Formação

A participação do corpo na relação do homem com Deus

“Povos todos, batei palmas, aclamai Deus com vozes de regozijo!” (Sl 46,2)

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Foto: COMSHALOM

“Eu só acreditaria em um Deus que dançasse.” (Nietszche) [1]. Ah, caro Friedrich, não conheceste nosso amado Jesus, que como bom judeu, dançava alegremente a glória de Deus! Mas quantos Nietzche existem por aí, necessitados de conhecer o verdadeiro Deus dos cristãos, que rejubila e faz rejubilar, que não tem medo de danças e palmas, que não se sente ofendido ao ver a felicidade de seus filhos estampada em seus rostos, que veio trazer a vida em abundância (cf. Jo 10,10), que convida a alegra-se sempre no Senhor (cf. Fl 4,4), que chama a louvar o Nome do Senhor com danças, tamborins e harpas (cf. Sl 149,3)? O Deus que muda nosso pranto em danças, que tira as vestes de tristeza e nos veste de alegria (cf. Sl 30,11-12), que convida as moças a dançar de alegria, como também jovens e anciãos (cf. Jr 31,13)!

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1- Liturgia judaica e liturgia cristã

As primeiras gerações de cristãos se inspiraram e rezaram com os salmos, vivenciando na oração festiva a alegria e a grandeza do Senhor Deus. O salmo que nos empresta o título desse breve artigo nos lembra com que alegria o povo de Deus sempre celebrou as vitórias do Altíssimo em seu caminho. Israel começou a se entender como povo a partir de uma intervenção portentosa de Deus na sua história: Deus é- e sempre foi- aquele que lhe devolvia a liberdade. Para os hebreus, no Egito, o Senhor Deus, Aquele que é, que era e que será, age em sua história devolvendo-lhe a liberdade. Deus cria liberdade na vida dos seus. Diante dessas maravilhas, como reagiam seus eleitos?

Após a travessia do mar Vermelho, “Moisés cantou junto aos filhos de Israel este cântico- diz o êxodo- cantemos ao Senhor, porque fez brilhar a sua glória…” (Ex 15,1). Em seguida, “Miriam, a profetisa, irmã de Aarão, tomou na mão um adufe [2], e saíram todas as mulheres dançando após ela com adufes.”(Ex 15,20). Séculos depois, o Rei Davi ‘’dançava diante do Senhor com todas as suas forças, cingido dum étofe de linho. Davi e toda a casa de Israel conduziram a Arca da Aliança do Senhor com júbilo e ao som de trombetas.” ( II Sm 6,14-15). 

Diante de tanta alegria na presença de Deus, houve quem não gostasse: “Quando entrou a Arca do Senhor na cidade de Davi, Micol, filha de Saul, olhando a janela, viu o Rei Davi dançando e saltando diante do Senhor, e desprezou-o em seu coração.” (II Sm 6,16). Quando Micol faz a reflexão a Davi, dizendo-lhe que o que fazia não era digno do Rei, Davi lhe responde: “Diante do Senhor, que me escolheu, preferindo-me a teu pai e a toda a sua família, e que me mandou que fosse eu o condutor do povo do Senhor em Israel, não só dançarei, mas também me farei mais vil do que me tenho feito, serei mais humilde aos teus olhos, e com isto aparecerei com mais glória diante das escravas, de que falaste.’ E Micol, filha de Saul, não teve mais filhos até o dia de sua morte” (II Sm 6,21-23), nos anuncia a Palavra de Deus. 

Jesus e muitos da primeira geração de cristãos eram membros do povo eleito de Deus. A Mãe de Jesus também era judia. O Papa Bento XVI no livro Jesus de Nazaré- a Infância, nota que o Anjo Gabriel saúda Maria com a palavra grega Khaire, ‘’que se pode traduzir por ‘’ave’’, mas cujo verdadeiro significado é: alegra-te! Com esse voto- podemos dizer, diz ainda Bento XVI, começa propriamente o Novo Testamento.”[3] Bento XVI continua:

“A palavra alegria volta a aparecer na Noite Santa, nos lábios do anjo que diz aos pastores: ‘’Eis que vos anuncio uma grande alegria!’’ (Lc 2,10). Aparece, em João, por ocasião do encontro do Ressuscitado: ‘’Os discípulos ficaram cheios de alegria por verem o Senhor.’’ (Jo 20,20). Nos discursos de despedida, em João, aparece uma teologia da alegria, que esclarece, por assim dizer, as profundezas da palavra: ‘’Eu vos verei de novo e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria.’’ (Jo 16,22) Nesses textos, a alegria aparece como o dom próprio do Espírito Santo, como o verdadeiro dom do Redentor.”[4]

 

Carta aberta de Moysés Azevedo ao Papa Emérito Bento XVI

A alegria é o dom próprio do Redentor do homem. A Boa Nova de Jesus trazia alegria e com a Sua Ressurreição essa alegria, dom do Espírito Santo, tornou-se a marca distintiva dos cristãos. 

Pousemos nosso olhar contemplativo sobre o próprio Redentor. Jesus era um judeu praticante, como diríamos hoje. Ele rezava pelo menos três vezes por dia, como bom judeu, e, segundo os evangelhos, passava noites inteiras em oração ( cf. Lc 3,21-22; Lc 6,12; ; Mc 1,35-39, etc). Na véspera de sua Paixão, quis celebrar a Páscoa judaica durante a qual instituiu a Eucaristia. A celebração que Jesus viveu é permeada pelo canto dos salmos, especialmente os salmos conhecidos como Hallel [5] (Sl 113-118), em meio a danças e louvores alegres. [6]

“O elemento da liturgia sinagogal que chama logo a nossa atenção quando nós procuramos as origens da Eucaristia cristã é o tipo de oração chamada em hebraico berakoth, termo traduzido em grego para eucaristia. Na nossa língua se traduz por ‘’ação de graças’’, assim como berakah, apesar do hábito judaico que chama as berakoth de ‘’bênçãos’’. (…) Ação de graças, no uso que fazemos hoje, veio a significar um simples agradecimento por um favor particular concedido por Deus. Mas na Eucaristia primitiva, assim como na berakah judaica antes dela, ação de graças significa uma proclamação, uma verdadeira confissão das maravilhas de Deus. (…)E não se trata de um louvor abstrato, como se as maravilhas de Deus não tivessem ressonância na vida do homem piedoso. Ao contrário, a ‘’bênção’’ ao Deus que se revelou a Israel, que se comunicou ao povo de forma única, que lhe conheceu e por conseguinte se fez conhecer: entre o homem e Deus se forma uma relação sui generis que, ao longo do louvor, permanece subjacente.”[7]

A oração cristã nasce nesse ambiente espiritual todo feito de uma relação profunda com o Deus Vivo.

 “A liturgia cristã, a Eucaristia por excelência, é uma das criações mais originais do cristianismo. Mas, mesmo que original, não se trata de uma criação ex nihilo [8]. (…) O material que constituiu a base da Eucaristia cristã não é uma simples matéria bruta. São pedras trabalhadas e polidas. Não provém de um canteiro de obras abandonado, mas de um atelier onde se beneficia de uma longa experiência elaborada [ao longo dos séculos]. E não para aboli-la, mas cumpri-la em plenitude [9].” “As berakoth judaicas têm como grande objeto o próprio Deus. A benção se dirige a Deus, e não para que Ele envie graças sobre nós ou sobre nossos bens, mas para dar-lhe graças por tudo, a fim de nos estabelecer em uma referência do nosso próprio ser a Deus numa perspectiva desinteressada, de pura gratidão.” [10]

Jesus de Nazaré é o homem que conseguiu pronunciar a perfeita oração de bênção ao Deus Vivo, oração como resposta perfeita ao Deus que falou e agiu. A oração de louvor citada por Mateus e Lucas após a primeira missão dos doze apóstolos é uma berakah típica. O tema do louvor de Jesus em Mt 11,25-30 e Lc 10,21-22 é típico das berakoth: o conhecimento de Deus em nós, como resposta do conhecimento que Deus tem de nós:

“Nesse momento, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas dos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado.”( Lc 10,21-22)

Comenta:

“A exultação de Jesus exprime a alma de toda berakah. É a exultação de quem descobre, por revelação divina, o sentido de todas as coisas, e da vida do próprio homem.(…) Mas a exultação própria de Jesus ultrapassa infinitamente aquela de todo crente da antiga aliança. Sua oração é a oração daquele que sabe, não apenas que é conhecido por Deus, mas que é objeto único do conhecimento divino. Jesus é Filho único, amado, no qual todo Israel se resume, mas também, é ultrapassado. (…) Na verdade, o fundo da alma de Jesus é todo uma Eucaristia permanente.” [11]

O mesmo autor fala de uma verdadeira Sabedoria contida nesse louvor e nessa alegria:

“Essa sabedoria só é acessível aos pequenos, aos que são tocados por esse espírito de infância sobrenatural que é o Espírito do Pai, no qual só Jesus pode se alegrar e conhecer o Pai e ser conhecido pelo Pai. Esses são aqueles que a piedade dos últimos salmistas havia chamado de ‘’os pobres’’ por excelência. Esse é o ‘’bom prazer (eudoxia em grego) do Pai, seu desígnio de Amor gratuito que, no Filho e pelo Filho, vai se realizar em todos os homens.” [12]

Jesus nos abre a esse conhecimento do Pai, e eis a complacência (eudoxia) que o Pai encontra no Filho. Sua intimidade torna-se novamente acessível aos homens. Deus quer tornar feliz. Deus quer felicidade, alegria, louvor, júbilo. Deus se alegra com a alegria do homem Nele: “A vida, é que te conheçam, a Ti, verdadeiro Deus, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo.”(Jo 17,3). 

O louvor e a alegria que lhe é correlata é fruto de uma revelação divina. É consequência do conhecimento da Boa Nova de Jesus revelada aos pobres. Geralmente quem entra- por graça divina- nessa revelação passa a viver de forma diferente, passa a rezar também de forma mais profunda e fervorosa. Sua oração é inundada de gratidão, louvor, adoração, rendição amorosa ao Deus Vivo. Não se preocupa em demasia com posturas puramente exteriores, porque a alegria divina é uma experiência de certa forma incontrolável. 

Quando Jesus entrou em Jerusalém, ‘’a multidão dos discípulos, tomada de alegria, se pôs a louvar a Deus em alta voz pelos milagres que haviam visto. E diziam: Bendito o Rei que vem em Nome do Senhor! Paz no Céu, e glória nos mais altos lugares! Alguns fariseus, no meio do povo, disseram a Jesus: Mestre, repreende teus discípulos! Jesus respondeu-lhes: Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão!” (Lc 19,37-40). A multidão dos discípulos foi tomada de santa alegria espiritual. Mas, infelizmente, houve alguns mais preocupados com o que ‘’pode’’ e o que não ‘’pode’’, não conseguindo ainda se alegrar da própria alegria dos Anaw’in, os pobres do Senhor. 

Outro episódio interessante que relata a exultação espiritual dos discípulos é o relato de Pentecostes. Os discípulos proclamavam as maravilhas de Deus nas diversas línguas daqueles presentes em Jerusalém naquele dia. Estavam tão repletos de santa alegria espiritual, que alguns zombavam dizendo que estavam embriagados (cf. At 2,10-13). O louvor dos apóstolos fez alguns pensarem que se tratava de um grupo de bêbados!

Obviamente não estamos defendendo aqui a ideia de que toda oração comunitária ou litúrgica se torne um alvoroçado palavreado descontrolado (pois não era assim a oração dos discípulos: toda oração ungida pelo Espírito é harmônica, mesmo que possa ser uma manifestação de profunda alegria e até de exultação espiritual). No entanto, corremos o risco de querer controlar a alegria que o próprio Espírito Santo derrama nos corações dos fiéis, enxergando com suspeita o que sempre existiu na história da Igreja: que Deus é capaz de alegrar profundamente os corações dos seus filhos, e que estes, com simplicidade, harmonia e gozo espiritual, se expressam com louvores alegres e espontâneos. Vemos em nosso breve estudo que desde o Antigo Testamento os eleitos de Deus souberam transbordar de alegria espiritual, e que o próprio Jesus foi modelo disso.

