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Essa máxima funciona para um sem número de coisas: é uma lei de mercado, aplica-se aos relacionamentos humanos e, desapercebido pra mim até há poucos dias, serve também para os sacramentos. Desde o início desse tempo de crise, em que o acesso a quase tudo foi limitado, ir à missa, receber a Eucaristia e até adorar a Jesus sacramentado se tornou um verdadeiro privilégio. Pois bem, é nesse tempo que Deus me chama a uma nova decisão.
Sou consagrado da CAL, em promessas temporárias, mas rumo ao Eterno, às Promessas Definitivas, que se aproximam cada vez mais, com a graça de Deus. Há 4 anos, fiz as primeiras promessas de pobreza, castidade e obediência, assumindo também os diversos compromissos que a Vocação me convida a abraçar. Uma hora de oração pessoal diária, uma hora de estudo bíblico todos os dias, uma hora de adoração semanal a Jesus Eucarístico, Comunhão de Bens (…) e a missa diária.
Parece muita coisa. De fato. São os compromissos assumidos por quem decidiu atender ao chamado de Deus, colocando a Vocação como grande prioridade de sua vida, em meio aos compromissos familiares, profissionais, vida acadêmica, lazer… É tudo parte da mesma e única Vocação ao Carisma Shalom. Viver tudo isso é algo deveras sobrenatural, possível somente com a determinada determinação descrita por Santa Teresa de Ávila, com o socorro da graça de Deus. Na prática, cumprir cada um desses compromissos, que assumi diante de Deus, da Igreja e dos meus irmãos, havia se tornado algo menos do que realmente é. A vida corrida – tão comum neste tempo – havia se tornado para mim uma desculpa fácil e suficiente para justificar algumas das minhas falhas nesses compromissos – assumidos diante de Deus, da Igreja e dos meus irmãos. A missa diária era quase opcional: eu ia quando dava. Meu trabalho, assim como o trabalho de tantos irmãos, é deveras exigente e, não raro, eu precisava dar aquela esticadinha e ficar até mais tarde, antes de ir para o Shalom, para cumprir alguns daqueles compromissos. Essas esticadas, no entanto, me tiraram da missa.
À minha rotina: Acordo cedo para rezar. Me decidi por viver o que diz aquele salmo das laudes: “Desde a aurora, ansioso, Vos busco”. (Sl 62, 2), ou aquele outro salmo, que talvez seja mais parecido com a vida que só quem é da comunidade de aliança pode descrever: “Quero acordar a aurora!” (Sl 56, 9). Ir à missa pela manhã me exigiria acordar ainda mais cedo e se tornara, na minha cabeça fraca e limitada, impossível. Tudo bem, eu pensava, já que tem a missa das 18h na Santa Rita. Doce ilusão. Lembram do trabalho? Pois é… muitas esticadinhas… Muitas reuniões de fim de expediente… Muitos planejamentos do dia de amanhã. Muitas coisas para me roubar de Deus e do estilo de vida, alegremente abraçado por mim. Alerta de spoiler: Deus sempre dá um jeito! Graças a Deus, as minhas autoridades nunca passaram a mão na minha cabeça fraca e limitada, me motivando a “dar meus pulos” para ser fiel a Deus e ao Chamado, mesmo que isso se tornasse desafiante como fosse. Por Deus, para encontrá-lo, vale a pena todo o sacrifício, como nos ensina o nosso fundador.
