Formação

A luz dos anjos e il mistero nero

<!– /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-parent:""; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";}@page Section1 {size:612.0pt 792.0pt; margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; mso-header-margin:36.0pt; mso-footer-margin:36.0pt; mso-paper-source:0;}div.Section1 {page:Section1;}–>

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A históriaque narro abaixo, graças a Deus, dispõe de testemunhas vivas e acessíveis emtodas as suas fases. Por isso, cito os seus nomes. Assim, dá para conferir. Nãofosse isso, eu mesma diria: “Meu Deus! Parece mentira!”

Quando acontei a alguns membros uma comunidade amiga na casa de meus irmãos Carla, Ritae Alessandro, em Roma, o fundador saiu-me com a seguinte piada que, segundoele, corre no meio acadêmico:

“O anjo doSenhor anunciou a Maria e ela, ao ouvir seu anúncio, perturbou-se. Ele, porém,respondeu-lhe: ‘Não te perturbes, Maria. Sou apenas uma figura literária, frutoda imaginação e estilo de Lucas, autor deste Evangelho”.

É para rir epara chorar. Para rir, porque a hipótese é, de fato, hilária. Para chorarporque, se os anjos são figuras literárias, então Deus não intervém por meiodeles na história dos homens e seriam falsas as teofanias do Antigo Testamentonas quais, segundo Santo Agostinho, Deus se manifesta aos homens e intervém emsua história através de anjos.

A históriaque tenho para contar é exatamente mais um testemunho de quanto os anjos estãopróximos a nós e prontos a nos servir segundo a vontade de Deus, que cuida denós em todas as situações. Como ela decorreu entre 28 de junho e 8 de julho,doze dias, tive tempo bastante para louvar, confiar e meditar acerca damaravilhosa ação de Deus através dos seus anjos e saí da “aventura” (há algoque envolva os anjos que a nós, humanos, não nos pareça uma verdadeiraaventura?) muitíssimo mais convicta do amor pessoal e constante de Deus por mim,profundamente agradecida a Deus por meus irmãos e maravilhada com algo que nãome sai da cabeça: desde a criação dos anjos, antes, portanto de criar o homem etodas as coisas, Deus já pensou em mim e criou para mim, como um presentemagnífico, pelo menos um anjo da guarda, que me acompanha e serve durante todaa minha vida e que me acompanhará por toda a eternidade. Este pensamento meenche de alegria, de gratidão, de assombro diante do amor de Deus que me crioue cuida de mim, que me salvou e tudo fez e fará por minha salvação esantificação. Tenho pelo menos um anjo da guarda, criado exclusivamente paramim antes da criação do tempo, que tem por missão me mostrar o caminho do céu,que é o amor de Deus e a Deus, e que permanecerá comigo a contemplar a Trindadepor toda a eternidade!

Eis o queaconteceu: no dia 28 de junho, a fim de fazer a viagem mais barata, saímos decarro de Toulon para visitar as comunidades de Volterra e Asciano e, emseguida, ir a Roma para o Pentecostes com Bento XVI. No caminho, paramos emPisa para que alguns de nós conhecêssemos sua famosa torre. Ao sairmos de lá,paramos em um posto de gasolina Esso, por volta do km 77, para ir ao toalete.Enquanto esperávamos alguns irmãos voltarem para o carro, Rômulo e eu ficamos conversandoao seu lado, com a porta aberta. Comentávamos sobre as maravilhas de Deus e decomo Deus se utiliza de fatos corriqueiros para manifestar seu amor e seupoder.

Contava aoRômulo como, durante a última Escola Nacional para a Formação de Autoridades,em Fortaleza, ao chegar já em cima da hora para uma palestra, a Renata me tinhaavisado que não poderíamos utilizar o power point porque o projetor acabara depifar. Apressada, lhe tinha dito: “Ah, isso não é problema! É só dizer: ´Eu teordeno, projetor, que funcione em nome de Jesus’!”. E, embora tenha dito isso para tranqüilizá-lae quase em tom de brincadeira – entretanto sem duvidar – o projetor começou a funcionar imediatamente edemos a palestra sem problemas. Talvez essa história tenha provocado a raiva doInimigo, não sei. Ele é tão invejoso que tudo é possível. A vitória final,porém, foi de Deus, através de Miguel, Rafael, Gabriel, meus anjos da guarda esó ele sabe quantos anjos e santos mais.