2- Alguns exemplos eloquentes

No louvor presente no meio do povo de Deus aparece uma palavra que não é traduzida para as línguas posteriores (grego, aramaico e latim), mas que permanece sendo uma palavra de ‘’outra língua’’ presente nos louvores. Trata-se da palavra Aleluia, que significa ‘’louvai ao Senhor’’. Essa palavra “tornou-se símbolo de aclamações jubilosas, é utilizada em meio a gritos de alegria, presente na liturgia judaica e em seguida passada para a liturgia cristã.” [13]

Vê-se, portanto, que se faz uso de palavras que transcendem as línguas vernáculas para expressar o júbilo. Santo Agostinho explica que ‘’cantar aleluia significa ofertar ao Senhor um sacrifício de louvor’’ [14]. São Gregório Magno sublinha que mesmo ‘’na língua da Bretanha, que só produz rangidos bárbaros, passou a ressoar o aleluia hebraico em meio aos louvores divinos.’’ [15] Existem louvores e experiências de júbilo espiritual que precisam de palavras intraduzíveis para se expressarem convenientemente, bem como de gestos físicos para transbordar a profundidade da experiência do orante.

 Também no sofrimento e na desolação o corpo é chamado a participar na sua expressão oracional. Ao nos mostrar Jesus em agonia no Monte das Oliveiras, o evangelista Marcos quis expressar o mais fielmente possível os gestos realizados por Jesus em sua oração. Há movimentos da alma humana que necessitam da participação de todo o corpo para expressá-los, as palavras sendo insuficientes. O louvor muitas vezes necessita se expressar com gestos corporais, como a dança e as palmas, bem como o sofrimento, angústia e dor interiores podem necessitar da prostração física, do pôr-se de joelhos. Como não pensar nos gestos de Jesus, expressão de sua oração ao Pai durante a agonia de sua alma? Diz o evangelista: “Jesus, dando alguns passos, jogou-se por terra e, rezando, pedia que, se possível, essa hora se afastasse dele. E dizia: Abba, Pai! Tudo te é possível! Afasta de mim esse cálice! No entanto, não o que quero, mas o que Tu queres.” (Mc 14,35-36). Jesus, nosso modelo de oração, não hesitou em jogar-se por terra a fim de rezar ao Pai com todo o seu ser. Mesmo que uma pessoa venha a viver a celebração eucarística refletindo de forma mais profunda na Paixão do Senhor, sem se ater tanto à sua ressurreição, isso não significa rezar sem fazer o corpo participar da oração. 

No entanto, desde as primeiras gerações cristãs a Eucaristia era vivida como atualização litúrgica do Mistério Pascal inteiro, não se centralizando apenas na dimensão sacrificial. Lembremos que a celebração eucarística é celebração da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão do Senhor. O sacerdote reza as santas palavras pronunciadas pelo Senhor na última Ceia, que são seguidas pela aclamação memorial feita pela assembleia, exprimindo em poucas palavras todo o Mistério Pascal de Cristo, como a aclamação seguinte, uma das três propostas pela liturgia romana: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”

Santo Agostinho foi um modelo de oração intensa, que fazia participar todo o seu ser. Dizia: “Quantos gritos eu lançava a Ti nesses salmos, e como eu me incendiava por Ti ao entrar em contato com eles! E eu ardia de desejo de declamá-los, se possível, por toda a terra.” [16] Santo Agostinho não hesitava em falar que havia duas confissões: “Há duas confissões: a confissão dos pecados e a confissão do louvor. Quando tudo vai mal para nós, confessemos nossos pecados na tribulação. Quando tudo vai bem, confessemos a glória de Deus na exaltação de nossa justiça. Mas nunca paremos de confessar.” [17]

No comentário do salmo 148, Santo Agostinho explica:

“Nosso exercício, aqui embaixo, deve ser o louvor de Deus, porque nossa felicidade na eternidade será da mesma forma o louvor a Deus. Ninguém pode chegar a viver o que fará no futuro se não se exercitar desde agora. (…) Nosso louvor é canto de alegria, nossa oração é feita de gemidos. (…) O tempo do jejum precede a ressurreição, o tempo do louvor segue o da ressurreição do Senhor. Esse tempo de louvor anuncia a vida futura que ainda não possuímos. (…) Precisamos louvar o Senhor com todo o nosso ser, não apenas com os lábios e a voz, mas com toda a nossa consciência, com toda a nossa vida, com todas as nossas obras.” [18]

