Se perguntássemos a nós, cristãos, e até aos não cristãos qual o primeiro mandamento da lei de Deus, escutaríamos, acertadamente, em grande massa, quase em uníssono: “Amar a Deus sobre todas as coisas”. Verdade essa que muitos aprenderam ainda crianças, em suas catequeses, quando descobriram os fundamentos basilares da nossa fé, entre eles os mandamentos. Assim, guardamo-lo e trazemos essa viva lembrança em nossa memória que, com o tempo, pode ter sido despertada por uma experiência que deixou a fé mais proeminente e vivida de uma maneira mais intencional.
Partindo disso, caminhamos numa busca sincera, com lutas e constantes esforços para corresponder a tal pedido: ‘amar a Deus sobre todas as coisas’. É o eco que escutamos, aquela voz que grita na consciência em viver uma vida reta, segundo Deus, em um contexto social muito prático, que se esmera no fazer e realizar. Empreendemos em algo que possa sintetizar, “arregaçamos as mangas”, para que nossa vida seja uma expressão em que Deus seja colocado sobre todas as coisas. Justo! Concentramos todas as nossas forças e, assim, caminhamos de um lado para outro, nem sempre encontrando o resultado que tanto esperamos, de um amor que talvez nem possuíssemos. Como amar, então, esse Deus sobre todas as coisas?
Aqui vem à memória a primeira carta de São João: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro”(1 Jo 4,19). Também São Paulo: “Eis aqui uma prova brilhante do amor de Deus” (Rm 5, 8). Amamos porque o amor veio Dele, seremos capazes de amar e de amar também a Deus porque Ele antes deu a nós o seu Amor. A iniciativa é sempre divina. Talvez aqui esteja o grande segredo da nossa caminhada de fé: viver da primazia da graça divina, de sua ação que, citando o papa Francisco, “permearia” em nossas vidas, Ele “que realiza em nós o querer e o executar” (Fl 2,13).
Quanto mais fácil seria se amar fosse apenas uma resposta de outro amor, um reconhecimento, uma gratidão a tanto amor recebido! Como ficar indiferente a alguém que é sumamente amável e o dispensa mesmo quando não se é merecido? São Francisco, nosso amigo do céu, dizia: “o Amor não é amado”. Quem é esse amor senão Aquele que se deu pelo nosso seráfico santo e também por todos nós? Essa frase sintetiza o desejo sincero e um reconhecimento de uma não correspondência de amor. Mas antes de tudo é uma afirmação de quem é nosso Deus, “Deus é Amor” (1 Jo 4, 8).
Necessário, antes, é dilatar o coração para deixar-se ser amado. Permitir-se a gratuidade de um amor que é bem maior que todos, pois, afinal, ele mesmo é a própria fonte de todos os outros. Assim, deixar que essa fonte flua em nós, transborde e volte à sua origem, amor recebido que se torna assim amor doado.
Diago Alves
Consagrado da Comunidade de Aliança