Os irmãos quehaviam ido ao toalete ainda chegaram a tempo de ouvir o final da história eentramos todos no carro, comentando alegremente sobre o amor de Deus. Emseguida, começamos a rezar mais um terço do nosso rosário (tínhamos, ainda umahora e meia de viagem à frente) e ninguém percebeu que eu havia deixado a bolsacom passaporte, passagem de volta ao Brasil, dinheiro que não era meu (havia umenvelope para comprar um remédio para uma irmã e outro para comprar livros paraa Assessoria de Formação), dinheiro que alguns irmãos me haviam dado para aviagem, todos os documentos brasileiros, telefone celular, óculos de grau, maquiagem,uma prótese dentária que havia caído no dia anterior, uma flor que o Fábio mehavia dado e, muito mais preciosos: um crucifixo abençoado por João Paulo II, que sempre meacompanha e um terço comprado em Lourdes, bem precioso de que se despojara umasenhora que se havia convertido ao catolicismo e que está ligada à Comunidadede Avignon. Ah! Havia também a escova de dentes!

Só demos pelafalta da bolsa ao chegar a Volterra, quase duas horas depois, tendo vencido umengarrafamento causado por obras na estrada e dezenas de curvas. Chegando ali, aindano jardim, enquanto a Carla, Responsável Local, nos apresentava a D. Ivo, padreresponsável pela comunidade que havia ido especialmente para me conhecer, celebrarconosco a Eucaristia e jantar, percebia logo atrás de mim os primeiros sinaisdo rebuliço dos irmãos com relação ao que viria a ser conhecido pela políciaitaliana como “il mister onero”, o mistério negro. Para mim, “il miracolobianco”, sim, branquíssimo, cheio de luz e de alegria!

Tendo deixadoo padre com aTeka e os outros, a Murielli, Rômuloe Noelson comprovaram sua caridade fraterna voltando comigo ao posto degasolina, apesar do adiantado da hora e da exaustão de terem dirigido por maisde seis horas. Para melhor procurarmos a bolsa, precisávamos chegar lá antes deescurecer – que, nesta época, acontece entre 9 e 10 horas da noite.

A caminho,três lembranças nos ocorreram: louvar, invocar os anjos e evitar qualquermurmuração ou falta de confiança no amor do Pai e dos irmãos. Havia acabado deescrever sobre o louvor na vocação Shalom (o livro “Louvor, Brasa Vida”) esabia bem o quanto, em nossa espiritualidade e história, o louvor é arma decombate, é ascese, é uma maneira de nos unirmos aos anjos que louvam diante daTrindade, uma fortíssima intercessão, uma prova de confiança na Providência deDeus.

Cantando,louvando, rezando o terço dos anjos (lembrei-me muito da Ana Silvia e pedi aDeus que me unisse a ela neste terço que reza todos os dias) e conversandoacerca do louvor em nossa vocação e no espírito do fundador, enfrentamosnovamente o engarrafamento, as dezenas de curvas na descida da serra e… perdemosa entrada que levava ao outro sentido da estrada! Perdidos, resolvemos retornara Pisa, uma vez que – pensávamos – de lá saberíamos sair.

Ledo engano!Depois de muito rodarmos, perdidos em Pisa, recomeçamos a invocar maisfortemente os anjos. Eram, já, dez e meia da noite e as ruas estavam desertas.Em meu coração, invocava especialmente os arcanjos. Vimos, então, um casal emuma sorveteria (Claro que eram anjos! Anjos adoram sorvete, como eu! Por issofalo do sorvete da Barbaresco no livro Papo Careta, justamente influenciada peloRafael!). O jovem senhor, depois de tentar explicar em vão como sair da cidade -a Murielli até italiano falou! – entrou no próprio carro, sem se importar que acaixa de sorvete que sua esposa trazia em um saco plástico pudesse derreter, enos conduziu até à estrada (como não me lembrar dos anjos que me abriram caminhoaté Pacajus estando eu em um carro sem as taxas pagas?). Em meu coração,apelidei-o de Gabriel, apesar de, pela lógica, dever tê-lo apelidado de Rafael,que viajou com Tobias. Talvez, a explicação seja que, de certo modo, anunciavaa salvação.

