Formação

A Parresia antes e depois da Palavra

No contato com a cultura grega, ou pela simples necessidade de expressar algo tão específico, a parresia chegou até o meio cristão, que em sua maioria não tinham o grego como língua mãe. Entre estes, porém, o conceito de parresia ganhará uma força totalmente nova.

Nas últimas décadas, o termo parresia (do grego, παρρησία) vem ganhando espaço no vocabulário cristão. Nós o encontramos em documentos como Catecismo da Igreja Católica (CIC 2778), Redemptoris Missio (RM 45) e em outros textos, pontificais ou não.

No entanto, o que poucos cristãos sabem é que a origem deste termo remonta à política da Grécia antiga. Ele designava o privilégio dos cidadãos gregos, com igualdade de direitos, de tomar a palavra em meio à Assembleia. A parresia representava de certa forma o ideal democrático dos Atenienses: uma palavra verdadeira e direta que abria necessariamente um espaço de risco àquele que a enunciava.

Parresia, em sua forma verbal ou substantiva, não marcaria somente a história política da Grécia antiga: muitos filósofos viriam a adotá-la em sua busca pela verdade. No entanto, o prolongamento das tradições filosóficas e cívicas da cultura grega não acontecerá sem uma certa ambiguidade ou traição da noção original de parresia, como demonstra Luciano de Samósata, em Parrhésiadès, que reivindica parresia em seu discurso, ao mesmo tempo em que usa de máscaras, pseudônimos e artifícios literários em suas argumentações.

No contato com a cultura grega, ou pela simples necessidade de expressar algo tão específico, a parresia chegou até o meio cristão, que em sua maioria não tinham o grego como língua mãe. Entre estes, porém, o conceito de parresia ganhará uma força totalmente nova, como uma resposta que conjugará a dimensão política da liberdade de falar e a dimensão filosófica da busca pela verdade: anunciar a todos os povos a Boa Nova da verdade com total liberdade é agora uma missão dada pelo Deus Único de Israel. Além de contrastar com a cultura politeísta grega, esta parresia cristã traz uma confiança tal que lhes permite chamar Deus de Abba, Pai (cf. Rm 8,15): um escândalo para os judeus e uma loucura para os gregos (cf. 1Cor 1,23).

 

 

A parresia e a evangelização

Desta forma, o conceito de parresia, tal qual conhecemos no meio eclesial, foi moldado pelas primeiras comunidades cristãs. Permeando os Atos dos Apóstolos até o último versículo, é com este termo que São Lucas refere-se ao modo com o qual Paulo, Barnabé e Apolo tomavam a palavra: “falavam com intrepidez” (cf. At 9,27-28; 13,46; 14,3; 18,26; 19,8; 26,26; 28,31).

“Então Barnabé tomou Saulo consigo, levou-o aos apóstolos e contou-lhes (…) com que intrepidez, em Damasco, falara em nome de Jesus. Daí por diante, ia e vinha entre eles, em Jerusalém, falando com intrepidez no nome do Senhor.” (At 9,27-28)

“Quanto a Paulo e Barnabé, demoraram-se ali bastante tempo, cheios de intrepidez no Senhor, que dava testemunho à palavra da sua graça e concedia que se realizassem sinais e prodígios por meio de suas mãos.” (At 14,3)

“Paulo ficou dois anos (…) e proclamava o que se refere ao Senhor Jesus Cristo com toda intrepidez e sem impedimento.” (At 28,30-31)

O próprio Paulo, profundo conhecedor da cultura grega, fará abundante uso deste termo em suas cartas, em diversas circunstâncias (2Cor 3,13; 7,4; Ef 3,12; Fl 1,20; Cl 2,15; 1Ts 2,2; 1Tm 3,13; Fm 1,8), e particularmente também referindo-se ao anúncio.

“Orai também por mim, para que, quando abrir os lábios, me seja dada a palavra para anunciar com ousadia o mistério do evangelho, do qual sou embaixador em cadeias: que fale ousadamente como importa que fale.” (Ef 6,19-20)

“Mnha expectativa e esperança é de que em nada serei confundido, mas com toda a ousadia, agora como sempre, Cristo será engrandecido no meu corpo, pela vida ou pela morte.” (Fl 1,20)

 

A parresia como fruto do Espírito Santo

No entanto, a parresia dos apóstolos nasce antes, com a experiência de Pentecostes. Diante de judeus estupefatos e surpresos com o ruído que se produziu no Cenáculo (cf. At 2,6-7), aparece Pedro, o mesmo a quem o medo há poucos dias fizera negar o Senhor. Agora de pé, junto com os Onze, (cf. At 2,14) Pedro toma a palavra de uma forma nova naquele discurso que, podemos afirmar, viria a ser o discurso inaugural da Igreja, a primeira homilia.

