Formação

A palavra definitiva de Deus

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 121. No termo destas reflexões, em que reuni e aprofundei ariqueza da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavrade Deus na vida e na missão da Igreja, desejo uma vez mais exortar todo o Povode Deus, os Pastores, as pessoas consagradas e os fiéis leigos a empenharem-separa que as Sagradas Escrituras se lhes tornem cada vez mais familiares. Nuncadevemos esquecer que, na base de toda a espiritualidade cristã autêntica eviva, está a Palavra de Deus anunciada, acolhida, celebrada e meditada naIgreja. A intensificação do relacionamento com a Palavra divina acontecerá comtanto maior decisão quanto mais cientes estivermos de nos encontrar, quer naEscritura quer na Tradição viva da Igreja, em presença da Palavra definitiva deDeus sobre o universo e a história.

 Como nos leva a contemplar o Prólogo do Evangelho de João,todo o ser está sob o signo da Palavra. O Verbo sai do Pai e vem habitar entreos Seus e regressa ao seio do Pai para levar consigo toda a criação que n’Ele epara Ele fora criada. Agora a Igreja vive a sua missão na veemente expectativada manifestação escatológica do Esposo: «O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!”»(Ap 22, 17). Esta expectativa nunca é passiva, mas tensão missionária deanúncio da Palavra de Deus que cura e redime todo o homem; ainda hoje Jesusressuscitado nos diz: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura»(Mc 16, 15).

 Nova evangelização e nova escuta

 122. Por isso, o nosso deve ser cada vez mais o tempo de umanova escuta da Palavra de Deus e de uma nova evangelização. É que descobrir acentralidade da Palavra de Deus na vida cristã faz-nos encontrar o sentido maisprofundo daquilo que João Paulo II incansavelmente lembrou: continuar a missioad gentes e empreender com todas as forças a nova evangelização, sobretudonaquelas nações onde o Evangelho foi esquecido ou é vítima da indiferença damaioria por causa de um difundido secularismo. O Espírito Santo desperte noshomens fome e sede da Palavra de Deus e os torne zelosos anunciadores etestemunhas do Evangelho.

 À imitação do grande Apóstolo das Nações, que ficoutransformado depois de ter ouvido a voz do Senhor (cf. Act 9, 1-30), escutemostambém nós a Palavra divina que não cessa de nos interpelar pessoalmente aqui eagora. O Espírito Santo reservou para Si – narram os Actos dos Apóstolos –Paulo e Barnabé para a pregação e a difusão da Boa Nova (cf. 13, 2). Tambémhoje de igual modo o Espírito Santo não cessa de chamar ouvintes e anunciadoresconvictos e persuasivos da Palavra do Senhor.

 A Palavra e a alegria

 123. Quanto mais soubermos colocar-nos à disposição daPalavra divina, tanto mais poderemos constatar como o mistério do Pentecostesse está a realizar ainda hoje na Igreja de Deus. O Espírito do Senhor continuaa derramar os seus dons sobre a Igreja, para que sejamos guiados para a verdadetotal, desvendando-nos o sentido das Escrituras e tornando-nos anunciadorescredíveis da Palavra de salvação. E assim regressamos à Primeira Carta de SãoJoão. Na Palavra de Deus, também nós escutámos, vimos e tocámos o Verbo davida. Por graça, acolhemos o anúncio de que a vida eterna se manifestou, de modoque agora reconhecemos que estamos em comunhão uns com os outros, com quem nosprecedeu no sinal da fé e com todos aqueles que, espalhados pelo mundo, escutama Palavra, celebram a Eucaristia, vivem o testemunho da caridade. Recebemos acomunicação deste anúncio – recorda-nos o apóstolo João – para que «a nossaalegria seja completa» (cf. 1 Jo 1, 4).