Segundo Marie-Anne Vannier, o cântico novo que cantam aqueles que possuem o coração novo, segundo Santo Agostinho, é sinônimo da nova criação, fruto da experiência pascal, e que transforma de forma tão perfeita aquele que canta que o fiel se torna ele mesmo louvor a Deus. [19]

Santo Agostinho explica, no comentário ao salmo 32, a necessidade do homem de louvar a Deus com gemidos inexprimíveis. Vejamos:

“Vejam com efeito aqueles que cantam durante as colheitas, nos campos, ou em qualquer outro trabalho que lhes absorva; apenas começaram a expressar sua alegria através das palavras das músicas, que sob a influência de uma alegria abundante demais para se traduzir em palavras, deixam de lado as palavras articuladas e se põem a dar gritos de júbilo. E o júbilo vem do coração que deixa escapar aquilo que a boca não pode mais expressar. Ora, e o que é objeto de júbilo maior do que o Deus inefável? O Ser inefável Daquele que não pode ser definido com palavras; então, se tu não podes dizer com palavras nem também se calar, o que resta a fazer senão jubilar, de forma que a alegria do coração transborde os estreitos limites das palavras?” [20]

São Francisco de Assis também foi um exemplo de louvor e exultação diante do Altíssimo. Na carta que o santo escreveu para todos os cristãos, ele aconselha:

“Toda criatura que está no céu e na terra e no mar e nas profundezas dos abismos renda a Deus louvor, glória e bênção, porque Ele é nossa virtude e força. (…) É o Único digno de louvor, bendito pelos séculos infinitos!” [21]

O Cardeal Cantalamessa explica que ‘’a oração de Francisco é mais uma resposta [a Deus] do que uma invocação ou pedido: é agradecimento, louvor, admiração, júbilo, enlevo do coração e da mente. É oração que nasce da fé no mistério cristão do Deus feito homem. É ‘’eucaristia’’, no sentido originário da berakah judaica.” [22]

O louvor e o júbilo de São Francisco não eram desencarnados. Francisco compôs o famoso cântico das criaturas em meio a atrozes sofrimentos e praticamente cego. Em São Francisco, portanto, coabitavam o Tabor e o Calvário, a Cruz e a Ressurreição. O Cardeal Cantalamessa nos ensina:

“Uma noite em que Francisco chegara ao extremo das forças, dirigiu-se ao Senhor, que o reconfortou fazendo-o ver qual seria a recompensa dos seus sofrimentos e dando-lhe a certeza de sua salvação eterna. Reconciliado com seu padecimento, num ímpeto de alegria espiritual, o Pobrezinho disse aos irmãos que o assistiam [que queria compor um novo louvor ao Senhor por suas criaturas].” [23]

O santo da perfeita alegria era o santo de intensas e duras provas:

“Francisco entrou no coração de Deus; assumiu a paixão de Deus, e causa de Deus, e por isso, por toda a vida, não pôde fazer outra coisa além de chorar. Francisco é o homem das lágrimas! Não dos sorrisos fáceis. (…) O Francisco da perfeita alegria, o arauto de Deus, que fala com o lobo, que canta embevecido a beleza das criaturas, (…) é o Francisco que chorou a vida inteira. Ficou cego- todas as fontes o atestam- de tanto chorar. (…) Um dos primeiros retratos do santo, que se conservava em Greccio e se perdeu em um incêndio, mas do qual nos restou uma cópia, nos mostra Francisco que leva um lenço aos olhos para enxugar as lágrimas: um sinal de que assim era lembrado por seus contemporâneos.” [24]

Lágrimas e júbilos, silêncio intenso e demorado e louvor com cânticos festivos, adoração silenciosa e danças alegres: assim é feita a oração dos santos. Porque os santos são seres humanos, e o homem vai a Deus com tudo o que é, corpo, alma e faculdades.