“Seja-me permitido dizer-vos com toda franqueza (…): Deus constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes.” (cf. At 2,29.36)

Os frutos foram imediatos: ouvindo aquelas palavras cheias de parresia, “sentiram o coração traspassado” e “acrescentaram-se a eles, naquele dia, cerca de três mil pessoas” (cf. At 2,37. 41).

O Espírito Santo é a fonte da parresia, a promessa de Cristo a seus discípulos: “o Espírito Santo vos ensinará naquele momento o que deveis dizer” (Lc 12,12). É o que vemos logo após aquele primeiro anúncio, quando Pedro e João, interrogados pelo Sinédrio, professam mais uma vez com parresia Jesus Ressuscitado.

“Ao ver a intrepidez de Pedro e de João, e verificando que eram homens iletrados e sem posição social, ficaram admirados. (…) Chamando-os, pois, ordenaram-lhes que absolutamente não falassem nem ensinassem mais em nome de Jesus. No entanto, Pedro e João responderam: ‘Julgai se é justo, aos olhos de Deus, obedecer mais a vós do que a Deus. Pois não podemos, nós, deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos’.” (At 4,13.18-20)

A parresia encontra no anúncio apostólico o máximo de seu sentido original, quando aquele que fala arrisca a própria vida em nome da verdade. Esta coragem é fruto do Espírito: “Ele vos guiará na verdade plena” (Jo 16,13). É então que a parresia surge na Igreja não somente como fruto da efusão do Espírito Santo, mas também como uma espécie de “ambiente ideal” onde esta efusão é renovada, uma força que atrai o olhar de Deus.

“’Agora, pois, Senhor, considera suas ameaças e concede a teus servos que anunciem com toda a intrepidez tua palavra (…).’ Tendo eles assim orado, tremeu o lugar onde se achavam reunidos. E todos ficaram repletos do Espírito Santo, continuando a anunciar com intrepidez a palavra de Deus.” (At 4,29)

 

A parresia de Cristo

O Evangelho nos presenteia com a parresia nos atos do próprio Deus. Sim, não somente em palavras, mas naquela mensagem que somente os atos podem atestar. A palavra da verdade se faz ouvir até mesmo no silêncio de Cristo. É o que no mostra São João, ao longo de seu relato, em meio à crescente perseguição feita a Jesus por parte dos judeus.

A partir do sétimo capítulo, a parresia é colocada em questão. O evangelista faz um paralelo entre a falsa parresia, inoportuna e provocativa, desejada pelos homens (Jo 7,4.13; 10,24; 16,29), e aquela verdadeira manifestada por Jesus em atos que revelavam sua liberdade perfeita (Jo 7,26; 11,14.54; 16,25). Por fim, justamente entre as negações de Pedro, o discípulo amado coloca a palavra de Cristo: “Falei com parresia ao mundo” (cf. Jo 18,20).

Esta “purificação” do uso da parresia aparece já no primeiro texto do Novo Testamento a ser redigido. Diz o Apóstolo Paulo em sua primeira carta aos Tessalonicenses:

“Sabeis que sofremos e fomos insultados em Filipos. Decidimos, contudo, confiados em nosso Deus, anunciar-vos o Evangelho de Deus, no meio de grandes lutas. Pois a nossa exortação nada tem de intenções enganosas, de motivos espúrios, nem de astúcias. Uma vez que Deus nos achou dignos de confiar-nos o Evangelho, falamos não para agradar aos homens, mas a Deus.” (1Ts 2,2-4)

Desta maneira, Cristo manifestou aos discípulos com surpreendente clareza a verdade que eles menos esperavam conhecer:

“’O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar.’ Dizia isso abertamente.” (Mc 8,31-32)

Convém destacar ainda, no final do sétimo capítulo do Evangelho de São João, uma cena inusitada: os soldados enviados para prender Jesus, questionados pelos fariseus por não o terem trazido, terminaram por nos dar um testemunho único da parresia de Cristo: “Jamais um homem falou assim” (Jo 7,46). Verdadeiramente, Cristo é a Palavra Viva, o verbo de Deus feito carne, a própria Verdade.