Ao chegar finalmenteao posto de gasolina do km 77, encontramos apenas um frentista que atendia aosesparsos clientes noturnos. Ele nos atendeu maravilhosamente bem, telefonoupara a polícia, olhou o vídeodo sistema de segurança que havia registrado as cenas da hora em que havíamosperdido a bolsa, orientou-nos sobre como dar queixa, anotou nosso nome etelefone, e acrescentou: “O ideal seria vocês falarem com alguém da empresa quelimpa a estrada (irmãos brasileiros, na Itália há uma empresa que limpa as estradas e corta o mato dosacostamentos!), mas a esta hora eles não estão mais de serviço. Recomeçamamanhã cedo. O nome da empresa é Salia”.

Agradecemosmuito ao nosso jovem amigo e, intuindo que ele era o segundo arcanjo,perguntei-lhe, ao me despedir: “Como é seu nome?” ao que ele respondeu:“Michael”. Como todos caíssemos na risada, tive oportunidade de contar-lhe ahistória com meu pobre italiano (confiada na caridade dos anjos, claro!) e, dequebra, evangelizá-lo, se é que anjo precisa ser evangelizado…

Aindasurpresos com o Michael, ao sairmos do posto, demos de cara com um jovemsenhor, negro, bem mais alto do que a média das pessoas. Aparentemente, eleacabara de descer de um carro estacionado perto da porta, onde havia alogomarca de uma firma: Salia!!!

Abordamos,então, nosso terceiro arcanjo:

“ O senhortrabalha na Saila?”

“Sim”,respondeu sem surpresa, parando para nos ouvir.

“Está deserviço agora?”

“Não.Trabalho até as cinco horas.”

Antes queperguntasse o que ele estava fazendo ali (era óbvio, a estas alturas), explicamoso que nos havia ocorrido e ele me perguntou se havia dinheiro na bolsa. Aoouvir a resposta afirmativa, disse:

“Preciso,então, pedir permissão à polícia para procurar a bolsa”. Não nos demos conta nomomento, mas foi a primeira notícia que a polícia de Livorno teve da bolsa. Estainformação viria a ser utilíssima, depois.

Após ligarpara a polícia de seu próprio celular e receber a necessária permissão paraprocurar a bolsa, orientou-nos a dar queixa na Polizia Stradale de Livorno. Eraa segunda notícia que Livorno, conhecida como a cidade mais comunista daItália, tinha da bolsa. Agradecemos ao rapaz – infelizmente não perguntamos seunome! – e, dois ou três passos depois, pelo menos eu e a Murielli nos voltamospara trás e… constatamos que nosso assim apelidado Rafael e seu carrohaviam… desaparecido!

Nestemomento, disse, feliz aos meus três irmãos: “Pronto! Ninguém precisa mais sepreocupar. Achamos a bolsa! É só uma questão de tempo. Como diz o Moysés, Deusestá no comando. E os anjos também”. Interessante é que a Murielli e eu nãocomentamos uma com a outra que havíamos percebido o repentino “desaparecimento”do nosso anjo negro no otimamente iluminado posto Esso do Km 77 até jantarmosjuntas em Fortaleza, no dia 30 de junho!

Saímos a pé edepois de carro procurando a bolsa pelo local onde havíamos passado, navelocidade média da Europa, que não é 80, como aqui, mas 130 km. As estradas, lá, aoinvés do recuo no acostamento, têm recuos, a espaços regulares, para que oscarros com problemas possam estacionar e ligar pedindo ajuda. Ainda à tarde, aMurielli havia visto, em um desses espaços, uma família que havia acenadofreneticamente para nós quando passamos por ela. Teriam visto a bolsa? Tê-laiam achado? Tê-la iam visto cair?

Em qualquerdos casos, a esperança era pouca. À beira da estrada, havia uma forteinclinação, que teria conduzido a bolsa a sair rolando ribanceira abaixo. Alémdisso, ainda que tivesse caído para o outro lado, ninguém se arriscaria, em umaestrada sem acostamento na qual os carros passam a 130 km, a atravessar parapegar uma bolsa. Nem mesmo nós nos arriscamos a procurá-la a pé no escuro danoite, no qual os carros passavam uivando de tão velozes. Desistimos da busca,mas não da oração e do louvor e da invocação dos anjos, agora ajudados tambémpelo Pe. João Wilkes que havia telefonado e dito que iria invocar os anjos doPe. Pio.