Santa Teresa de Jesus de Ávila, mestra na vida de oração, ‘’não simpatizava com as devoções bobas e os santos encapotados, soturnos, como não aprovava as orações estrujadas, isto é, espremidas até o esgotamento. O seu riso era tão contagioso que, quando começava a rir, todo o convento ria com ela.’’ [25]

A mesma biógrafa relata:

“Nos recreios, chegava a inflamar-se de um ardor impetuoso e, incapaz de resistir ao impulso do Espírito, se punha a dançar, volteando e batendo palmas, como Davi dançava diante da Arca da Aliança (…). Ao vê-la, todas a acompanhavam, num arroubo de gozo espiritual. Quando, anos mais tarde, Ana de Jesus, acompanhada de Ana de São Bartolomeu, foi à França fundar os primeiros conventos, as freiras francesas ficaram pasmadas vendo essa venerável Madre, mais semelhante a um serafim do que a uma criatura mortal, ensaiar uns passos de dança no coro, cantando e batendo palmas à maneira espanhola, mas com tanta majestade, graça e galhardia, que inspirava respeito e a alma se sentia comovida e elevada a Deus. Tinha-o aprendo de Teresa de Jesus.” [26]

3- Reflexões do Magistério

Sem querer ser exaustivo em nosso artigo, lembramos alguns breves textos do Magistério recente e pós-conciliar da Igreja. A constituição conciliar Sacrossanctum Concilium do Concílio Vaticano II afirma que:

“Para assegurar esta eficácia plena [da ação litúrgica], é necessário, porém, que os fiéis celebrem a Liturgia com retidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão. Por conseguinte, devem os pastores de almas vigiar porque não só se observem, na ação litúrgica, as leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela consciente, ativa e frutuosamente. [27]

A Sacrossanctum concilium afirma ainda que “para fomentar a participação ativa, promovam-se as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes corporais.” [28]

A congregação para o culto divino na quarta instrução para a aplicação correta do documento conciliar sobre a liturgia afirma o seguinte:

“Em certos povos, o canto é instintivamente acompanhado do bater de mãos, de movimentos ritmados e de passos de dança dos participantes. Tais formas de expressão corporal podem ter lugar na ação litúrgica desses povos, na condição de serem sempre expressão de uma verdadeira e comum oração de adoração, de louvor, de oferta ou de súplica e não mero espetáculo.” [29]

Lembramos que o bater das mãos não é um objetivo em si: não basta bater as mãos, é preciso cantar. As palmas nas músicas estão a serviço do ritmo e de uma música que ajude a rezar melhor. Deve-se ter cuidado para não bater palmas de forma tão forte que não se escute as vozes dos participantes. As danças não são profanas ou sensuais, mas a justa participação do corpo que ajuda a elevar a alma a Deus em uma oração mais profunda.

Conclusão

“Alegrai-vos sempre no Senhor, repito: alegrai-vos! Que vossa doçura seja conhecida por todos os homens. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com nada; mas em todas as coisas fazei conhecer vossas necessidades a Deus com orações e súplicas, juntamente com ações de graças. E a paz de Deus, que ultrapassa toda inteligência, guardará vossos corações e vossos pensamentos em Jesus Cristo.” (Fl 4,4-7)

Quando São Paulo escreveu a carta acima citada aos filipenses, ele estava preso em Roma. Não estava em uma situação humanamente cômoda, seu futuro estava incerto, mas a carta é permeada pelo convite à alegria. O louvor cristão não é fruto de uma vida fácil e cômoda. É fruto de uma fé enraizada no próprio Deus, que faz com que dancemos de alegria no meio da fornalha ardente das provações (cf. Dn 3). O louvor, a alegria expressa nos cânticos animados, as palmas, as danças estão profundamente enraizados na tradição judaico-cristã. Que haja pessoas que não se identifiquem com essa forma de rezar, é compreensível e devemos respeitá-las. Mas não devemos renegar tal patrimônio espiritual que o próprio Espírito Santo reacende de forma mais intensa na história da Igreja em momentos privilegiados de renovação no seio do povo de Deus. 

