Formação

A palavra de Deus na vida eclesial

comshalom

Encontrar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura

 72. Se é verdade que a liturgia constitui o lugarprivilegiado para a proclamação, escuta e celebração da Palavra de Deus, éigualmente verdade que este encontro deve ser preparado nos corações dos fiéise sobretudo por eles aprofundado e assimilado. De facto, a vida cristãcaracteriza-se essencialmente pelo encontro com Jesus Cristo que nos chama asegui-Lo. Por isso, o Sínodo dos Bispos afirmou várias vezes a importância dapastoral nas comunidades cristãs como âmbito apropriado onde percorrer umitinerário pessoal e comunitário relativo à Palavra de Deus, de modo que estaesteja verdadeiramente no fundamento da vida espiritual. Juntamente com os Padressinodais, expresso o vivo desejo de que floresça «uma nova estação de maioramor pela Sagrada Escritura da parte de todos os membros do Povo de Deus, demodo que, a partir da sua leitura orante e fiel no tempo, se aprofunde aligação com a própria pessoa de Jesus».[248]

 Na história da Igreja, não faltam recomendações dos Santossobre a necessidade de conhecer a Escritura para crescer no amor de Cristo.Trata-se de um dado particularmente evidente nos Padres da Igreja. SãoJerónimo, grande «enamorado» da Palavra de Deus, interrogava-se: «Como seriapossível viver sem o conhecimento das Escrituras, se é por elas que se aprendea conhecer o próprio Cristo, que é a vida dos crentes?».[249] Estava bem cientede que a Bíblia é o instrumento «pelo qual diariamente Deus fala aoscrentes».[250] Eis os conselhos que ele dava a Leta, uma matrona romana, para aeducação da filha: «Assegura-te de que ela estude diariamente alguma passagemda Escritura. (…) À oração faça seguir a leitura, e à leitura a oração. (…) Queem vez das jóias e dos vestidos de seda, ame os Livros divinos».[251] Permaneceválido para nós aquilo que São Jerónimo escrevia ao sacerdote Nepociano: «Lêcom muita frequência as Escrituras divinas; mais ainda, que as tuas mãos nuncaabandonem o Livro sagrado. Aprende nele o que deves ensinar».[252] Seguindo oexemplo deste grande Santo que dedicou a sua vida ao estudo da Bíblia, tendodado à Igreja a tradução latina chamada Vulgata, e de todos os Santos quecolocaram no centro da sua vida espiritual o encontro com Cristo, renovemos onosso compromisso de aprofundar a Palavra que Deus deu à Igreja; poderemosassim tender para aquela «medida alta da vida cristã ordinária»,[253] desejadapelo Papa João Paulo II no início do terceiro milénio cristão, que se alimentaconstantemente na escuta da Palavra de Deus.

 73. A animação bíblica da pastoral

 Nesta linha, o Sínodo convidou a um esforço pastoralparticular para que a Palavra de Deus apareça em lugar central na vida daIgreja, recomendando que «se incremente a “pastoral bíblica”, não emjustaposição com outras formas da pastoral mas como animação bíblica dapastoral inteira».[254] Não se trata simplesmente de acrescentar qualquerencontro na paróquia ou na diocese, mas de verificar que, nas actividades habituaisdas comunidades cristãs, nas paróquias, nas associações e nos movimentos, setenha realmente a peito o encontro pessoal com Cristo que Se comunica a nós nasua Palavra. Dado que «a ignorância das Escrituras é a ignorância deCristo»,[255] então podemos esperar que a animação bíblica de toda a pastoralordinária e extraordinária levará a um maior conhecimento da Pessoa de Cristo,Revelador do Pai e plenitude da Revelação divina.

 Por isso exorto os pastores e os fiéis a terem em conta aimportância desta animação: será o modo melhor também de enfrentar algunsproblemas pastorais referidos durante a assembleia sinodal, ligados por exemploà proliferação de seitas, que difundem uma leitura deformada einstrumentalizada da Sagrada Escritura. Quando não se formam os fiéis numconhecimento da Bíblia conforme à fé da Igreja no sulco da sua Tradição viva,deixa-se efectivamente um vazio pastoral, onde realidades como as seitas podemencontrar fácil terreno para lançar raízes. Por isso é necessário prover tambéma uma preparação adequada dos sacerdotes e dos leigos, para poderem instruir oPovo de Deus na genuína abordagem das Escrituras.

