Quando falamos da presença de Jesus na Eucaristia ficamos pensando como isso é possível. Como pode Jesus estar presente em um pedaço de pão? Ou como podemos ainda dizer que é o Corpo de Nosso Senhor, se o que vemos é um pedaço de pão, com gosto de pão e formato de pão? Parece ser algo muito contraditório ou até mesmo complicado de se entender, porque o que vemos não é aquilo que nos falam os sentidos. Contudo, a questão sobre a presença de Jesus na Eucaristia não se fundamenta na aparência ou matéria do pão, mas na substância, naquilo que está invisível mas presente.
Para entendermos isso é necessário recorremos à filosofia de Aristóteles quando fala sobre substância e acidente. A substância é aquilo que está na profundidade do ser, ou seja, é a sua essência. É aquilo que faz com que o ser seja o que ele é. Um exemplo: sabemos o que é um relógio porque ele tem a função ou o objetivo de marcar a hora. A substância é o sujeito, é aquilo do que se fala, do que se atribui.
Qual seria o acidente?
O acidente é aquilo que está aparente, é a forma, é a matéria, é a realidade que se vê. As formas, tamanhos, estilos e cores que um relógio possa ter, é o que chamamos de acidente. Contudo, muito embora o acidente indique a substância ou faça parte dela, não é algo que atrapalha a existência da substância. Por exemplo, se um relógio não tem ponteiro, isso não quer dizer que ele não seja um relógio, ele é só um relógio sem ponteiro. Caso ele não esteja funcionando, isso não quer dizer que não seja um relógio, só é um relógio que não está funcionando. Ou seja, o acidente, aquilo que eu vejo, não atrapalha a substância, aquilo que é constitutivo do ser. Em outras palavras, o acidente muda, a substância não.
A partir dessa compreensão podemos entender que quando olhamos para a hóstia consagrada, ou seja, a Eucaristia, o que vemos é apenas o acidente, ou seja, a aparência, a matéria, aquilo que é empírico e sensível aos sentidos humanos. Acontece que quando o sacerdote profere as palavras de Nosso Senhor sobre as espécies do pão e do vinho, a substância deles mudam-se em Corpo e Sangue de Cristo. É o que chamamos na teologia de transubstanciação, ou seja, a substância do pão e do vinho, por um ato sobrenatural, se transformam na substância do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Pegando o exemplo do relógio, é como se ele fosse “utilizado” não mais para marcar as horas, mas para abrir a porta de uma casa. Ou seja, não é mais um relógio, mas uma chave. A sua aparência não mudou, apenas a sua substância, a sua “utilidade” mudou de objetivo.
A presença do Pai é real
Com efeito, quando falamos da Eucaristia, a “utilidade” do pão não se perde, assim como a do vinho também não, até porque o pão continuará saciando a fome física, assim como o vinho, tomado em excesso, poderá levar a embriaguês. Mas o que muda neles é a substância, é aquilo que está no íntimo, na profundidade do ser.
Por isso, a presença de Nosso Senhor Jesus na Eucaristia é uma presença substancial e não acidental. Não acreditamos na presença de Jesus na Eucaristia porque mudou a aparência das espécies do pão e do vinho, muito embora ao longo da história da Igreja houveram vários milagres eucarísticos em que a matéria mudou de forma. Acreditamos, pois, que Jesus está presente na Eucaristia porque o ser do pão e do vinho transforma-se no Corpo e no Sangue d’Ele.
A Sua palavra proferida pelo sacerdote no momento da consagração atestam essa verdade: “Pegou o pão em suas mãos e disse: este é o meu Corpo… depois pegou o cálice com o vinho e disse: este é o meu Sangue…” (cf. Mt 26-28). As palavras de Jesus não somente dão credibilidade à Fé da Igreja, como também dão suporte para que a Santa Missa seja sempre celebrada. O Senhor disse ainda: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19).
A graça que modifica a matéria
Esta mesma ideia de transubstanciação, também pode ser empregada nos demais sacramentos. Quando alguém é batizado, a aparência do fiel não muda, mas interiormente a alma ganha o toque da graça de Deus, e passa a fazer parte da natureza divina pela filiação dada em Cristo.
No sacramento da Confissão, a aparência física do penitente não muda, mas a sua substância, ou seja, a sua alma, é tocada pela graça de Deus que lhe perdoa os pecados cometidos. Assim, nos demais sacramentos a ação sobrenatural de Deus acontece ao seu modo e segundo aquilo que lhe é próprio.
Na Eucaristia, a presença de Deus acontece de forma mais extraordinária porque o Senhor continua presente até que as espécies eucarísticas subsistam (cf. CIC 1377). Vale ressaltar, que mesmo que a hóstia consagrada venha a ser dívida, Cristo continuará presente de igual modo em todas as partes. Ou seja, em cada pedaço Jesus está presente com toda a sua divindade, majestade e força, porque o acidente não influencia, neste caso, na substância.Em qualquer pedaço que recebemos na comunhão, é Jesus dado por inteiro para nós, e fará o mesmo efeito que qualquer outro pedaço que eu receber.
Esta presença não pode ser afirmada se não pela via da fé. É por meio dela que o cristão chega a Cristo e alcança a salvação. A Eucaristia é o maior bem da Igreja, pois é ela o próprio Cristo que se dá a nós e nos alimenta rumo à terra prometida.
Por Pe. Marcos da Cruz
Discípulo da Comunidade de Aliança