Do posto, fomosà Polizia Stradale da cidade de Livorno, que não registrava queixas, mas nosinformou como registrar e que não havia tido notícias da bolsa perdida. Somenteno final fui entender porque, orientados pelo segundo anjo, havíamos ficado tãoligados à polícia de Livorno e seu sistema de computadores…

De volta aVolterra, três horas depois, os irmãos da comunidade já haviam providenciadotudo. A Teka havia ligado para o Brasil sobre os documentos, obilhete aéreo e o celular, e para os irmãos de todas as comunidades da Europa eIsrael, que se encontravam em Roma, e eles já haviam providenciado dinheirosuficiente para tirar um novo passaporte: 80 Euros, as fotos do passaportebrasileiro (realmente excepcionais, pois acabei tirando 16!), a multa dobilhete aéreo: 100 Euros, e dinheiro para transporte. Juntamente a eles, a Betzeidadespojou-se do apertado dinheiro que levava para a viagem e me enviou ajudaacompanhada de um cartão que deveria tornar-se símbolo da comunhão de bens.Enfim, tudo foi providenciado, até a maquiagem (precisava dela para estar bemarrumada para o Congresso de Comunidades e o Pentecostes com o Papa!). Percebi, aindauma vez, que os irmãos também são anjos quando amam e pedi a Deus que melibertasse do meu comodismo egoísta para que também eu fosse anjo para osoutros. Para o dia seguinte, ficaram apenas a queixa oficial na polícia deVolterra, os óculos comprados em um supermercado, para que eu conseguisse, pelomenos, ler, e… a escova de dentes que – absurdo dos absurdos, não entendoporquê!- ninguém na comunidade quis me emprestar.

As atividadesprevistas para aqueles dias continuaram normalmente. Nem nos passou pela cabeçacancelá-las: Escola de Formação para as autoridades da Europa e Israel, Congresso deNovas Comunidades, noite de louvor e missa na Basílica de Santo Antonio,Pentecostes na Praça de São Pedro, viagem para Asciano, encontro com uma comunidadeitaliana interessada em adotar o Tecendo o Fio de Ouro para seu ministério de curainterior, pregação em nosso grupo de oração em Roma, tudo sem documento! Noentanto, nem nos trens nem no Sagrado da Praça de São Pedro, onde celebramosPentecostes – local mais próximo ao Santo Padre – nos pediram documentos.

Carla, com a Rita, Alessandro e suafilhinha Maria Francesca, além de terem saído da própria casa para me acolher emseu apartamento em Roma, me deram uma carteira novinha e uma bolsa já usada,além de mil outros mimos, entre eles um vinho branco frisante delicioso.Enquanto isso, Deus permanecia calado. Nenhum sinal da bolsa. Tentei comprar umcartão para ligar para meus parentes no Brasil. Não consegui. Em determinadomomento, no Congresso das Comunidades, Deus permitiu que me desse conta de comoestava desprotegida do ponto de vista civil e me lembrei de meus irmãosmissionários, especialmente de Israel e de Toronto, que tantas vezes passam porsituações semelhantes e sentem o mesmo tipo de insegurança e angustia, certamenteintensificada. Neste dia, contei à mesa do jantar, minha história, maldisfarçando a vontade de chorar. Pe. Jonas e Luzia, de Canção Nova, quejantavam conosco, lembraram que o Moysés poderia me emprestar o seu celularpara ligar para o Brasil. Acabei não precisando, pois a Tekame enviou o número para ligar a cobrar, mas o incidente me mostrou como é beloque irmãos de outra comunidade também sejam anjos que nos consolam na aflição.

Os dias sepassavam e Deus continuava calado sobre este assunto. Eu continuava a louvar eesperar, mas agora só me lembrava que estava sem nada à noite, antes de dormir.Estava sempre ocupada demais. Ao “despojamento forçado” da bolsa,acrescentou-se ainda outro: sem lembrar-me de que poderia ter de ficar maistempo em Roma, enviei minha mala com todas as roupas, exceto a que estavausando, para a casa comunitária de Anguilara. Isso viria a significar 5 dias com a mesma roupa, semque ninguém, exceto eu, naturalmente, notasse. Implicava, também, em lavar aroupa, de cima e de baixo, à noite, escondido da dona de casa, e vesti-la, emgeral, molhada, pela manhã. Como também isso foi bom! Quanta coisa Deus meensinou entre um espirro e outro!