 Além disso, como foi sublinhado durante os trabalhossinodais, é bom que, na actividade pastoral, se favoreça também a difusão depequenas comunidades, «formadas por famílias ou radicadas nas paróquias ouainda ligadas aos diversos movimentos eclesiais e novas comunidades»,[256] nasquais se promova a formação, a oração e o conhecimento da Bíblia segundo a féda Igreja.

 Dimensão bíblica da catequese

 74. Um momento importante da animação pastoral da Igreja,onde se pode sapientemente descobrir a centralidade da Palavra de Deus, é acatequese, que, nas suas diversas formas e fases, sempre deve acompanhar o Povode Deus. O encontro dos discípulos de Emaús com Jesus, descrito peloevangelista Lucas (cf. L c 24, 13-35), representa em certo sentido o modelo deuma catequese em cujo centro está a «explicação das Escrituras», que somenteCristo é capaz de dar (cf. L c 24, 27-28), mostrando o seu cumprimento em Simesmo.[257] Assim, renasce a esperança, mais forte do que qualquer revés, quefaz daqueles discípulos testemunhas convictas e credíveis do Ressuscitado.

 No Directório Geral da Catequese, encontramos válidasindicações para animar biblicamente a catequese e, para elas, de bom gradoremeto.[258] Neste momento, desejo principalmente sublinhar que a catequese«tem de ser impregnada e embebida de pensamento, espírito e atitudes bíblicas eevangélicas, mediante um contacto assíduo com os próprios textos sagrados; erecordar que a catequese será tanto mais rica e eficaz quanto mais ler ostextos com a inteligência e o coração da Igreja»[259] e quanto mais se inspirarna reflexão e na vida bimilenária da mesma Igreja. Por isso, deve-se encorajaro conhecimento das figuras, acontecimentos e expressões fundamentais do textosagrado; com tal finalidade, pode ser útil a memorização inteligente de algumaspassagens bíblicas particularmente expressivas dos mistérios cristãos. Aactividade catequética implica sempre abeirar-se das Escrituras na fé e naTradição da Igreja, de modo que aquelas palavras sejam sentidas vivas, comoCristo está vivo hoje onde duas ou três pessoas se reúnem em seu nome (cf. Mt18, 20). A catequese deve comunicar com vitalidade a história da salvação e osconteúdos da fé da Igreja, para que cada fiel reconheça que a sua vida pessoalpertence também àquela história.

 Nesta perspectiva, é importante sublinhar a relação entre aSagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica, como afirma o DirectórioGeral da Catequese: «A Sagrada Escritura, como “Palavra de Deus escrita sob ainspiração do Espírito Santo”, e o Catecismo da Igreja Católica, enquantoimportante expressão actual da Tradição viva da Igreja e norma segura para oensino da fé, são chamados a fecundar a catequese na Igreja contemporânea, cadaum segundo o seu próprio modo e a sua autoridade específica».[260]

 Formação bíblica dos cristãos

 75. Para se alcançar o objectivo desejado pelo Sínodo deconferir maior carácter bíblico a toda a pastoral da Igreja, é necessário queexista uma adequada formação dos cristãos e, em particular, dos catequistas. Aeste propósito, é preciso prestar atenção ao apostolado bíblico, método muitoválido para se atingir tal finalidade, como demonstra a experiência eclesial.Além disso, os Padres sinodais recomendaram que se estabeleçam, possivelmenteatravés da valorização de estruturas académicas já existentes, centros deformação para leigos e missionários, nos quais se aprenda a compreender, vivere anunciar a Palavra de Deus e, onde houver necessidade, constituam-seInstitutos especializados em estudos bíblicos a fim de dotarem os exegetas deuma sólida compreensão teológica e uma adequada sensibilidade para os ambientesda sua missão.[261]