O Anjo Gabriel, ao saudar Nossa Senhora, deixou claro o motivo da alegria e da felicidade da Virgem: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”(Lc 1,28). Saber que o Senhor está sempre conosco e que nos assiste com Sua graça, deve nos fazer explodir de alegria e nos conduzir a passar o resto de nossa vida cantando e celebrando que o Senhor pousou seu olhar sobre a pobreza [de seus servos]. Por isso, todas as gerações hão de nos chamar benditos, porque o Todo-Poderoso fez por nós maravilhas e seu Nome é Santo!”(cf. Lc 1,48-49). Aleluia!

 

Daniel Ramos de Castro
Missionário da Comunidade Católica Shalom
Formado em Teologia e Ciências Religiosas pela Domuni Universitas-França

Aquiraz, 14 de dezembro de 2025
Terceiro domingo do Advento, domingo Gaudete (da alegria) 

 

 

Referências:
1. NIETSCHE, Friedrich Wilhelm, Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, Companhia das Letras, São Paulo, 2011, p.41
2. Espécie de Pandeiro
3. RATZINGER, Joseph, Jesus de Nazaré, a Infância, Ed. Planeta, São Paulo, 2024, p.30
4. Id
5. Conhecidos como Hallel por conterem repetidos chamados ao louvor (em hebraico halleluyah)
6. « Após terem cantados os cânticos, se renderam ao Monte das Oliveiras” (Mt 26,30)
7. BOUYER, Louis, L’Eucharistie, Ed. Cerf, Paris, 1966, p.36
8. Ex-nihilo : Do nada
9. BOUYER, Louis, L’Eucharistie, Ed. Cerf, Paris, 1966, p.21
10. Id, p.89
11. Id, p.96-97
12. Id, p.97-98
13. Régis, COURTRAY, « Alleluia, un mot pour louer Dieu », Revista Connaissance des Pères de l’Église, n.136,(2014) Ed Nouvelle Cité, p.2
14. S. AGOSTINHO, Enarratio in Psalmun 115,2
15. S. GREGÓRIO MAGNO, Moralia in Iob XXVII,XI,21
16. S. AGOSTINHO, citado por Marie-Anne VANNIER, in ‘’La louange dans l’œuvre d’Augustin’’, Revista Connaissance des Pères de l’Église,n.136,(2014) Ed Nouvelle Cité, p.36
17. S. AGOSTINHO, Commentaire du psaume 29,2,19 citado por Marie-Anne VANNIER, in ‘’La louange dans l’œuvre d’Augustin’’, Revista Connaissance des Pères de l’Église, n.136,(2014) Ed Nouvelle Cité, p.37
18. S. AGOSTINHO, Commentaire du psaume 148, citado por Marie-Anne VANNIER, in ‘’La louange dans l’œuvre d’Augustin’’, Revista Connaissance des Pères de l’Église, n.136,(2014) Ed Nouvelle Cité, p.39
19. Cf. Marie-Anne VANNIER, in ‘’La louange dans l’œuvre d’Augustin’’, Revista Connaissance des Pères de l’Église, n.136,(2014) Ed Nouvelle Cité, p.40
20. S. AGOSTINHO, Commentaire des psaumes, citado por Giuseppe BENTIVEGNA, Baptême dans l’Esprit et les dons spirituels selon Saint Augustin, Ed. Béatitudes, 2020, p.50
21. SÃO FRANCISCO DE ASSIS, Fontes Franciscanas 202, citado por CANTALAMESSA, Raniero, Francisco de Assis, o gênio religioso e o santo, Ed. Loyola, São Paulo, 2023, p.59
22. CANTALAMESSA, Raniero, Francisco de Assis, o gênio religioso e o santo, Ed. Loyola, São Paulo, 2023, p.60
23. Id, p.99
24. Id, p.48
25. AUCLAIR, Marcelle, Teresa de Ávila, uma biografia, Ed. Quadrante, São Paulo, 2021, p.215
26.  Id, p.216-217
27. VATICANO II, Constiuição Sacrossanctum Concilium, n.11
28. Id, n.30
29. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO « VARIETATES LEGITIMAE » A LITURGIA ROMANA E A INCULTURAÇÃO, QUARTA INSTRUÇÃO PARA UMA CORRETA APLICAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO CONCILIAR SOBRE A LITURGIA 25 de Janeiro de 1994


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