Na terçafeira, dia 06, Deus finalmente resolveu falar. Encontrei, largado em minhabolsa herdada, um papel azul com a seguinte passagem em inglês: “And my Godwill fulfil all your needs out of the riches of his glory in Christ Jesus” (Ph4, 19). “E meu Deus irá socorrer todas as vossas necessidades com as riquezasde sua glória em Cristo Jesus” (Fil. 4,19). A mensagem era clara. Perguntei àex-dona da bolsa se o papelzinho era dela e ela respondeu que não, que haviaexaminado a bolsa antes de me entregar e que nunca havia visto o papel na vida,ainda mais em inglês; se pelo menos fosse em italiano… Percebi que erachegado o tempo de Deus e preparei-me para ficar mais atenta à presença visíveldos anjos, que conhecem muito bem o significado afetivo da língua inglesa naminha vida.

No diaseguinte, consegui finalmente tempo para ir à Embaixada Brasileira, tirar umnovo passaporte. Dali, iria com a Maria (nome italiano da Socorrinha da Aliança) resolver oproblema da passagem. Ao chegar minha vez de ir até o guichê blindado, abrasileira que estava atendendo as pessoas que vieram antes de mim, foisubstituída por outra que, ao me ver, perguntou: “Eu conheço a senhora?” Quaseque eu respondia: “Depende, se você for um anjo que trocou de lugar com suapredecessora, conhece. Se não, nunca a vi”. No entanto, apenas tentei sergentil, dizendo que não me lembrava. Ela, então, examinou com muita atenção ascópias dos documentos que haviam enviado do Brasil e, estranhamente, disse:“Mas porque a senhora quer tirar um novo passaporte? Teria de pagar 70 dólares (elanão sabia que eu tinha 80!). Por que a senhora não aguarda um pouco enquanto eulhe preparo um documento de permissão para viagem pelo qual não terá de pagarnada? É melhor para a senhora…”

Pensando nos80 dólares que iria economizar e nos livros que poderia comprar com eles (odinheiro para comprar livros estava na bolsa, lembra?) e tendo tempo de sobraaté a hora do encontro com a Maria, aquiesci e sentei-me para esperar. Todos os outrosclientes entravam e saiam rapidamente. Só eu ficava… Finalmente, quando sóhavia eu e outra pessoa, dez minutos antes de o setor fechar, minha amiga veiome encontrar no lado de fora do guichê ara dar-me esta notícia surpreendente:

“Bem que eusabia que conhecia seu nome! Sua bolsa foi encontrada em Livorno. Aqui está o telefone da pessoa que estácom ela, na Questura de Livorno e o telefone.”

Pergunteicomo ela tinha sabido e ela respondeu: “Estava substituindo uma colega em outrosetor e chegou para ela um e-mail dizendo que sua bolsa havia sido encontrada,caso viesse aqui”. E, diante do meu estonteamento, acrescentou: “Se eu fosse asenhora, iria lá pegar…”. Em seguida, despediu-se e saiu pela porta internasem voltar ao guichê.

“É anjo!”pensei, enquanto ligava para a Rita, que me havia emprestado um celular comcrédito e tudo. No dia seguinte bem cedo, ela me levaria à estação de trem,sempre recomendando: “Você não devia ir sozinha! Cuidado! Vão cobrar muitodinheiro a você no táxi! Leva mais estes 50 Euro, porque vão te cobrar pelomenos 40! Ainda bem que a Helga vai te encontrar lá! Qualquer coisa, meligue…” La Rita, carissima, a fatto la mamma!

Chegando àestação ferroviária de Livorno, quatro horas depois, a Helga, da comunidade deVolterra, não estava me esperando (havia tido um problema com o carro) eresolvi pegar um táxi. O único táxi disponível era uma camioneta Besta e jáestava lotada. Esperei outra, que chegou vazia, mas preocupei-me que, quandolotasse, eu já tivesse o horário da Questura, que fechava às 12:30. Além disso,para que ficasse mais barato, havia comprado em Roma ida e volta e a volta eraàs 14:20 horas!

Os anjos,entretanto, não falham nunca! O anjo que me serviu de motorista, mandou-mesentar na frente (graças a Deus!) e, assim que sentei, viu que eu trazia olivro de João PauloII, “Alzate!” Quase caí para trás quando o “temerário motorista de táxi dacidade mais comunista da Itália” me disse: “A senhora está gostando destelivro? Acabei de lê-lo na semana passada”. Pronto! As portas estavam abertas!Ao ouvir minha história (com direito a anjo e evangelização) não esperou o táxiencher, mas levou-me até a porta da Polícia, onde normalmente é proibido oacesso de táxi, enquanto conversávamos sobre a Igreja, João Paulo II, a necessidadede evangelizar o mundo do trabalho e a cidade de Livorno. Como não me lembrarda ocasião em que Pe. João, Moysés, eu e a Tekapegamos em Roma um táxi dirigido por um anjo que não parou de conversar sobreMedjugorje?