 76. A Sagrada Escritura nos grandes encontros eclesiais

 Entre as múltiplas iniciativas que podem ser tomadas, oSínodo sugere que nos encontros, tanto a nível diocesano como nacional ouinternacional, se ponha em maior evidência a importância da Palavra de Deus, dasua escuta e da leitura crente e orante da Bíblia. Por isso, no âmbito dosCongressos Eucarísticos, nacionais e internacionais, das Jornadas Mundiais daJuventude e de outros encontros poder-se-á louvavelmente reservar maior espaçopara celebrações da Palavra e para momentos de formação de carácterbíblico.[262]

 Palavra de Deus e vocações

 77. O Sínodo, quando sublinhou a exigência intrínseca quetem a fé de aprofundar a relação com Cristo, Palavra de Deus entre nós, quistambém evidenciar que esta Palavra chama cada um em termos pessoais, revelandoassim que a própria vida é vocação em relação a Deus. Isto significa que quantomais aprofundarmos a nossa relação pessoal com o Senhor Jesus, tanto mais nosdamos conta de que Ele nos chama à santidade, através de opções definitivas,pelas quais a nossa vida responde ao seu amor, assumindo funções e ministériospara edificar a Igreja. É neste horizonte que se entendem os convites feitospelo Sínodo a todos os cristãos para aprofundarem a relação com a Palavra deDeus, não só como baptizados mas também enquanto chamados a viver segundo osdiversos estados de vida. Aqui tocamos um dos pontos fundamentais da doutrinado Concílio Vaticano II, que sublinhou a vocação à santidade de todo o fiel, cadaum no seu próprio estado de vida.[263] Na Sagrada Escritura, encontramosrevelada a nossa vocação à santidade: «Sede santos, porque Eu, o Senhor vossoDeus, sou santo» (cf. Lv 11, 44; 19, 2; 20, 7). Depois São Paulo põe emevidência a sua raiz cristológica: o Pai, em Cristo, «escolheu-nos, antes daconstituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos seus olhos»(Ef 1, 4). Deste modo podemos tomar como dirigida a cada um de nós a saudaçãodele aos irmãos e irmãs da comunidade de Roma: «A todos os amados de Deus (…),chamados à santidade: Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai,e da do Senhor Jesus Cristo» (Rm 1, 7).

 a) Palavra de Deus e Ministros Ordenados

 78. Dirigindo-me em primeiro lugar aos Ministros Ordenadosda Igreja, recordo-lhes o que afirmou o Sínodo: «A Palavra de Deus éindispensável para formar o coração de um bom pastor, ministro daPalavra».[264] Bispos, presbíteros e diáconos não podem de forma alguma pensarviver a sua vocação e missão sem um decidido e renovado compromisso desantificação, que tem um dos seus pilares no contacto com a Bíblia.

 79. Àqueles que foram chamados ao episcopado e que são osanunciadores primeiros e com maior autoridade da Palavra, desejo reafirmar oque o Papa João Paulo II deixou escrito na Exortação apostólica pós-sinodalPastores gregis: Para nutrir e fazer crescer a vida espiritual, o Bispo devecolocar sempre em «primeiro lugar a leitura e a meditação da Palavra de Deus.Cada Bispo deverá sempre confiar-se e sentir-se confiado “a Deus e à palavra dasua graça que tem o poder de construir o edifício e de conceder parte naherança com todos os santificados” (Act 20, 32). Por isso, antes de sertransmissor da Palavra, o Bispo, como os seus sacerdotes e como qualquer fiel –mais ainda, como a própria Igreja – deve ser ouvinte da Palavra. Deve de certomodo estar “dentro” da Palavra, para deixar-se guardar e nutrir dela como de umventre materno».[265] À imitação de Maria, Virgo audiens e Rainha dosApóstolos, recomendo a todos os irmãos no episcopado a leitura pessoalfrequente e o estudo assíduo da Sagrada Escritura.

