“Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste? (Mat 27,46)”
Ao vivenciarmos situações como o abandono, o desprezo e o esquecimento, estamos tendo a oportunidade de exercitar um grau da virtude, isto é, praticar o exercício da perseverança, pois, de imediato uma palavra nos vem logo na lembrança: por quê? E a razão deste questionamento relaciona-se com a nossa justiça, que não é nem a sombra da Justiça de Deus. Um questionamento que, se caso for alimentado através das nossas justificativas humanas, pode trazer consequências graves para aquele que deseja trilhar o caminho em busca da perfeição,
Precisamos estar sempre abertos e preparados para seguir um caminho que, muitas vezes, não desejamos e não queremos, mas que a graça de Deus nos encoraja a dar pequenos passos. Pensamos até que nem andamos, ou melhor, voltamos no caminho, mas, nosso Senhor que tudo transforma, nos leva também a conhecer e a descobrir a grandeza de experimentar o gozo de deixar-se cair nos Seus braços de Pai e apenas dizer: “Eis-me aqui”; transformando desta forma o nosso questionamento em: para que?
Em toda situação que é gerada em nossas vidas, Deus sempre quer mostrar e ensinar algo que nos levará à vida eterna – “Todos os teus filhos serão instruídos pelo Senhor e a felicidade deles será grande” (Isa 54,13). O que acontece na maioria das vezes é que o homem, por influência de sua natureza, começa a julgar os fatos e os acontecimentos, segundo os seus princípios e segundo a sua experiência pessoal de vida, desprezando inconscientemente, por conta da influência do mundo – a Formação Divina.
Uma Formação divina que, em muitas vezes aos olhos do mundo é inaceitável, é loucura, é dolorosa, é até, em muitas vezes justificada com a razão. Isso porque o próprio homem no seu anseio de relacionar-se com Deus, sempre desejou conhecê-Lo. E, como conhecê-Lo? Este era o grande dilema da criatura humana, limitado no seu amor, na sua justiça, no seu perdão, no seu conhecimento… Quer o homem fortalecer laços de amizade com o seu Criador. E este fortalecimento de laços vem através de uma série de fatos e experiências já geradas na vida do homem como, por exemplo, educação familiar, relacionamento com os pais, ambiente social, cultura, infância, adolescência, e tantas coisas que poderíamos até enumerá-las. Mas podemos resumir dizendo que a experiência pessoal vivida pelo homem, leva-o a criar conceitos e a definir com a razão, os caminhos que o levam a União com Deus.
É bem verdade que o homem, mesmo sendo criatura, sempre quer conhecer mais o Seu Criador, e vai sempre pelo caminho da limitação, querendo chegar no caminho do ilimitado. Se esquecendo muitas vezes que é formado por sentimentos, afetividades, reações movidas pela natureza humana. Mas existe o desejo: quer conhecer o seu Deus, o seu Criador, quer ter uma experiência profunda da Sua grandeza. E é, justamente por conta deste desejo que existe no coração do homem, principalmente nas almas santas, que Deus começa a direcioná-lo no caminho em busca da perfeição, no encontro consigo mesmo, no encontro com o próprio Deus – “Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar, invocai-o, já que está perto” (Is 55,6).
E o que importa mesmo é o desejo do encontro com o próprio Deus, pois, nossos corações foram feitos para Ele e não descansarão até que descansem Nele. Todo anseio humano é, na verdade, um anseio por Deus. E com o desejo cravado no nosso peito, o próprio Criador aos poucos vai fazendo um grande milagre em nossa vida, vai trabalhando e transformando as nossas reações, as nossas experiências, as nossas verdades, as nossas convicções, as nossas certezas, a nossa afetividade, o nosso amor, e principalmente a nossa forma de amar e, com relação à nossa forma de amar, é este o nosso grande engano.
