Outro dia me deparei com uma pesquisa sobre o mundo do trabalho e a geração Z. Eu já sabia que muito se fala sobre os anseios desse grupo, mas aprendi um termo novo: “office frogging” — esse pular de cargo em cargo, buscando aquilo que se imagina ser realização.
Na hora pensei nos meus pais, que passaram cerca de 20 a 25 anos no mesmo emprego e lá se aposentaram. Pensei também em mim, que estou na mesma profissão há mais de duas décadas, com algumas incursões pela vida missionária e outras atividades ligadas à vocação.
Não consigo enxergar “quem está errado”. Aliás, talvez a própria pergunta seja o erro: uma geração querer julgar a outra com base nos próprios valores e circunstâncias. Ainda assim, há algo que atravessa o tempo: o caráter humano do trabalho — aquilo que nos vincula a um sentido, a um mundo comum, para além das modas.
As formas de enxergar o trabalho mudam porque a perspectiva humana muda, apesar de o coração humano permanecer o mesmo. Já fomos chamados de homo faber e animal laborans. Hannah Arendt contrasta esses dois: o homo faber (o que fabrica) cria um mundo de objetos duráveis, que oferece estabilidade e herança comum; o animal laborans (o que labora) está preso ao ciclo biológico do trabalho e do consumo, correndo o risco de perder a permanência do mundo construído.
Logo depois li uma reportagem que ajudou a conectar os pontos: a geração atual trocou a compra de itens de luxo por momentos. Mudou o objetivo. Antes, o “homo habens”, o homem do ter, buscava um lar duradouro: financiava a casa própria por 30 anos, comprava um terreno, um plano funerário, eletrodomésticos e utensílios do lar que “temos desde que casamos” – sinais de permanência. Depois, o animal laborans passou a encontrar sentido em objetos de luxo, ainda que passageiros — que serviam também como sinais de status num mundo orientado ao consumo e à aparência.
Agora, parece emergir o “homo experientis”: o homem das experiências. Em vez de acumular coisas, acumula vivências — de preferência documentadas nas redes sociais – ainda remanesce a necessidade de aparecer. Às vezes, porém, esse impulso que já aparenta um pouco estranho, desvirtua ainda mais: outro dia me assustei com a cena de uma pessoa que, ao tentar registrar uma selfie numa trilha de montanha nevada, se desequilibrou e perdeu a vida, assim: em uma cena simples, patética, escorregando apaticamente para o abismo da morte por conta de uma foto. É um choque que nos obriga a perguntar: qual é o limite entre buscar experiências e colocar tudo em risco por mais um registro?
No fim, talvez realização não seja um destino fixo, mas um modo de estar no mundo — com trabalho que faça sentido, bens que não nos possuam e experiências que não nos custem o essencial: a própria vida e o nosso comum. Talvez o trabalho seja mais uma forma de relação com as coisas criadas e com as pessoas, uma forma de servir e amar.
Por Danielle Osorio – Missionária da Comunidade Aliança Shalom
LEIA TAMBÉM | Como equilibrar a vida entre trabalho, família e lazer?

