“Em si mesma, a prática dos negócios é perfeitamente compatível com as mais estritas exigências da lei moral. Mas é a sua orientação para a procura do lucro que à expõe a tentações”. De fato, “Aqueles que ambibionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Porque a raíz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições”(I Tim 6, 9-10).
O Papa Pio XI julgava assim a prática dos negócios: “A descristianização da vida social econômica e sua consequência, a apostasia das massas laboriosas, resultam dos afetos desordenados da alma, triste herança do pecado original, o qual, depois de ter destruido o harmoniosso equilíbrio das faculdades, predispõe os homens a se deixarem facilmente arrastar pelas paixões más, e os incita violentamente a pôr os bens perecíveis deste mundo acima dos bens duradouros da ordem sobrenatural.
Daí vem esta sede insaciável das riquezas e dos bens temporais, que, sem dúvida, em todos os tempos, impeliu o homem a violar a lei de deus, e a calcar aos pés os direitos do próximo, mas que, no regime econômico moderno, expõe a fragilidade humana a cair ainda mais frequentemente.
A instabilidade da situação econômica e de toda a organização econômica exigem de todos os que são integrados nela a mais absorvente atividade…Resulta daí, em alguns, um tal endurecimento da consciência, que todos os meios lhes são bons, contanto que lhe permitam aumentar seus lucros, e defender das bruscas vicissitudes da fortuna os bens tão penosamente adquiridos”.
A desordem moral que caracteriza a vida econômica moderna se manifesta de dois modos: ou por atos que cosntituem violações flagrantes da lei moral, e dos quais se tornam culpados muitos homens de negócios, ou por meio de práticas e de usos que, sem contradizer abertamente as exig6encias da lei moral, criam todavia uma atmosfera malsã, pouco favorável ao desabrochar de uma honestidade irrepreensível, e pelo contrário, propícia ao relaxamento dos costumes.
São muitas vezes os católicos acusados de se mostrarem os menos escrupulosos em negócios. É que as suas fraquezas desmentem tão descaradamente os princípios aos quais pretendem aderir, que chegam a provocar escândalo naqueles que a isto não se comprometeram pela fé, mas muitas vezes têm agido com mais inteireza do que eles.
Justiça e Caridade
A atividade econômica está sujeita principalmente a dias grandes virtudes sociais: a justiça e a Caridade. A justiça é a virtude que leva a respeitar o direito dos outros, e a dar a cada um o que lhe é devido. É recebida no Batismo, mas se fortifica pelo exercício. A Caridade obriga a fazermos a outrem todo o bem que desejamos para nós, e proibe-nos a fazer a outrem o que não queremos que se faça contra nós.
A caridade abranda a justiça no que ela tem de rígido demais. Por este fato, tende a conciliar harmoniosamente as diverg6encias que nascem da oposição de interesses: Ala amortece a aspereza da concorrência: usa de benevolência em todas as relações da vida econômica, que é, na realidade, um contínuo interc6ambio de serviços. O homem de negócios cristão empenhar-se-á em conformar toda a sua conduta à lei superior da Caridade.
Como:
1. Sem renunciar à procura moderada de lucro, recusará a considerar a vida de negócios como uma profissão essencialmente lucrativa. O proveito será para ele a retribuição do servicó que prestou aos seus semelhantes, provendo-os de coisas necessárias ou úteis à sua vida. Este modo de encarar as coisas lhe imporá uma sábia moderação na busca de lucro. Saberá até, eventualmente, renunciar a qualquer lucro, para responder à extrema necessidade em que se encontra o próximo, dos bens que tem à sua disposição.
2. Ele se acostumará a considerar seus colegas, menos como concorrentes perigosos, do que como companheiros, empenhados como ele, num mesmo serviço de utilidade pública. Longe de os invejar, ele estará sempre disposto a assistí-lo e a alegrar-se do bom êxito de seus esforço. A concorr6encia, deixando de ser uma luta sem piedade se converterá , tanto quanto depender da sua vontade, em um estímulo para o bem de todos.
3. Dominado por esta Caridade, o homem de negócios cristão deixará de ver no pessoal assalariado, meros instrumentos de sua própria fortuna: saberá tratá-los como íntimos colaboradores. Para tanto, o patrão não precisa abdicar de sua autoridade: ele é o responsável por coordenar as atividades dos seus funcionários, para levá-las todas ao fim desejado. Mas a sua autoridade se despojará da arbitrariedade e dureza, e se exercerá mas com persuasão, com benevolência e até com indulgência diante das fraquezas humanas, quando isto for necessário.
4. Comprador e/ou vendedor, o homem de negócios, por mais cristão que seja, terá de salvaguardar os objetivos de sua empresa, mas evitará tomar atitudes egoístas e unilaterais, para o que não deverá considerar sua negociação como um conflito de interesses que no fim reduzirá uma das partes ao papel de perdedor. Muito pelo contrário, inspirar-se-á sinceramente, na afirmação de sto Tomás de aqino, a saber: o intercâmbio foi instituído para trazer vantagem a ambos os contraentes.
5. Cabe, por justiça e Caridade, aos empregadores, pregar com o exemplo de uma atitude irreprensível, ao seu pessoal, a obrigação de impedirem toda promiscuidade na organização do trabalho, e o cuidado de não imporem aos seus colaboradores nenhum trbalho que seja contra a sua consci6encia.
6. Por outro lado, os empregados devem servir lealmente à firma coma qual colaboram, não lhes sendo permitido sacrificar os interesses da mesma com o fim de obter vantagens pessoais.
Fonte: Arquivo Shalom