Formação

A Lista

comshalom

Dom Pedro José Conti

Ocasal festejava os 50 anos de matrimônio. Filhos, netos, parentes eamigos participavam da bonita festa. Os velhos pais mereciam tudoaquilo. A cidade era pequena e raramente tinha “bodas de ouro”. A TVlocal filmou o evento e entrevistou os dois jubilados. Como era de seesperar, o repórter perguntou à mulher qual era o segredo dela paraconseguir levar em frente aquele matrimônio por tantos anos. A esposarespondeu com segurança:

– Quando casei, disse a mim mesma que faria uma lista de dez situaçõese erros que não iria tolerar absolutamente em meu marido. Assim quandoele aprontava alguma coisa, e me deixava triste e com raiva, eupensava: ainda bem que o que ele fez não está na minha lista, senãoiria acabar, hoje mesmo, com o nosso matrimônio.

Orepórter continuou: – Os nossos telespectadores estão ansiosos paraconhecer esta famosa lista de erros, que você diz que não toleraria, dejeito nenhum, no seu marido. Pode nos revelar gentilmente esta lista?

A idosa senhora respirou fundo, parou um instante como se fosse buscar na memória, depois falou:

– Bom, vou dizer a verdade: nunca escrevi esta lista.

Éevidente que o segredo do casal da história se chamava perdão. Nãotendo, de fato, nenhuma lista de “horrores”, os dois podiam perdoar-sesempre. Estou convencido de que todo casal que vence o desgaste dotempo, tem muitos segredos ou, na verdade, um só, com muitas facetas: oamor.  

Valea pena pensar. Neste tempo de Natal, no último domingo do ano, aliturgia sempre nos convida a olhar para a Sagrada Família de Nazaré:Maria, José e o Menino Jesus, que, diz o evangelho de Lucas (2,40): lá“crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deusestava com ele”. Uma família única e irrepetível, mas sempre umafamília. Também Deus, quando quis assumir a natureza humana, escolheu ocaminho de todos: ter, ou ser, família.

Assim, cada um de nós teve e tem a sua família. Pode ser grande,pequena, de sangue, de adoção, de pessoas que a vida juntou; pode serunida e maravilhosa ou difícil, complicada, daquelas que vivem entreaos trancos e barrancos, mas sempre será a “nossa” família. Sempre seráfonte de lembranças, saudades, segredos e cumplicidades. Se nós somosnós, deste jeito, o devemos também à nossa família. Quem se envergonhados seus pais e irmãos pela simplicidade, pela pobreza, ou pelasdificuldades, ainda não aprendeu a amar e a perdoar. Ainda é vítima doseu próprio rancor. Precisa libertar-se. Não acredito que exista umafamília feita só de coisas negativas. Todas têm algo de bom. A vida éesta mistura misteriosa de alegrias e de provações, de carinho e delágrimas. Cabe a nós cultivar mais as boas lembranças, guardando osmomentos tristes bem no fundo do baú das experiências da vida.

Hoje se fala demais da crise da família. É verdade, não adianta esconder.

Contudose os laços familiares estivessem ficando mesmo sem sentido, porquelamentamos essa crise? No fundo, é porque todos nós gostaríamos de teruma família boa e feliz. Temos dentro do coração um sonho maravilhosode paz e harmonia. Gostaríamos dever casais que se entendam, apesar dosdefeitos; pais e filhos que se escutam e se respeitam apesar dasdiferenças de idade e de época. Desejamos um mundo onde toda famíliatenha casa, sustento, onde não falte o pão e a oração de cada dia. Sembrigas, violências, agressões.

Sóque a vida é mais complicada. Nós mesmos estamos cheios de dúvidas eincertezas. A sociedade nos engana com falsos desejos e sentimentos,vende-nos mitos e superficialidade.

Pedimosà Sagrada Família que nos ajude. Não podemos desistir dos sonhos dosnamorados, do sorriso das crianças, da ousadia dos jovens, dashistórias dos idosos. Não podemos renunciar aos abraços dos casais, aosafagos e brincadeiras dos irmãos, à paciência dos avôs. Não percamos aesperança nas nossas famílias, muitas delas reunidas nestes dias deNatal. Ainda podemos perdoar, esquecer, recomeçar. Não joguemos fora,junto com os problemas, os tesouros nelas escondidos. Estes precisamsempre ser buscados e encontrados de novo, com maravilha e gratidão. Seacreditarmos no amor, ele vencerá. Sem listas de defeitos.


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