 80. Quanto aos sacerdotes, quero apontar-lhes as palavras doPapa João Paulo II, quando, na Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabovobis, recordou que, «antes de mais, o sacerdote é ministro da Palavra de Deus,é consagrado e enviado a anunciar a todos o Evangelho do Reino, chamando cadahomem à obediência da fé e conduzindo os crentes a um conhecimento e comunhãosempre mais profundos do mistério de Deus, revelado e comunicado a nós emCristo. Por isso, o próprio sacerdote deve ser o primeiro a desenvolver umagrande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: não basta conhecer oaspecto linguístico ou exegético, sem dúvida necessário; é preciso abeirar-seda Palavra com coração dócil e orante, a fim de que ela penetre a fundo nosseus pensamentos e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade – “o pensamentode Cristo” (1 Cor 2, 16)».[266] E consequentemente as suas palavras, as suasopções e atitudes devem ser cada vez mais uma transparência, um anúncio e umtestemunho do Evangelho; «só “permanecendo” na Palavra, é que o presbítero setornará perfeito discípulo do Senhor, conhecerá a verdade e será realmentelivre».[267]

 Em suma, a vocação ao sacerdócio requer que sejamconsagrados «na verdade». O próprio Jesus formula esta exigência referindo-seaos seus discípulos: «Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assimcomo Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os envio ao mundo» (Jo 17, 17-18). Osdiscípulos, de certo modo, «são atraídos para a intimidade de Deus por meio dasua imersão na Palavra divina. Esta é, por assim dizer, o banho que ospurifica, o poder criador que os transforma no ser de Deus».[268] E visto que opróprio Cristo é a Palavra de Deus feita carne (cf. Jo 1, 14), é «a Verdade»(Jo 14, 6), então a oração de Jesus ao Pai «consagra-os na verdade» quer dizerfundamentalmente: «Torna-os um só comigo. Une-os a Mim. Atrai-os para dentro deMim. E de facto, em última análise, há apenas um único sacerdote da NovaAliança: o próprio Jesus Cristo».[269] É necessário, pois, que os sacerdotesrenovem sempre mais profundamente em si a consciência desta realidade.

 81. Quero referir-me também ao lugar da Palavra de Deus navida daqueles que são chamados ao diaconado, não só como grau prévio da Ordemdo Presbiterado, mas também enquanto serviço permanente. O Directório para odiaconado permanente afirma que «da identidade teológica do diácono derivam comclareza os traços da sua espiritualidade específica, que se apresentaessencialmente como espiritualidade de serviço. O modelo por excelência éCristo servo, que viveu totalmente ao serviço de Deus, para o bem doshomens».[270] Nesta perspectiva, compreende-se como, nas várias dimensões doministério diaconal, um «elemento caracterizador da espiritualidade diaconalseja a Palavra de Deus, que o diácono é chamado a anunciar com autoridade,acreditando naquilo que proclama, ensinando aquilo que acredita, vivendo aquiloque ensina».[271] Por isso recomendo aos diáconos que incrementem uma leituracrente da Sagrada Escritura na própria vida com o estudo e a oração. Sejaminiciados na Sagrada Escritura e na sua recta interpretação, na mútua relaçãoentre a Escritura e a Tradição, e particularmente na utilização da Escritura napregação, na catequese e na actividade pastoral em geral.[272]

 b) Palavra de Deus e candidatos às Ordens Sacras

 82. O Sínodo deu particular atenção ao papel decisivo daPalavra de Deus na vida espiritual dos candidatos ao sacerdócio ministerial:«Os candidatos ao sacerdócio devem aprender a amar a Palavra de Deus. Por isso,seja a Escritura a alma da sua formação teológica, evidenciando a circularidadeindispensável entre exegese, teologia, espiritualidade e missão».[273] Osaspirantes ao sacerdócio ministerial são chamados a uma profunda relaçãopessoal com a Palavra de Deus, particularmente na lectio divina, porque é detal relação que se alimenta a sua vocação: é com a luz e a força da Palavra deDeus que pode ser descoberta, compreendida, amada e seguida a respectivavocação e levada a cabo a própria missão, alimentando no coração os pensamentosde Deus, de modo que a fé, como resposta à Palavra, se torne o novo critério dejuízo e avaliação dos homens e das coisas, dos acontecimentos e dosproblemas.[274]