 A Assembleia sinodal permitiu-nos experimentar tudo isto queestá contido na mensagem joanina: o anúncio da Palavra cria comunhão e gera aalegria. Trata-se de uma alegria profunda que brota do próprio coração da vidatrinitária e é-nos comunicada no Filho. Trata-se da alegria como dom inefávelque o mundo não pode dar. Podem-se organizar festas, mas não a alegria. Segundoa Escritura, a alegria é fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22), que nospermite entrar na Palavra e fazer com que a Palavra divina entre em nós efrutifique para a vida eterna. Anunciando a Palavra de Deus na força doEspírito Santo, queremos comunicar também a fonte da verdadeira alegria, nãouma alegria superficial e efémera, mas aquela que brota da certeza de que só oSenhor Jesus tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68).

 «Mater Verbi et Mater laetitiae»

 124. Esta relação íntima entre a Palavra de Deus e a alegriaaparece em evidência precisamente na Mãe de Deus. Recordemos as palavras deSanta Isabel: «Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas quelhe foram ditas da parte do Senhor» (L c 1, 45). Maria é feliz porque tem fé,porque acreditou, e, nesta fé, acolheu no seu ventre o Verbo de Deus para O darao mundo. A alegria recebida da Palavra pode agora estender-se a todos aquelesque na fé se deixam transformar pela Palavra de Deus. O Evangelho de Lucasapresenta-nos este mistério de escuta e de alegria, em dois textos. Jesusafirma: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e apõem em prática» (8, 21). E, em resposta à exclamação duma mulher que, do meioda multidão, pretende exaltar o ventre que O trouxe e o seio que O amamentou,Jesus revela o segredo da verdadeira alegria: «Diz antes: Felizes os queescutam a palavra de Deus e a põem em prática» (11, 28). Jesus manifesta averdadeira grandeza de Maria, abrindo assim também a cada um de nós apossibilidade daquela bem-aventurança que nasce da Palavra acolhida e posta emprática. Por isso, recordo a todos os cristãos que o nosso relacionamentopessoal e comunitário com Deus depende do incremento da nossa familiaridade coma Palavra divina. Por fim, dirijo-me a todos os homens, mesmo a quantos seafastaram da Igreja, que abandonaram a fé ou que nunca ouviram o anúncio desalvação. O Senhor diz a cada um: «Eis que estou à porta e bato. Se alguémouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e elecomigo» (Ap 3, 20).

 Por isso, cada um dos nossos dias seja plasmado peloencontro renovado com Cristo, Verbo do Pai feito carne: Ele está no início e nofim de tudo, e n’Ele todas as coisas subsistem (cf. Cl 1, 17). Façamos silênciopara ouvir a Palavra do Senhor e meditá-la, a fim de que a mesma, através daacção eficaz do Espírito Santo, continue a habitar e a viver em nós e afalar-nos ao longo de todos os dias da nossa vida. Desta forma, a Igreja semprese renova e rejuvenesce graças à Palavra do Senhor, que permanece eternamente(cf. 1 Pd 1, 25; Is 40, 8). Assim também nós poderemos entrar no esplêndidodiálogo nupcial com que se encerra a Sagrada Escritura: «O Espírito e a Esposadizem: “Vem”! E, aquele que ouve, diga: “Vem”! (…) O que dá testemunho destascoisas diz. “Sim, Eu venho em breve”! Amen. Vem, Senhor Jesus!» (Ap 22, 17.20).

 Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 30 de Setembro –memória de São Jerónimo – de 2010, sexto ano de Pontificado.

 BENEDICTUS PP. XVI

Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini –Introdução »

I Parte:
O Deus que fala »
Cristologia da Palavra »
A Palavra de Deus e o Espírito Santo »
Deus Pai, fonte e origem da Palavra »
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja »
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada »
A relação entre Antigo e Novo Testamento »
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas »

II – Parte:
A Igreja acolhe a Palavra »
A sacramentalidade da Palavra »
A palavra de Deus na vida eclesial »
Leitura orante da Sagrada Escritura e "lectio divina" »

III-Parte
A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo »
Palavra de Deus e compromisso no mundo »
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes »
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas »
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso »

Conclusão
A palavra definitiva de Deus »


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