Ao chegar àpolícia, subi correndo a escadaria e na portaria me indicaram uma sala  no final do corredor mais comprido que já vina vida. À porta, um senhor magro e alto me esperava. Ao ver-me, fez-me entrare entabulou com uma colega loira e gorda, sentada em um birô, o seguintediálogo:

“Olha! Esta éa senhora da bolsa perdida!”, ao que ela, arregalando os olhos para mim,respondeu:

“Ma chefortuna!”, “Mas que sorte! Trabalho na polícia há vinte anos e jamais vi umabolsa perdida na estrada ser encontrada com tudo dentro!”. Foi o bastante paraeu contar-lhe toda a história, dizendo que não era sorte, mas graça e ajuda dosanjos. Falei sobre o amor de Deus, o cuidado dele para comigo e para com todos,enfim, durante uns bons dez minutos não dei chance de ninguém falar (este, àsvezes, é um truque útil na evangelização). Quando, finalmente, terminei minhahistória, sem que ninguém tentasse interromper, o senhor alto disse:

“Sua bolsa,porém, não está aqui!” Quase desmaiei. Eram já 12:30. Ele então levou-me àjanela e eu reparei que o único birô na sala era o da senhora loira. Ondeestava o birô dele? Por que me tinha esperado à porta? Como sabia da bolsa?Perguntas que não tive tempo de fazer e sobre as quais só fui pensar depois.

Meu anjomagrela me havia indicado, à janela, um outro prédio histórico. Saí correndo,pedindo a ajuda dos anjos e o milagre do tempo. Quando, finalmente, conseguichegar ao prédio, depois de errar uma vez e de uma caminhada de uns oitoquarteirões e duas avenidas cheias de carros para atravessar, eram, já, 12:40. Conteiminha história ao guarda que estava na porta e ele me informou: “Mi dispiace,signora, mas desde a semana passada o horário deste departamento mudou. Agora éà tarde, começa às 3 horas”. Expliquei-lhe que tinha um trem às 2:20 e umapalestra no grupo de oração às 7:30. Para minha surpresa, ele respondeu:

“Bom… essa Elianaque a senhora está procurando chegou mais cedo hoje. Venha comigo. Como vê, arepartição está fechada. Me acompanhe. A senhora pode subir escada?” Respondique sim, pensando que àquela altura subiria até o monte Evereste, quando maisuma escada…

Meu novo anjodestrancou a porta de entrada, subiu a primeira escada; destrancou a segundaporta, subiu a segunda escada; destrancou a terceira, subiu a terceira.Enquanto subíamos, em meio ao tintilar de suas chaves, travamos a seguinteconversação, sem dúvida meio surrealista:

“Estou tãograta ao senhor! Lei è proprio gentile! Deve ser um homem muito bom…” Diantedo seu silêncio acrescentei, para ver se era anjo mesmo: “Deve fazer isso pormuitas pessoas…”

Sua respostame deixou ainda mais em dúvida: “Para falar a verdade, é a primeira vez quefaço isso…”

Abriu, então,a quarta porta, subiu a quarta escada e interfonou para minha outra “anja”enquanto eu me perguntava: “É a primeira vez que faz isso porque não trabalhaaqui e veio para me acudir? Ou nunca fez isso por ninguém em seu trabalho?”

Não pudedeixar de lembrar-me da ocasião em que um anjo abrira os ferrolhos da casacomunitária em Natal, quando eu e um irmão que me havia dado carona, exaustosde um encontro que se seguira à inauguração do Centro de Evangelização SantaTeresa e tendo saído mais cedo, oramos pedindo isso, já que não havia ninguémem casa e não havíamos trazido as chaves. Em resposta à nossa oração, osferrolhos de uma das portas (eram cerca de 4, que davam para a mesma varanda)se abriram com um alto “tlec!” Seria o mesmo anjo? Certamente não, pois aquelehavia dito que era a primeira vez que fazia isso…

Ao desligar ointerfone, o anjo-guarda disse: “A senhora Eliana já estava avisada…” Depoispercebi que a Helga tinha ligado para ela e, novamente, me enchi de perguntas: “Aondea Helga havia falado com ela, se ela não tinha ido trabalhar pela manhã? Algumacolega teria recebido o telefonema lhe teria ligado? Ela havia dado seutelefone particular para a embaixada? Era pelo telefonema que estava ali antesda hora?” Não tive tempo de perguntar. Era, já, 1 hora da tarde.