 Esta atenção à leitura orante da Escritura não deve, de modoalgum, alimentar uma dicotomia com o estudo exegético que se requer durante otempo da formação. O Sínodo recomendou que os seminaristas sejam concretamenteajudados a ver a relação entre o estudo bíblico e a oração com a Escritura. Oestudo das Escrituras deve torná-los mais conscientes do mistério da revelaçãodivina e alimentar uma atitude de resposta orante ao Senhor que fala. Por suavez, uma vida autêntica de oração não poderá deixar de fazer crescer, na almado candidato, o desejo de conhecer cada vez mais a Deus que Se revelou na suaPalavra como amor infinito. Por isso, dever-se-á procurar com o máximo cuidadoque, na vida dos seminaristas, se cultive esta reciprocidade entre estudo eoração. Para tal objectivo, é útil que os candidatos sejam iniciados no estudoda Sagrada Escritura segundo métodos que favoreçam esta abordagem integral.

 c) Palavra de Deus e vida consagrada

 83. Relativamente à vida consagrada, o Sínodo lembrou emprimeiro lugar que esta «nasce da escuta da Palavra de Deus e acolhe oEvangelho como sua norma de vida».[275] Deste modo, viver no seguimento deCristo casto, pobre e obediente é uma «“exegese” viva da Palavra de Deus».[276]O Espírito Santo, por cuja virtude foi escrita a Bíblia, é o mesmo que ilumina«a Palavra de Deus, com nova luz, para os fundadores e fundadoras. Dela brotoucada um dos carismas e dela cada regra quer ser expressão»,[277] dando origem aitinerários de vida cristã marcados pela radicalidade evangélica.

 Desejo lembrar que a grande tradição monástica sempre tevecomo factor constitutivo da própria espiritualidade a meditação da SagradaEscritura, particularmente na forma da lectio divina. De igual modo, hoje, asrealidades antigas e novas de especial consagração são chamadas a serverdadeiras escolas de vida espiritual onde se há-de ler as Escrituras segundoo Espírito Santo na Igreja, de modo que todo o Povo de Deus disso mesmo possabeneficiar. Por isso, o Sínodo recomenda que nunca falte nas comunidades devida consagrada uma sólida formação para a leitura crente da Bíblia.[278]

 Desejo fazer-me eco da solicitude e gratidão que o Sínodoexprimiu pelas formas de vida contemplativa, que, pelo seu carisma específico,dedicam boa parte das suas jornadas a imitar a Mãe de Deus que meditavaassiduamente as palavras e os factos do seu Filho (cf. L c 2, 19.51) e Maria deBetânia que, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra (cf. L c 10,38). Penso de modo particular nos monges e monjas de clausura que, sob a formade separação do mundo, se encontram mais intimamente unidos a Cristo, coraçãodo mundo. A Igreja tem extrema necessidade do testemunho de quem se comprometea «nada antepor ao amor de Cristo».[279] Com frequência, o mundo actual vivedemasiadamente absorvido pelas actividades exteriores, onde corre o risco de seperder. As mulheres e os homens contemplativos, com a sua vida de oração, deescuta e meditação da Palavra de Deus lembram-nos que não só de pão vive ohomem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (cf. Mt 4, 4). Por isso,todos os fiéis tenham bem presente que uma tal forma de vida «indica ao mundode hoje o que é mais importante e, no fim de contas, a única coisa decisiva:existe uma razão última pela qual vale a pena viver, isto é, Deus e o seu amorimperscrutável».[280]

 d) Palavra de Deus e fiéis leigos

 84. O Sínodo concentrou muitas vezes a sua atenção nos fiéisleigos, agradecendo-lhes o generoso empenho com que difundem o Evangelho nosvários âmbitos da vida diária: no trabalho, na escola, na família e naeducação.[281] Tal obrigação, que deriva do baptismo, deve poder desenrolar-seatravés de uma vida cristã cada vez mais consciente e capaz de dar «razão daesperança» que vive em nós (cf. 1 Pd 3, 15). Jesus, no Evangelho de Mateus,indica que «o campo é o mundo, a boa semente são os filhos do Reino» (13, 38).Estas palavras aplicam-se de modo particular aos leigos cristãos, que realizama própria vocação à santidade com uma vida segundo o Espírito que se exprime«de forma peculiar na sua inserção nas realidades temporais e na suaparticipação nas actividades terrenas».[282] Precisam de ser formados adiscernir a vontade de Deus por meio de uma familiaridade com a Palavra deDeus, lida e estudada na Igreja, sob a guia dos legítimos Pastores. Possam elesbeber esta formação nas escolas das grandes espiritualidades eclesiais, em cujaraiz está sempre a Sagrada Escritura. As próprias dioceses, na medida das suaspossibilidades, proporcionem oportunidades de uma tal formação aos leigos comparticulares responsabilidades eclesiais.[283]

