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A verdadeira misericórdia para com os pobres

comshalom

vidaevoz_img_pedinteA preocupação com a justiça é um elemento muito importante para que a pobreza do consagrado o faça pobre para todos e pobre com os pobres. A ossadura da caridade é a justiça. Já o Concílio Vaticano II afirmou que “a finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do homem; do homem integral, isto é, tendo em conta a ordem das suas necessidades materiais e as exigências da sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa; de qualquer homem ou grupo de homens, de qualquer raça ou região do mundo. A atividade econômica, regulando-se pelas leis e métodos próprios, deve, portanto, exercer-se dentro dos limites da ordem moral para que assim se cumpra o desígnio de Deus sobre o homem” .

É preciso que se compreenda cada vez mais e melhor a realidade, os mecanismos e os interesses que concretamente estão por trás de todo o contexto. Os cristãos e os que, como Igreja, estão à frente desta mobilização pela justiça e pela promoção humana estão obrigados a se manterem informados e esclarecidos.

Não é correto desarticular as atribuições humanas daquelas sobrenaturais (a pessoa elevada pela graça). Não são realidades estranhas entre elas. Por isso, não se pode compreender a salvação eterna separada ou sem nenhuma ligação com as finalidades terrenas e temporais. Estas não devem ser desprezadas ou ignoradas. Por isso, essa antropologia de cunho dicotômico leva a um reducionismo tendente ao individualismo: salvar almas, ajudá-las a colocarem-se na graça de Deus e assim voltarem-se para o Paraíso. Essa concepção dicotômica do homem, das finalidades humanas e cristãs de fato tiveram como consequência uma exclusão da atividade pastoral da Igreja toda referência e engajamento na política tendo em vista a salvação e libertação temporal do homem.

“O amor do homem para com Deus, que se manifestou em Cristo pela salvação, exige de modo inequívoco de traduzir-se em amor oblativo aos irmãos da humanidade com uma predileção pelos mais necessitados. Deve ser um amor verdadeiro, operoso, que não instrumentaliza as pessoas, tanto a indivíduos quanto a estes enquanto grupo social; um amor que coloca em ação processos de promoção humana integral, de humanização plena, de libertação total, sobretudo para os pobres, o marginalizados e oprimidos. O horizonte escatológico não exclui o engajamento terrestre, mas o postula e, mediante a esperança lhe confere um sentido pleno”.

Existe o perigo de as obras de promoção humana permanecerem no terreno da compaixão, com o perigo de não levarem em consideração nem analisarem as causas do sofrimento destes pobres que por tais obras são servidos. Muitas vezes, o alívio das necessidades individuais, imediatas ou cotidianas pode comportar, em tais instituições ou comunidades cristãs, o risco de abandonar o interesse e o engajamento na transformação das estruturas. Atitudes paternais acabam por levar ao perigo do paternalismo. E, por detrás disso tudo, certa estrutura distingue muito fortemente o que se deve e o que não se deve fazer em termos de serviço-misericórdia aos outros: “neste mundo são aplaudidas ou toleradas ‘obras de misericórdia’, mas não se tolera uma Igreja configurada pelo ‘princípio misericórdia’, o qual a leve a denunciar os salteadores que produzem vítimas, a desmascarar a mentira com que cobrem a opressão e a animar as vítimas a se libertarem deles. Em outras palavras: os salteadores do mundo anti misericordioso toleram que feridas sejam curadas, mas não que ele não torne a cair em suas mãos” . Esta estrutura perversa e bem articulada pode fazer estragos grandes no processo de construção da tão sonhada sociedade justa e fraterna, sinal do Reino de Deus presente entre nós. Paratanto, é preciso que se questione e que todos tenham a coragem de se revelar. É preciso saber quem é quem nessa história toda de serviço ao próximo. Quando a fraternidade e o amor aos necessitados levam um cristão a nem querer falar do problema das estruturas injustas; quando o discurso da partilha e da igualdade cria embaraços, rejeição profunda, então é bom questionar fraternalmente e até denunciar profeticamente. Porém, isso, dentro de uma postura fundada no desejo de ver o irmão crescer e nunca numa atitude marcadamente revoltada, cheia de ódio, partidos, rancores e coisas do gênero. É certo que nem sempre é fácil, sobretudo para quem convive com situações penosas de clamorosas situações de desigualdade e de opressão em meio aos excluídos e marginalizados. Mas é uma tentação para se vencer. O grande zelo, necessário e oportuno, por construir uma sociedade justa e fraterna não se pode eximir de reconhecer que a realidade nunca atingirá um quadro ideal, mesmo que isso, em nenhuma hipótese isente de um engajamento efetivo no processo de transformação deste quadro de pecado.

Pe. Marcos Chagas

Formação: Abril/2009


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