“Mas dizei uma palavra e serei salvo.”
Essa resposta, que proclamamos antes da Comunhão na Missa, revela uma grande verdade: a Palavra de Deus é viva, capaz de transformar, salvar, converter, iluminar e purificar. Nela, percebemos que o Senhor não precisa fazer muito, mas uma só Palavra pode curar as feridas mais profundas do nosso coração e redirecionar o curso da nossa vida.
Ao adentrar no nosso coração, a Palavra de Deus, como uma espada, transpassar e expulsa as trevas. Como a aurora que rompe a noite, vai iluminando a nossa morada interior. Após ouvir a voz do Senhor, não permanecemos os mesmos: Ele nos desinstala, confronta as nossas incoerências e nos conduz à Verdade.
Colocar-se diante das Sagradas Escrituras é colocar-se diante do próprio Cristo
Ele é real, e a sua Palavra é vida. Ao nos expormos a ela, conhecemos verdadeiramente o Senhor e, n’Ele, descobrimos quem somos e para que fomos criados.
A Palavra divina não é somente um conjunto de escritos, mas uma Pessoa: Cristo Jesus. Como afirmou São João:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus… e o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14).
Assim, compreendemos que as Sagradas Escrituras são lugar de encontro: encontro com o Criador, com o Salvador, com a Verdade. Por isso, não podemos ler ou ouvir a Palavra de Deus de modo distraído. É preciso deixá-la penetrar no mais profundo de nós, converter o coração e realizar sua missão: é o próprio Senhor quem nos fala.
Foi o que aconteceu com Santo Agostinho. Ao abrir as Escrituras, encontrou estas palavras:
“Nada de orgias nem bebedeiras, nada de devassidão nem libertinagem, nada de contendas nem ciúmes. Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não vos preocupeis com a carne satisfazendo os seus desejos” (Rm 13,13-14).
Em meio à névoa que encobria sua alma, estas palavras foram como um feixe de luz que dissipou a escuridão. As correntes do pecado se quebraram, e ele nasceu para uma vida nova.
A terra do nosso coração
Como na Parábola do Semeador (Mt 13,1-23), a Palavra de Deus pode até cair na terra do nosso coração, mas sua fecundidade dependerá da forma como a acolhemos.
Há corações endurecidos, semelhantes às sementes lançadas à beira do caminho: a Palavra até chega, mas não penetra, e logo é roubada pelas distrações e tentações.
O Verbo divino pode também encontrar corações pedregosos, que acolhem a Palavra com entusiasmo inicial, mas não permitem que ela crie raízes profundas; assim, quando surgem as provações, a fé rapidamente se apaga.
Outros corações se assemelham à terra cheia de espinhos: recebem a Palavra, mas os cuidados do mundo, as preocupações e os apegos sufocam o sopro da graça e impedem a semente de crescer.
Mas há também o coração fértil, que acolhe a Palavra com humildade e perseverança. Nele, a semente encontra espaço para germinar, crescer e frutificar. O Verbo divino encarna-se nesse coração, curando, transformando e convertendo toda a sua vida.
Converter-se é permitir que a Palavra de Deus não apenas chegue aos ouvidos, mas desça até o coração
A forma como recebemos a Palavra e a eficácia da sua missão, dependerá da abertura do nosso coração. Por isso, em meio a tantas vozes que tentam nos confundir, precisamos deixar que a Voz de Deus penetra o nosso interior, conduza os nossos passos e transforme toda a nossa vida.
Por fim, o Papa Francisco nos recordou na Audiência Geral de dezembro de 2022 que:
“Para quem crê, a Palavra de Deus não é simplesmente um texto para ler, é uma presença viva, obra do Espírito Santo que consola, instrui, dá luz, força, alívio e gosto de viver”