Elianaapareceu acompanhada de duas colegas e me levou até uma pequena sala com três birôs,retirando de um armário a famosa bolsa, com apenas um arranhão e um ínfimodescascado no viés, e colocando-a sobre a mesa. Ao fazê-lo, uma delas comentou:

“Até que fimnós a encontramos! Já estávamos chamando este caso de “Il Mistero Nero!” Foi adica para eu evangelizá-las, contando toda a história e dizendo que para Deusnada é mistério, que Ele nos ama, e que aquele, na verdade, não era o mistérionegro, mas o milagre branco. Nenhuma das três habitantes da “cidade maiscomunistas da Itália” me interrompeu. Pelo contrário, ouviram-me atentamente edepois contaram todo o seu esforço e peripécias para me encontrar: tentaram ocelular, mas não estava habilitado para ligações internacionais; tentaramchamar a Elena e a Ângela, cujos nomes eram italianos e cujos telefones estavamna agenda, mas não havia código de cidade; telefonaram para a repartição quecorresponde ao nosso IML, pois pensaram que eu me havia acidentado ou suicidado;procuraram a Policia Stradale de Livorno, onde me havia enviado o Anjo dacompanhia de limpeza e eles relataram o caso da bolsa. Eis a razão para o anjoenviar-me para lá! Como é importante obedecer! Hebreus nos ensina que quandohospedamos peregrinos por vezes hospedamos anjos. Eu acrescentaria que, quandoobedecemos aos irmãos por vezes obedecemos a anjos.

Diante dainformação da Polizia Stradale, resolveram, então, procurar a EmbaixadaBrasileira, mas já se haviam passado dez dias e eu não aparecia.Expliquei-lhes, então, o que havia feito naqueles oito dias e disse-lhes que,como havia dito Jesus ao ser encontrado no Templo, era preciso cuidar primeirodas coisas do meu Pai e deixar que ele cuidasse das minhas, conforme suavontade. Elas não davam uma palavra, talvez duvidando de minha sanidademental… ou das suas próprias!

“A senhoranão vai examinar a bolsa?”, perguntou Eliana, retirando da mesma váriosenvelopes, nos quais se lia: “Documentos”, “Dinheiro”, “Medicamentos e óculos”,“Pertences Pessoais”. Peguei o dos pertences pessoais, perguntando se lá haviaa cruz de João PauloII e o terço. Ela disse que sim e mencionou a prótese. Morremos de rir,enquanto eu mostrava minha banguela. Parecia que nos conhecíamos há tempo…

Elianapediu-me que conferisse o dinheiro e eu lhe contei que havia confiado odinheiro de minha viagem a São José e a São Cotolengo e que, por isso, havia prometidonão contá-lo. Ela pareceu entender e, depois de conferir a foto do passaporte commeu rosto, contou-me que a bolsa havia sido encontrada por um certo – pasme! –Giuseppe Giudio (José Juiz!) e deu-me seu endereço, em Rimini, cidade italianaconhecida por seu fervor na Renovação Carismática Católica, na qual o Moysés jápregou e a comunidade participou de vários encontros carismáticos nacionais. Enquantoela falava, eu me lembrava que havia invocado São José, que é o responsável pelosbens materiais e espirituais da comunidade e de minha família. Lembrei-metambém do livro do Cassiano Azevedo sobre São José, quando ele diz que ocarpinteiro, na sua época, era procurado para conselhos e consultado pararesolver questões difíceis entre os habitantes da aldeia, como um juiz!!! Coincidência?Aguarde! A história ainda não acabou…

Apósagradecer muitíssimo às minhas três “anjas” – sempre três! – e prometer-lhesque rezaria por elas e que poderiam pedir a Deus o que quisessem porque elelhes daria, voltei para a estação ferroviária de ônibus, pois não encontreitáxi. Agora, pedia aos anjos o milagre do tempo, que já vi acontecer tantasvezes. Não sei por que, mas o motorista estava enlouquecido, arriscando ospassageiros que, como bons italianos, reclamavam aos berros, interpelando-odiretamente. Isso me ajudou a chegar mais depressa.

