaço para o assombro e a alegria de descobrir-se gratuitamente libertado; espaço para acolher imediatamente o sopro da vida nova, do amor gratuito, para sincronizar, com a amplitude daquele sopro, o ritmo de sua respiração interior. Um espaço para a liberdade da lei; espaço de liberdade para dizer um simples, mas agradecido obrigado. Tudo isso, somente ao estrangeiro amaldiçoado, ao leproso samaritano.
No grupo dos leprosos itinerantes estava a condição desesperada para criar o início de comunhão, de solidariedade muito além da posta pelos homens, uma comunhão, pobre mas única, premissa à nova comunidade criada pela libertação do Cristo.
A lepra, na história da aliança, foi muitas vezes interpretada como sinal da incredulidade (Êxodo 9,9), de um corpo deturpado e consumido pela não-fé, pela recusa de acolher a lógica de Deus. Com rosto de leproso, o homem levantou os seus olhos para Deus, o que será já o início da libertação. E Jesus lhes disse:”Ide, estais curados!”
A lepra foi também na história do povo de Deus, sinal de inveja (Números 12,10), levava consigo a condenação (Levítico 12,10), a não comunhão; o atingido era afastado, excluído, solitário, sem Deus e sem comunhão humana. Por isso, Jesus diz aos homens leprosos: Estais curados, voltai a viver na comunhão.
No mundo de hoje há os que procuram o milagre a todo custo; estão sempre à caça de fatos extraordinários, param neles e na sua utilidade imediata. Há também os que não admitem o milagre; olham-no como se se tratasse de manifestação de deteriorada religiosidade, pretendendo dizer a Deus o que é a verdadeira religiosidade e o que não é.
O milagre quando acolhido com gratidão e alegria, suscita fé em Cristo e abre para a esperança de um mundo futuro sem doença nem morte. Que ele aconteça desde já!
*Dom Geraldo M. Agnelo é cardeal Arcebispo de Salvador
Fonte: CNBB