Depois de mergulharmos na ação do Espírito Santo na Eucaristia celebrada, eu gostaria de propor-vos uma outra meditação: A beleza da liturgia como caminho de evangelização e de contemplação da glória de Deus.
Quando Deus, o Belo por excelência, criou o mundo, em tudo colocou os traços da sua beleza. A narrativa do Gênesis nos indica que Deus ao final de cada dia, olhava a sua obra e via que era belo (ou bom, em algumas traduções) o que tinha feito (cf. Gn 1,1ss). Antes da criação a terra era vazia e disforme, (o Cardeal Cantalamessa O.F.M. Cap. fala de um caos), mas o Espírito de Deus, o Espírito Criador, veio pairar sobre o caos e transformou, fez o caos passar ao cosmos, deu beleza!
Quando Deus criou o homem, o fez à sua imagem e semelhança e quando o homem pecou deturpando a sua beleza, quando ele se distanciou de Deus, ainda assim Deus continuou comunicando a sua beleza ao homem. Exemplo disso nós encontramos nas manifestações de Deus a Abraão, a Moisés, a Elias… Foi o próprio Deus que inspirou o culto divino e ordenou detalhadamente como deveria ser a construção do Templo e a confecção dos seus utensílios e das vestimentas dos sacerdotes.
As Sagradas Escrituras estão repletas de passagens que nos fazem entender a beleza do culto divino, como uma manifestação da shekinah, a glória de Deus (cf. Sl 19(18),1). Uma das mais tocantes para mim é a do salmista que diante da maravilha de Deus diz com toda sua alma: “que eu possa habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu Templo” (Sl 27(26),4).
Também o Salmo 83(84),2-4 canta: Como são amáveis os altares do Senhor e diletas as suas moradas. E ainda este: “Grande é o Senhor e muito digno de louvores, na cidade onde ele mora e seu monte santo, esta colina encantadora é a alegria do universo” (Sl 48(47),2s).
Na plenitude dos tempos o Verbo se fez carne, assumiu nossa condição humana, a verdadeira luz, diz São João resplandeceu entre nós e nós vimos a sua glória (cf. Jo 1,1-15). Jesus é o Bom e Belo Pastor que ensina que a beleza está em entregar a vida e recebê-la ressuscitada das mãos do Pai. Ele mostrou que a beleza está no serviço, no amor que se abaixa. Na última ceia ensinou aos seus discípulos a celebrar a memória da sua presença no Seu corpo dado e no Seu sangue derramado, utilizando os sinais do pão e do vinho. Com o passar do tempo, o Espírito Criador foi gerando uma consciência litúrgica, inspirando as orações, os cantos, as vestes, os sinais… A Palavra se traduziu em arte nos ícones, nas pinturas, nas esculturas…

Aquela beleza fulgurante que os discípulos contemplaram no Tabor agora se manifesta de modo sacramental em cada celebração eucarística. O Espírito Criador inspirou inúmeros mestres da arte em todos os campos e continua a inspirar as ações e os atos do seu povo que realiza a liturgia na dança da vida, oferecendo ao Senhor o labor e o amor e fazendo do seu coração um verdadeiro altar. E cada sacerdote, in persona Christi, toma as espécies do pão e do vinho para torná-las Corpo e Sangue do Senhor.
A beleza de Deus vem ao encontro do homem todos os dias e de muitas formas, em toda a criação, no exemplo dos Santos, na liturgia e de maneira especial na Eucaristia. Nela o mistério do amor de Deus perpassa o tempo e a história, preenchendo toda a nossa existência de significado e beleza. Em torno do altar o Ressuscitado que passou pela Cruz nos comunica a sua vida divina, nos une em um só Corpo e tendo sido feitos com Ele, por Ele e Nele membros desse mesmo Corpo, Ele mesmo nos torna participantes da sua beleza.
Neste sentido podemos já compreender que a beleza da liturgia não serve somente para ser contemplada como algo estático, mas ela é um agente de transformação de quem participa da ação sagrada. Pavel A. Florensky, o grande gênio e mártir russo, dizia:
“o sentido da vida espiritual, de cada ato cristão, é chegar a ser belo”.
Segundo Santo Agostinho, a beleza da criação é uma confessio que nos convida a contemplar a beleza em sua fonte: o “Criador do céu e da terra, do universo visível e invisível”; Se a beleza das obras de arte revela algo, ainda que sob muitas sobras, da beleza da figura do Filho que se fez carne, “o mais belo dos filhos do homem” (Sl 45(44),3);
Existe ainda um terceiro caminho fundamental, que leva à descoberta da beleza no ícone de santidade, a obra do Espírito que plasma a Igreja à imagem de Cristo, modelo de perfeição: para os batizados, a beleza do testemunho dado por meio de uma vida transformada pela graça e, para a Igreja, a beleza da liturgia que permite experimentar Deus, vivo no meio do seu povo, e que atrai a si a quem se deixa abraçar, cheio de alegria e amor. Falando da Beleza e liturgia, o Papa Bento XVI assim se expressou: “[Na liturgia], o esplendor da glória de Deus supera toda a beleza do mundo. A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal” (SC 35).
A lenda do príncipe de Kiev
Uma antiga lenda relacionada às origens do cristianismo na Rússia conta que o príncipe Vladimir I, de Kiev, decidiu se juntar à Igreja Ortodoxa de Constantinopla depois de ouvir os emissários que ele havia enviado para Constantinopla, onde testemunharam uma liturgia solene na Basílica de Hagia Sophia (Santa Sofia). Eles disseram ao príncipe: “Não sabemos se estivemos no céu ou na terra… experimentamos que Deus habita entre os homens”. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium recorda que:
“A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da atividade evangelizadora e fonte de um renovado impulso para se dar.” (EG 24)
A experiência de fé de Paul Claudel
Quando recorda a sua conversão, o poeta e dramaturgo francês Paul Claudel testemunha a força íntima da liturgia. Estando em Paris, na Catedral de Notre-Dame, durante os tradicionais ofícios das Vésperas de Natal, ele escutou o Magnificat: “E foi quando ocorreu o evento que domina toda a minha vida. Em um instante meu coração foi tocado e eu acreditei. Eu acreditava, com tal força de adesão, com tal elevação de todo o meu ser, com uma convicção tão poderosa, com uma certeza que não deixou lugar para qualquer tipo de dúvida, que, mais tarde, nem os livros, nem os raciocínios, nem as circunstâncias de uma vida agitada, poderia abalar minha fé, nem, para dizer a verdade, afetá-la.”
A beleza da liturgia, desse momento essencial de experiência da fé, desse momento mais importante da história, como afirmou o Papa Leão XIV é o caminho para uma fé madura. Na celebração eu faço a experiência do encontro com Deus e com os irmãos expressa através de gestos, símbolos, palavras, imagens e melodias que tocam o profundo do coração e o espírito despertando o desejo de encontrar o Ressuscitado, que é a “Porta da Beleza”, como nos diz D. Bruno Forte.
Na próxima semana continuaremos o nosso itinerário, falando um pouco mais sobre a importância da beleza como um caminho de evangelização.
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