Fazer memória é uma atividade de fundamental importância na vida humana. A memória auxilia no desenvolvimento das ações mais básicas como falar, aprender novas habilidades, alimentar, andar, nos proteger, etc… Sem memória, nossa capacidade cognitiva ficaria comprometida.
A cognição humana é um conjunto de habilidades mentais que nos permite aprender, armazenar, processar e utilizar informações para interagir com o mundo. Ela abrange processos como percepção, atenção, raciocínio, linguagem e resolução de problemas. Esses fatores trabalham juntos para dar suporte às nossas experiências e ações.
Sendo o homem um ser racional, ele não apenas é capaz de se lembrar das coisas, mas é também capaz de pensar e refletir sobre o que se lembra. Sem a memória, os processos de aprendizado se paralisam.
E na vida espiritual? Qual a relevância dessa faculdade mental na experiência de fé? A memória é uma habilidade bastante explorada nas narrativas bíblicas. O exercício de recordar ajudava o povo de Deus a não se desviar do caminho, a viver de forma coerente com a própria identidade de eleitos, herdeiros da promessa.
Os profetas bíblicos, em seus discursos, nos quais falavam em nome de Deus, estimulavam muito nos seus ouvintes esta faculdade humana da memória. Alguns, inclusive, colocavam o esquecimento como uma das causas da infidelidade do povo eleito.
Vejamos o que nos diz a Escritura: “Procurai o Senhor Deus e seu poder, buscai constantemente a sua face! Lembrai as maravilhas que ele fez, seus prodígios e as palavras de seus lábios!” (Sl 104). O texto fala ainda da perfeita memória de Deus que, ao contrário dos homens, jamais se esquece de seus filhos. Continua o salmo: “Ele mesmo, o Senhor, é nosso Deus, vigoram suas leis em toda a terra. Ele sempre se recorda da Aliança, promulgada a incontáveis gerações; da Aliança que ele fez com Abraão, e do seu santo juramento a Isaac” (Sl 104).
O grande apóstolo São Paulo conhecia bem o valor espiritual da memória, tanto que nunca se esqueceu do seu encontro pessoal com Jesus Cristo, da sua experiência com o Mestre no famoso episódio da estrada de Damasco. Fato esse, por sinal, repetido algumas vezes por ele mesmo em seus discursos:
“Ora, aconteceu que, na viagem, estando já perto de Damasco, pelo meio dia, de repente uma grande luz que vinha do céu brilhou ao redor de mim. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues? ’ Eu perguntei: ‘Quem és tu, Senhor?’ Ele me respondeu: ‘Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu estás perseguindo” (At 22,6-8).
Como podemos ver, a memória é essencial na vida de fé e ajuda a nos mantermos firmes na esperança, solícitos da caridade. Ela funciona como uma “fonte de vida espiritual“, permitindo que cada indivíduo relembre e interprete as ações de Deus em sua história pessoal, reconhecendo ainda tanto nas alegrias quanto nos desafios, oportunidades de crescimento.
A memória ainda nos ajuda a preservarmos a consciência de nossa própria identidade e dignidade. Meu valor absoluto não se reduz ao nível corporal ou psíquico. Meu valor é ontológico, não está no meu corpo e seus atributos ou em a minhas capacidades intelectuais, mas naquilo que eu sou, um ser humano – Imagem e Semelhança de Deus. Se isso ficar consolidado interiormente, não nos sentiremos inferiores diante de pessoas aparentemente mais privilegiadas em seus atributos nem nos sentiremos superiores e autossuficientes diante de pessoas menos favorecidas do que nós.
Concluo, então, esta redação, com a convicção de que a memória, o autoconhecimento, mas também a autoaceitação são importantes passos para uma vida integrada, plena e feliz. Sendo um tripé existencial e um sustento oportuno para os eventuais desafios da vida.