A intervenção de José, O FIEL! Foi motivado por esse desejo de ir além que eu me decidi por ir à missa logo cedo, mas, como sou fraco e preciso sempre estar sobre os ombros de gigantes, apresentei essa intenção no primeiro dia da novena de São José, após ler a sua carta – bendita carta, parte da campanha São José 100% fiel, em 2020. Obrigado, economato geral! No outro dia, 17 de março de 2020, comecei a ir à missa da manhã, numa Igreja que fica a 10 minutos da minha casa e a 10 minutos do meu trabalho. Seria o início de uma fase nova, contando com a graça de Deus e a intercessão de São José, mas… Mas no dia 18 de março, motivado pelos decretos estadual e municipal, o bispo da minha cidade decretou a suspensão das missas públicas, fazendo com que fossem transmitidas pela rádio as missas privadas que seriam celebradas daquele dia em diante. “O valor das coisas aumenta quando não é tão fácil conquistá-las”. É possível imaginar a mini revolução que meu coração iniciou, num estado de completa estupefação diante daquela decisão? A minha oração nesse dia foi mais ou menos assim:”Olá, Senhor. Bom dia, tudo bem? Então… o que o Senhor quer com isso tudo? Justamente quando eu me decido acontece isso?”.
A resposta silenciosa de Deus para mim foi uma lembrança de que se deve confiar nEle, porque Ele sabe o que faz o tempo todo. Achei que deveria me concentrar e viver piedosamente este tempo doloroso acompanhando a missa pela rádio. Até que eu li uma mensagem enviado no grupo do whatsapp da CAL de Petrolina: “Irmãos, o pessoal da Catedral está precisando de tocadores e cantores para servirem nas missas que são transmitidas na rádio, em todos os horários. Será feita uma escala. Aqueles que puderem, mandem a disponibilidade.” Aquela mini revolução interna havia ganhado um sentido. Aquela resposta de Deus havia se transformado em graça concreta. A minha resposta foi imediata: “Irmão, pode me colocar, todos os dias, na missa das 6:25. Nas do domingo, na que for possível.” A alegria chegou na resposta: “Jomário, você está escalado para sexta, sábado, segunda, terça e quinta”. Dá pra medir?
Tempos depois, o Senhor me inspirou a rezar na capela da mesma Igreja Catedral, uma hora, antes de ir ao trabalho. De fato, foi um tempo de graça. O que experimentei nesses dias foi a graça de Deus. Vê-se, pelo que descrevi, que não sou o irmão mais merecedor dessa graça, mas Deus não liga pra essas coisas de mérito. No final das contas, nem o mais valoroso dos homens tem mérito algum, senão a Cruz de Cristo e os méritos alcançados por Ele através de sua oferta. Méritos estes que de graça – e por graça – recebemos. Nestes dias de crise, tive a oportunidade de levar ao altar de Cristo cada um dos meus irmãos, numa experiência com a infinita Misericórdia de Deus, renovada diariamente na Eucaristia. Nestes dias, tive a oportunidade de levar a esperança para as pessoas que tem ficado cada vez mais assustadas diante das notícias nada boas que sido veiculadas em todas as redes. Nesse tempo, tenho tido a oportunidade de rezar pelos que tem sido vítimas dessa peste que silenciosamente se espalha, e pelo mal do medo que se espalha estrondosamente. Tive a certeza de que Deus nos mantém firmes se nEle confiamos. Percebi que a via para se manter são é a confiança em Deus que tudo sabe, que tudo faz pelo bem dos que Ele ama.
Depois de alguns meses, as Missas voltaram a ser públicas, mas nesta semana, mais uma vez, foi decretado novo lockdow. Isso me trouxe à memória esse texto, escrito há mais de 8 meses, mas ainda engavetado. Resolvi partilhar, particularmente hoje, dia de São José, para que eu possa testemunhar que, de fato, não há ninguém que tenha recorrido a ele e tenha sido esquecido. Nesse tempo, vi claramente o quanto Deus me ama. Isso não é pequeno. Na próxima semana, voltarei ao ofício que o isolamento me impôs, mas que é uma imensa graça de Deus: rezar por cada irmão, na Eucaristia que diariamente o Senhor me deu a graça de receber, sem nenhum mérito meu. Rezem por mim! Que Deus me mantenha fiel à vida que eu assumi diante de Deus, da Igreja e dos meus irmãos, com a graça que só quem é filho de Deus sabe que Ele é capaz de abundantemente derramar sobre nós.
Shalom!
Jomário Gama, Consagrado na Comunidade Shalom, Missão Petrolina.