Parresia

A linguagem é anterior ao homem, é uma ferramenta de Deus

Temos com a vinda do Espírito Santo, as palavras acertadas prometidas por Jesus (Mt 10, 19), que unifica os homens na linguagem do amor, fazendo com que cada pessoa ouça em sua própria língua as maravilhas de Deus (At 2, 11).

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Na narrativa da criação do livro de Gênesis, vemos o uso da linguagem por Deus que altera a condição vazia e vaga da terra e retira as trevas que cobriam o abismo. Ao falar, Deus cria a luz, o firmamento, a natureza, o dia, a noite, os animais e, finalmente, cria o homem à Sua imagem e semelhança. Nos 31 versículos do primeiro capítulo, lemos a frase “Deus disse[1]” pelo menos onze vezes! E ao fim, Deus viu que tudo era “muito bom”.

Percebemos que a linguagem é anterior ao homem, sendo uma ferramenta usada por Deus para por ordem, criar e expressar-se tal como Ele desejar. Esta mesma linguagem é dada ao homem ao ser criado. Nenhuma outra criatura no livro de Gênesis comunica-se com Deus como Adão e Eva. No versículo 19 do capítulo 2, está escrito: “Iahweh Deus modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual deveria levar o nome que o homem lhe desse”. Da mesma forma que Deus usa a linguagem, também o homem recebe essa capacidade e liberdade para por ordem, dialogar uns com os outros e com Deus, assim como administrar a criação.

Que belo dom recebido de Deus é o da linguagem! Ela é um dos muitos aspectos que caracteriza o homem como “pessoa” e não apenas “indivíduo”. Diz-nos o, então, Karol Wojtyla que “há no homem alguma coisa mais, uma plenitude e uma perfeição de ser particulares, que não se podem exprimir senão usando a palavra ‘pessoa’” (WOJTYLA, 1982). Por meio das formas de expressão humanas, o homem é capaz de possuir uma vida interior e pertencer ao mundo objetivo “exterior” e fazer parte dele de uma maneira que lhe é própria. Continua Wojtyla:

É preciso acrescentar que a pessoa assim se comunica não só com o mundo visível, mas também com o mundo invisível, e sobretudo com Deus. Este é outro sintoma da especificidade da pessoa no mundo visível. A comunicação da pessoa com o mundo objetivo, com a realidade, não é só física, como acontece com todos os seres da natureza, e nem somente sensitiva, como nos animais. Enquanto sujeito claramente definido, a pessoa humana se comunica com os outros seres por meio da própria interioridade (…) (WOJTYLA, 1982, p. 17).

É exatamente nessa capacidade de comunicar-se que o homem se difere dos animais e assume caráter de pessoa. Como pessoa, somos capazes de nos comunicar com toda a criação, assim como estabelecermos um relacionamento pessoal com Deus. Desastrosamente, o Inimigo de Deus, também capaz de comunicar-se, tentou o homem deturpando as palavras do Criador e, com trocadilhos desonestos, confunde o homem, que cede aos seus argumentos. Daí em diante, aquilo que era instrumento de expressão da beleza divina, passa por um processo de dominação, desarmonia e corrupção (cf. Catecismo, 399).

A má intenção presente dentro de nós transformou a linguagem em um meio para alcançar os próprios objetivos. Fomos confundidos, ao ponto de queremos construir “uma cidade e uma torre cujo ápice penetrasse os céus” (Gn 11, 4). Sabendo do fim trágico que teríamos, Deus age em nosso favor: “Iahweh confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra e foi aí que ele os dispersou sobre toda a face da terra” (Gn 11, 9).

Para nossa salvação, o logos, traduzido por palavra, razão ou, para filosofia estoica, “princípio que anima e organiza a matéria, agindo como força determinante do destino e da racionalidade humanas”, precisou encarnar-se e habitar entre nós. Sim, na interpretação cristã-católica, Jesus Cristo é o logos divino e Ele, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo, 14, 6), assumiu nossa humanidade e redimiu-nos de todo pecado que separara o homem de Deus e o confundira da sua identidade.

Seguindo o Caminho, permanecendo na Verdade e assumindo a Vida de Jesus Cristo em nossas vidas, somos redimidos e conquistamos de volta a capacidade de fazer da linguagem um instrumento de expressão da verdade e beleza divinas. A linguagem não será usada para criar “verdades” conforme consensos sociais (cf. Ducro, 1987) mas servirá para desvelar os mistérios de Deus no mundo, em todos os tempos.

Finalmente, daquilo que foi confundido e dispersado, temos com a vinda do Espírito Santo, as palavras acertadas prometidas por Jesus (Mt 10, 19), que unifica os homens na linguagem do amor, fazendo com que cada pessoa ouça em sua própria língua as maravilhas de Deus (At 2, 11).

Por William Rocha
Mestre em Estudos da Tradução e Consagrado da Comunidade de Aliança Shalom

Referências

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 3ª. ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993.

DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.

WOJTYLA, K. Amor e responsabilidade: estudo ético. São Paulo: Loyola, 1982.

Notas

[1] Trechos retirados da Bíblia de Jerusalém.

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