 e) Palavra de Deus, matrimónio e família

 85. O Sínodo sentiu necessidade de sublinhar também arelação entre Palavra de Deus, matrimónio e família cristã. Com efeito, «com oanúncio da Palavra de Deus, a Igreja revela à família cristã a sua verdadeiraidentidade, o que ela é e deve ser segundo o desígnio do Senhor».[284] Porisso, nunca se perca de vista que a Palavra de Deus está na origem domatrimónio (cf. Gn 2, 24) e que o próprio Jesus quis incluir o matrimónio entreas instituições do seu Reino (cf. Mt 19, 4-8), elevando a sacramento o queoriginalmente estava inscrito na natureza humana. «Na celebração sacramental, ohomem e a mulher pronunciam uma palavra profética de doação recíproca: ser “umasó carne”, sinal do mistério da união de Cristo e da Igreja (cf. Ef 5,31-32)».[285] A fidelidade à Palavra de Deus leva também a evidenciar que hojeesta instituição encontra-se, em muitos aspectos, sujeita a ataques pelamentalidade corrente. Perante a difundida desordem dos sentimentos e o despontarde modos de pensar que banalizam o corpo humano e a diferença sexual, a Palavrade Deus reafirma a bondade originária do ser humano, criado como homem e mulhere chamado ao amor fiel, recíproco e fecundo.

 Do grande mistério nupcial deriva uma imprescindívelresponsabilidade dos pais em relação aos seus filhos. De facto, pertence àautêntica paternidade e maternidade a comunicação e o testemunho do sentido davida em Cristo: através da fidelidade e unidade da vida familiar, os esposossão, para os seus filhos, os primeiros anunciadores da Palavra de Deus. Acomunidade eclesial deve sustentá-los e ajudá-los a desenvolverem a oração emfamília, a escuta da Palavra, o conhecimento da Bíblia. Por isso, o Sínododeseja que cada casa tenha a sua Bíblia e a conserve em lugar digno para poderlê-la e utilizá-la na oração. A ajuda necessária pode ser fornecida porsacerdotes, diáconos e leigos bem preparados. O Sínodo recomendou também aformação de pequenas comunidades entre famílias, onde se cultive a oração e ameditação em comum de trechos apropriados da Sagrada Escritura.[286] Os espososlembrem-se de que «a Palavra de Deus é um amparo precioso inclusive nasdificuldades da vida conjugal e familiar».[287]

 Neste contexto, quero evidenciar as recomendações do Sínodoquanto à função das mulheres relativamente à Palavra de Deus. A contribuição do«génio feminino» – assim lhe chamava o Papa João Paulo II[288] – para oconhecimento da Escritura e para a vida inteira da Igreja é hoje maior do queno passado e tem a ver com o campo dos próprios estudos bíblicos. De modoespecial, o Sínodo deteve-se sobre o papel indispensável das mulheres nafamília, na educação, na catequese e na transmissão dos valores. Com efeito,elas «sabem suscitar a escuta da Palavra, a relação pessoal com Deus ecomunicar o sentido do perdão e da partilha evangélica»,[289] como também serportadoras de amor, mestras de misericórdia e construtoras de paz,comunicadoras de calor e humanidade num mundo que demasiadas vezes se limita aavaliar as pessoas com os critérios frios da exploração e do lucro.

Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini –Introdução »

I Parte:
O Deus que fala »
Cristologia da Palavra »
A Palavra de Deus e o Espírito Santo »
Deus Pai, fonte e origem da Palavra »
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja »
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada »
A relação entre Antigo e Novo Testamento »
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas »

II – Parte:
A Igreja acolhe a Palavra »
A sacramentalidade da Palavra »
A palavra de Deus na vida eclesial »
Leitura orante da Sagrada Escritura e "lectio divina" »

III-Parte
A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo »
Palavra de Deus e compromisso no mundo »
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes »
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas »
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso »

Conclusão
A palavra definitiva de Deus »


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *