Vivemos na era da produtividade. Tudo gira em torno de metas, prazos e entregas. Fala-se em economizar: economizar dinheiro, energia, recursos… mas, sobretudo, tempo. E é justamente o tempo — esse bem tão precioso e escasso — que tentamos controlar, dividir, agendar, encaixar em rotinas saturadas de compromissos.
No entanto, à medida que as exigências crescem, uma área silenciosamente vai ficando em segundo plano: a vida de oração. Não por maldade ou negligência deliberada, mas porque parece, à primeira vista, menos urgente. Dizemos: “Depois eu rezo”, “Hoje não deu tempo”, “Vou passar rapidinho na capela”. E assim, sem perceber, economizamos tempo justamente com Aquele que mais nos ama.
A pressa que nos cega
Jesus está ali, silencioso, presente, esperando por nós. Mas nossos olhos estão voltados para fora. Envoltos em telas, notificações, tarefas e preocupações, deixamos de olhar para o essencial. Corremos o dia inteiro acreditando que parar é perda de tempo, que descansar é sinônimo de preguiça, que estar com Deus é um luxo reservado a momentos extraordinários. Mas… e quando foi a última vez que paramos para estar com Ele?
Depois, surgem as queixas comuns:
“Deus não me escuta.”
“Ele não me atende.”
“Parece que não se importa comigo.”
Mas será que realmente O escutamos, O deixamos falar? Que dedicamos a Ele um tempo de silêncio, sem listas de pedidos, sem metas espirituais, apenas para estar?
O lugar da escuta
A resposta para muitas das nossas dores está neste lugar: o silêncio, a escuta, a intimidade. É ali, no interior da alma, que Deus fala com profundidade. Santa Teresa de Ávila chamava esse lugar de “castelo interior” — a morada onde habita o Rei. Mas só entra nesse castelo quem decide parar, quem desliga o ruído e se deixa conduzir para dentro.
É preciso sair das distrações. Sair das ilusões que nos fazem acreditar que só tem valor aquilo que se pode contar, medir, postar. O mundo grita: “Realize!” O Evangelho sussurra: “Permanece.” O mundo exige resultados. Jesus pede relacionamento.
São Paulo nos exorta a abandonar o tumulto e revestir-nos de Cristo: “Não em comilanças e bebedeiras, não em leitos e devassidões, mas revesti-vos de Cristo Jesus…” (Rm 13,13-14)
Estar com Deus é permitir que Ele nos revista. É deixá-Lo nos formar por dentro, nos curar, nos ordenar.
O essencial não se economiza
Vivemos tentando economizar tempo. E, muitas vezes, economizamos no lugar errado. Cortamos o que é sagrado para atender ao que é passageiro. Trocamos o eterno pelo urgente. E, no fim, nos sentimos exaustos, vazios, desconectados. É hora de inverter essa lógica. É hora de voltar ao essencial.
Santo Agostinho expressou com beleza essa redescoberta de Deus:
“Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora!
[…] Tu me chamaste, e teu grito rompeu minha surdez.
Fulguraste e brilhaste, e tua luz afugentou minha cegueira.
Tu me tocaste, e agora ardo no desejo de tua paz.”
Esse desejo de paz só é saciado na presença de Deus. É ali que tudo encontra sentido. Não é a produtividade que preenche o coração, é a presença, amor e escuta.
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Um tempo que redime
Talvez, ao final do dia, não tenhamos feito tudo o que a agenda pedia. Mas se estivermos com Deus, se O colocamos em primeiro lugar, então fizemos o essencial. E o essencial não é mensurável, mas é eterno. É isso que nos permite viver o maior de todos os mandamentos: “Shema Israel, Adonai Elohim, Adonai Ehad.” Escuta, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor! (Dt 6,4)
Escutar é o primeiro passo. Escutar com o coração, com disponibilidade, com fé. Porque do ouvir nasce a fé, e da fé nasce a confiança.
Não economize tempo com Deus. Ele não te cobra. Ele te espera. Mesmo quando estás distante, mesmo quando já não sabes como voltar, Ele está ali. Fiel. Constante. Amando-te com amor eterno. E o tempo com Ele nunca é tempo perdido. É tempo redimido! Que cura, que transforma, que fecunda. É tempo de estar e simplesmente amar.
Noor Gonzalez
Consagrada da Comunidade Shalom, Comunidade vida – Missão Fortaleza