Na estação àferroviária, encontrei a Helga, que me contou o que havia acontecido com ocarro e ouviu, pacientemente, meu lado da nossa aventura. Entramos no toaletejuntas e, para que eu não andasse com duas bolsas, ali passamos juntas osobjetos para a minha tradicional bolsa preta, ganha da Ana Silvia há uns trêsanos, agora parte ainda mais integrante de minha história da salvação pessoal. Maisuma surpresa nos aguardava: ao passarmos as coisas de uma bolsa para a outra,encontramos uma pequena medalha milagrosa dourada, em formato um pouco maiscomprido do que as nossas daqui do Brasil, que, tenho a mais absoluta certeza,não estava na bolsa, arrumada pela Elena por ocasião de minha saída do Brasil epor mim quando ainda na França. Quem a havia deixado? Miguel? Rafael?Gabriel?Meu anjo da guarda? Giuseppe Giudio?

Não sei.Talvez jamais venha a saber. Era, entretanto, um sinal claro do amor de Deus,que é capaz de revirar meio mundo por causa de uma bolsa perdida por uma filha avoada,pecadora e ingrata, mas amada. Era sinal de que os anjos existem, sim, e sãopróximos, amigos fiéis, dedicados a nos levar pelos caminhos da vontade deDeus. Era sinal de que José, Maria e Padre Pio tinham conseguido de Deus que osanjos colocassem a meu serviço o seu poder. Era um pálido, apenas pálidíssimosinal da alegria de sua companhia na terra e no céu.

Atualmente,via internet, procuro um certo senhor Giuseppe Giudio, residente à Via Due Possessioni,4c, RN, Itália. O Renilson, em Roma, consultando a Lista Bianca de telefonesitalianos, encontrou vários Giuseppes Giudios. No Brasil, mais uma vez os anjosme ajudaram da forma que se segue.

Foi perdido,em Roma, o nome e endereço do “meu” Giuseppe. Chegada ao Brasil, procurei meuamigo intensamente, no mesmo site, sem encontrá-lo. Cansada, pedi ajuda aosanjos e fui espairecer lendo um pouco o Portal Shalom e, Deus sabe porquê,acessei Asciano. No site deles, em italiano, encontrei a palavra giudizio, queme chamou atenção e me fez lembrar da grafia de Giudio e, agora com a grafiacorreta, encontrar mais de 20 Giuseppes Giudios na Lista Bianca, pela Internet.Não encontro, entretanto, a rua Due Possessioni, cujo nome assusta a princípio,mas assume outra conotação quando nos lembramos que “possessão angélica” não serefere somente aos anjos maus, mas também aos bons. Será que, ao longo destahistória, não encontrei inúmeras pessoas “possuídas”, no bom sentido, por anjosbons? Será que, conforme pensa Santo Agostinho, pelo poder de Deus os anjos nãose utilizaram de formas humanas e/ou de pessoas reais para me ajudar? A tal ruaexiste ou não existe? Mudou de nome? Quem colocaria em uma rua um nome tãoestranho?

Não sei.Continuo a ligar para todos os Giuseppes Giudios da lista, aos pouquinhos, paranão sair muito caro em um mês só. Um dia, encontro o “nosso”. Volto, então, aescrever para terminar a história. Se não o encontrar, com certeza, lá no céu,vamos conversar sobre tudo isso, tudo o que aprendemos, tudo o que você, que melê, aprendeu com esta história. Para mim, foi uma confirmação de Deus e, comodiria Santa Teresinha, uma piscadela dele por causa do livro “Papo Careta.Careta?” Fico feliz. Isso significa que ele coloca seu poder a serviço de quemo vier a ler.

No céu ou naterra, com você, com os anjos e com “nosso Giuseppe” continuaremos a louvar aDeus por toda a eternidade. Enquanto isso, a cada dia, bendigo o Senhor, quevive em mim e em você e que está sempre pronto a me amar através dos seus anjos,mostrando que o céu e a terra são muito mais próximos a nós do que podemos sequersonhar e que os anjos, bem… os anjos não somente não são figuras literárias,mas também nos fazem viver uma realidade que para muitos, até mesmo para nós, poderiamparecer mentira. Para quem experimenta, porém, é pura prova do amor de Deus,que não nos quer vivendo na mediocridade de nossas próprias forças, mas nasmaravilhas da sua!

 


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