 

A parresia como fruto da Ressurreição

Em suas cartas, Paulo faz um paralelo entre Moisés e o Cristo, entre a lei gravada sobre a pedra e a lei do Espírito, entre o Antigo e o Novo Testamento, onde a parresia testemunha esta transição redentora que nos levou à plenitude da verdade: ela é a confiança, a segurança e a liberdade para ousar no que antes era impossível, pela graça do Cristo.

“Fortalecidos por tal esperança, temos plena confiança: não fazemos como Moisés, que colocava um véu sobre sua face. (…) Sim; até hoje, quando [os israelitas] leem o Antigo Testamento, este mesmo véu permanece. Não é retirado porque é em Cristo que ele desaparece.” (cf. 2Cor 3,12-14)

“[Por Jesus] ousamos nos aproximar com toda confiança pelo caminho da fé em Cristo.” (Ef 3,12)

Diante da sarça ardente, fora dito a Moisés: “Não te aproximes, descalça as sandálias” (cf. Ex 3,5). Em Cristo, este umbral da santidade divina é franqueado, pois Ele mesmo nos introduz perante a face do Pai: “Eis-me, a mim e aos meus filhos que Deus me deu!” (Hb 2,13) (cf. CIC 2777). Desta forma, a dimensão escatológica da parresia será apresentada também pelo autor da carta aos Hebreus:

“Esta casa [de Deus] somos nós, se mantivermos a confiança e o motivo altaneiro da esperança.” (Hb 3,6)
“Aproximemo-nos, então, com segurança do trono da graça para conseguirmos misericórdia e alcançarmos graça, como ajuda oportuna.” (Hb 4,16)

“Sendo assim, irmãos, temos toda a liberdade de entrar no Santuário, pelo Sangue de Jesus.” (Hb 10,19)
“Não percais, pois, a vossa segurança que tamanha recompensa merece.” (Hb 10,35)

 

A parresia filial

A parresia, portanto, desenvolveu-se entre os primeiros cristãos até transcender seu conceito original. Levando à perfeição a expressão clara e livre da verdade, aprofundou o comprometimento de quem toma a palavra com o engajamento da própria vida, até tornar-se postura decisiva que abre as portas para o Eterno.

Como é do conhecimento de todo discípulo, as últimas recomendações do mestre são as mais importantes. Não será diferente nas suas últimas cartas de São João, no final do primeiro século, quando o discípulo amado volta seu olhar para o mandamento maior do Divino Mestre: a caridade. A carta é permeada de um insistente apelo à confiança, fruto do amor:

“Agora, pois, filhinhos, permanecei nele, para que, quando ele se manifestar, tenhamos plena confiança e não sejamos confundidos.” (1Jo 2,28)

“Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele. Nisto consiste a perfeição do amor em nós: que tenhamos plena confiança no dia do Julgamento, porque tal como ele é também somos nós neste mundo. Não há temor no amor: ao contrário, o perfeito amor lança fora todo o temor.” (1Jo 4,16-18)

“Amados, se nosso coração não nos condena, temos confiança diante de Deus.” (1Jo 3,21)

Se a Sagrada Escritura nos revelou de forma tão completa a beleza da parresia, é a tradição litúrgica do Oriente e do Ocidente que a colocou em nossos lábios a cada Eucaristia, ao introduzir a oração do Senhor: “Com a confiança e a liberdade de filhos de Deus, ousamos dizer: Pai Nosso…”. A parresia é esta simplicidade sem desvio, confiança filial, segurança alegre, ousadia humilde, certeza de ser amado (cf. CIC 2777-2778). Ela é a forma mais bela de aproximar-se de Deus, para chamá-lo de Abba, Pai.

 

Conclusão

Podemos afirmar que a parresia cristã, mais do que uma palavra ou uma forma de falar, é fruto do Espírito e virtude que acompanha o fiel em sua missão, preparando-o para seu encontro definitivo com o Verbo Eterno. É liberdade, pois é permanecendo na Palavra de Cristo que se conhece a Verdade e se é liberto por ela (cf. Jo 8,32) e porque onde está o Espírito está a liberdade (cf. 2Cor 3,17). É coragem, porque Cristo venceu o mundo (cf. Jo 16,33) e porque os sofrimentos do tempo presente não se comparam à glória futura (cf. Rm 8,18). É confiança, porque o amor lança fora todo temor (cf. 1Jo 4,18) e porque é pleno cumprimento da Lei (cf. Rm 13,10).

Podemos afirmar que a parresia é postura que precede a proclamação. Ela, até então acompanhada de uma palavra pronunciada, dispensará no último dia qualquer palavra para tornar-se confiança silenciosa e amorosa diante do Pai. Assim seja para cada um de nós!


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