Parresia

A sexualidade nas Sagradas Escrituras

A confirmar a “hierarquia criadora”, vemos nas Sagradas Escrituras que o homem e a mulher são o único ato da criação que recebe complemento.

Foto | Unsplash

Quando lemos os relatos da criação, no livro do Gênesis – à luz de toda a Sagrada Escritura –, nos deparamos com uma verdade fundamental: Deus quis o homem, o criou por amor e dentro de um propósito de amor. Intimamente ligado à esta verdade está o fato do homem ter sido criado sexuado; compreender esta realidade humana é fundamental para compreender o próprio desígnio divino. Desejamos neste breve artigo introduzir o tema da sexualidade e a sua importância teológica.

A criação do homem da mulher em Gênesis

Sabemos que os dois primeiros capítulos do Gênesis tratam, com duas tradições diferentes – uma tradição mais recente presente em Gn 1,1-2,4, e uma mais antiga, retratada em Gn 2,4-25[1] –, da criação do homem. Uma análise atenta ao processo criador de Gn 1 nos faz perceber que Deus constrói, passo a passo, um ambiente no qual o homem possa habitar: primeiramente há um processo de separação[2]; em seguida, a criação dos seres, que vai como que em um caminho progressivo, do inanimado (luzeiros do céu vv. 14-19) àqueles dotados de uma animação sempre mais marcada – vegetais, animais –, culminando na criação do homem[3].

A confirmar esta “hierarquia criadora”, vemos que em Gn 1,26 o homem e a mulher são o único ato da criação que recebe o complemento: «à imagem e segundo a semelhança de Deus»[4]. O fato de ser imagem, indica que pode entrar em diálogo com Deus, e que não pode subsistir independentemente daquele a quem deve exprimir. Em outras palavras, por ser imagem, o homem deve «voltar-se para aquele cujos traços reflete»[5]. Um grande biblista Italiano, Gianfranco Ravasi, faz um comentário que sintetiza o binômio “imagem-semelhança”, trazendo luz para uma melhor compreensão de quem são o homem e a mulher aos olhos divinos. Assim afirma:

«Em hebraico o primeiro termo alude à uma estátua e sublinha a profunda conexão com o objeto representado; o segundo, por sua vez, exclui a identidade total. O homem é como Deus, mas não é Deus. Por conseguinte, a via privilegiada para conhecer a Deus é o homem; é a sua representação mais semelhante»[6].

Como forma de enfatizar ainda mais a particularidade do homem e da mulher no âmbito da criação, o v. 26 conclui dizendo: «que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra». Ou seja, todo o criado foi destinado a ser submetido àqueles nos quais foi impressa, de modo particular, a imagem divina. Poderíamos dizer que é exatamente por graça da imagem divina, e por conseguinte, de sua vocação particular, que tudo lhe foi submetido.

No no v. 27, encontramos um elemento fundamental para a nossa temática, o texto diz: «Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou». O termo imagem comparece por duas vezes neste versículo e, segundo as tecnicas de composição literária semítica, tal termo forma um paralelismo com os termos homem e mulher[7]. O que isto significa?

A técnica do paralelismo, na literatura do Antigo Oriente, vem evidenciar a profunda relação dos termos que são colocados em paralelo; deste modo, o v. 27 vem evidenciar que a imagem de Deus na criação está impressa na criação do homem e da mulher, enquanto distintos e complementares. A criação do homem e da mulher, singular diante de todo o criado e, ao mesmo tempo, diferente e complementar em si, traz, neste mesmo ato criador, a imagem do divino. Isto significa que sem a diferença entre masculino e feminino na criação, a imagem divina no humano não estaria adequadamente manifestada.

 Como que para coroar a ação criadora realizada neste sexto dia, o Senhor não somente repete a sua admiração como antes – dizendo: é bom –, mas desta vez diz que «é muito bom» (Gn 1,31). O termo hebraico aqui subjacente – comumente traduzido por bom – é tôb, que indica não somente algo bom, mas também belo, nobre[8]… sendo assim, a partir da contemplação divina da criação, realizada ao final do sexto dia, compreendemos que a criação do homem e da mulher dá beleza, nobreza e mesmo bondade à toda obra criadora. Dizendo «é muito bom!», o próprio Deus expressa a sua alegria, presente no ato criador, pois Deus se encontra, de certo modo, refletido em sua criação, particularmente no homem e mulher.

No segundo capítulo do Gênesis temos o segundo relato da criação; para a nossa temática é particularmente interessante analisar o enquadramento da criação da mulher, que se dá nos vv. 21-22. Primeiramente percebemos que o homem busca alguém que lhe corresponda, mas não encontra este “alguém” dentro das obras que o Senhor havia feito (cf. Gn 2,20).

A “solidão” provada pelo primeiro homem, faz eco – como que para confirmá-la – às palavras pronunciadas pelo próprio Deus: «não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda» (Gn 2,18); mais uma vez, é o texto hebraico que pode nos ajudar a compreender a fineza contida nestas palavras. Em Gn 2,18, pela primeira vez se rompe a sequência do hino divino “é bom” para o “não é bom” (lōʼtôb) decretado pelo próprio Deus, referindo-se a solidão do homem.

Ele não foi criado para estar só, mas sim para se doar e receber o dom do outro. É neste contexto que Deus decide fazer o primeiro homem dormir. O seu sono será como o de tantos personagens bíblicos, uma manifestação divina. Deus presenteia o homem por meio de alguém à quem possa se entregar e receber; em outras palavras, que realmente lhe corresponda, eis o motivo de sua exultação: «23esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!» (Gn 2,23).

Vale ressaltar que estas são as primeiras palavras do homem em toda a Sagrada Escritura; um louvor pelo criado, um reconhecimento da grandeza do Criador. Em ambas narrações da criação – Gn 1 e 2 – encontramos o componente da alegria, como fruto da criação (Gn 1,31) ou do encontro (Gn 2,23) entre o homem e a mulher.

Poderíamos nos perguntar: por que Deus se alegra com a criação do homem e da mulher? Ou melhor, por que os criou como homem e mulher?

A primeira resposta, sem dúvida, pode ser dada a partir do campo biológico, isto é: para que eles, por meio da diferença e complementariedade, prosseguissem com a ação divino-criadora, sendo colaboradores do projeto divino, segundo Gn 1,28 : «Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra».

Todavia, erraríamos se reduzíssemos a diferença sexual somente ao simples elemento procriador. Como vimos, homem e mulher correspondem à imagem divina, que o próprio criador quis imprimir em sua criação. Mais ainda; ao serem co-criadores, o homem e a mulher transmitem a própria imagem divina aos seus descendentes, como expressa Gn 5,1-3:

«…no dia em que Deus criou Adão, ele o fez à semelhança de Deus. 2Homem e mulher ele os criou, abençoou-os e lhes deu o nome de “Homem”, no dia em que foram criados. 3Quando Adão completou cento e trinta anos, gerou um filho à sua semelhança, como sua imagem, e lhe deu o nome de Set».

Masculino e feminino como condição e símbolo esponsal

Superando a dimensão estreitamente biológica, encontramos na Sagrada Escritura o masculino e feminino como linguagem utilizada pelo próprio Deus para expressar a sua relação com o seu povo: «Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. […] Naquele dia – diz o Senhor – tu me chamarás: Meu marido…» (Os 2,16.18).

Tal linguagem e simbolismo atingem o seu ápce veterotestamentário no livro do Cântico dos Canticos, onde se destaca claramente o amor humano, com todos os seu atributos, como chama de Yhwh (cf. Ct 8,6). Isto significa que no amor humano de esposo e esposa, desejado por Deus e por Ele purificado, encontra-se uma chama do próprio amor divino, um sinal de sua presença nesta terra.

Tal simbolismo, linguagem e significado encontram a sua máxima expressão na relação entre Cristo e a Igreja, como Esposo e esposa:

«24Como a Igreja está sujeita a Cristo, estejam as mulheres em tudo sujeitas aos seus maridos. 25E vós, maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, 26a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra, 27para apresentar a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. 28Assim também os maridos devem amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos» (Ef 5,24-28).

A relação esponsal será também uma marca fundamental da revelação neotestamentário, ao ponto que o livro do Apocalipse se concluirá com o encontro entre a nova Jerusalém (esposa) e Deus, seu Esposo. Todos estes elementos, ainda que na brevidade do artigo, nos fazem compreender que masculino e feminino não são um acessório da criação, mas demonstram o seu significado mais profundo que é dimensão de relação esponsal; por isso, a sexualidade está no centro do desígnio divino, tendo forte relevância tanto no campo bio-psíquico-espiritual, como também – evidentemente – no teológico.

Assim, masculino e feminino são expressão do divino e revelam o seu próprio modo de agir, enquanto Ele se entregou por nós inteiramente e, em Jesus Cristo, humanamente, dando-nos o seu próprio corpo e o seu próprio sangue; na encarnação do Verbo, Deus assumiu a sexualidade humana e, com a Virgem Maria, nos ensinou a sublime dignidade ao qual homem e mulher foram elevados dentro do mistério divino.

Podemos concluir, citando Gianfranco Ravasi: «a humanidade é a imagem de Deus na medida em que é “masculina e feminina”; a verdadeira efígie divina, a imagem viva de Deus na terra, é a pessoa humana na sua plenitude masculina e feminina, na sua fecundidade, na sua posse e na sua doação de vida»[9].

Quem melhor do que os santos viram em si a realização e o significado da própria sexualidade? Por isso, na relação Cristo-Igreja, Cristo-Maria, Maria-José… compreendemos a profunda sabedoria divina ao nos criar diferentes e complementares. Com os olhos fixos em Cristo e na Virgem Maria, supliquemos a graça de vermos restituídas em nós esta imagem e semelhança, para a nossa salvação e da humanidade sedente de Deus, sedenta da Verdade!

[1] Tradição Sacerdotal e Javista; para o estudo e aprofundamento destas tradições ver: F. García López, O Pentateuco, Editora Ave-Maria, São Paulo 2006.

[2] Termo bem característico da teologia sacerdotal.

[3] Poderíamos resumir este processo criador, segundo os dias da criação, da seguinte forma: 1° dia: a luz é separada das trevas (vv. 3-5); 2° dia: as águas superiores são separadas das águas inferiores (vv. 6-8); 3° dia: o mar separado da terra seca (vv.9-10); a vegetação aparece sobre a terra (vv. 11-13); 4° dia: são criados os luzeiros no céu (vv. 14-19); 5° dia: são criados os animais nas águas e no céu (vv. 20-23); 6° dia: são criados os animais terrestres (vv. 24-25); o homem é criado (vv. 26-31). Cf. P. Grelot, Homem quem és?, Editora Paulinas, São Paulo 1980, 42.

[4] Gn 1,26: «Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”».

[5] P. Grelot, Homem quem és?, 43.

[6] G. Ravasi,  El libro del Génesis (1-11), Editorial Herder, Barcelona 1992, 50.

[7] Cf. Ravasi,  El libro del Génesis (1-11), 52.

[8] Cf. L. Alonso Schökel, «טוֹב», in Dizionario di ebraico biblico, San Paolo, Cinisello Balsamo 2013, 311.

[9] Ravasi,  El libro del Génesis (1-11), 53.

Elton Alves


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