Nosso conceito de amor é sentir-se: amado, compreendido, acolhido, seguro e consolado. Seria este um grande sinal de que somos verdadeiramente amados? E, como nosso coração se sente atraído por todos esses sentimentos naturais, pois concentramos nosso gozo e afeição nos bens que agradam a razão; na verdade, todos os bens temporais em si mesmo não nos leva ao pecado; no entanto, a fragilidade da natureza humana é tão grande que o seu coração a eles se apega, deixando de imediato o seu Criador; devemos sempre lembrar quanto é inútil, perigoso e prejudicial alegrar-se em outra coisa que não seja fazer a vontade de Deus.
Realmente, se a criatura a nada se apega em particular, em vista das qualidades naturais e aparentes que são ilusórias, como posições, títulos, empregos etc, conserva-se livre para amar racional e espiritualmente todas as coisas e todas as criaturas. Pois é pura vaidade colocar o gozo no sentir de tudo isso, se não sente a criatura que serve mais a Deus por meio delas e segue caminho mais seguro para a vida eterna; uma liberdade que nos leva amar todos os homens, como Deus quer que sejam amados. E o exercício desta liberdade gera na criatura uma fé pura e verdadeira, pois, ter fé não é ver as coisas boas como vindas de Deus, mas todas as coisas são boas porque vem de Deus – “Sei em quem coloquei a minha fé” (II Tm 1,12).
Ao buscarmos a trilha da perfeição para encontrar o Deus da Perfeição, nos depararemos com o imperfeito. Este será sem dúvida, nosso grande desafio de cada dia: fazer do ordinário, o extraordinário; do nada, o tudo; da fraqueza, a fortaleza; do imperfeito, o perfeito. Precisaremos, antes de mais nada, ter a convicção de coração da “nossa verdade” – como diz São Paulo: “Sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (I Cor 15,9-10). E diante da verdade, assumi-la.
Encontraremos uma grande dificuldade para fazer desta verdade a nossa realidade do dia a dia, pois a natureza humana não aceita, é algo que está acima das nossas forças. O mundo nos forma deste cedo para sermos os melhores, para fazermos sucesso. Podemos ver a primeira leitura de Jesus na sinagoga, que foi o livro do profeta Isaías, quando Ele afirma que foi ungido para levar a boa nova aos pobres, aos doentes, aos cativos, aos presos, portanto à todos aqueles que não eram os melhores, e melhor dizendo eram os piores. E como encarnar esta verdade em uma sociedade que me leva a ser o melhor?
Quando a criatura começa a experimentar a dor da sua verdade, suportando sofrimentos morais tão dolorosos, que a inteligência humana é incapaz de compreendê-los e a palavra de exprimi-los, significa que está começando a chegar ao estado do Abandono e a trilha da perfeição. Somente aquele que por isso passa saberá senti-lo, sem muitas vezes, poder defini-lo.
Inicia-se para criatura o caminho da virtude, momento em que o Criador quer introduzi-las no caminho para chegar a união divina. É muitas vezes, fracassar aos olhos do mundo, para ser glorificado aos olhos de Deus. Causa tristeza ver muitas criaturas que Deus dá talento e graças para irem adiante nesta trilha e, se quisessem ter ânimo, chegariam a esse alto estado de perfeição, isto é a união divina. E o que acontece a essas criaturas, ficam paradas, sem progredir, no seu modo de relacionar-se com Deus. Não querendo ou não sabendo, por falta de orientação, desapegar-se daqueles princípios, que é a busca de uma explicação através da razão; pois não entregam a sua vontade ao Senhor e encontram deste modo maiores sofrimentos. Ao invés de se abandonar a Deus e ajudá-Lo em seus propósitos.
É doloroso para a criatura não se compreender e não achar quem a compreenda nestes tempos de provação. Levada dessa forma por altíssimo caminho, no qual pareça correr o risco de perder-se pelo sofrimento, pelas tentações e angústias de toda espécie. Talvez na trilha deste caminho, encontre pessoas que fale a mesma linguagem dos soberbos consoladores de Jó: “Vosso estado é conseqüência de alguma falta secreta em punição da qual Deus vos abandonou”. Duplicam dessa maneira, o sofrimento da pobre criatura, que é precisamente o conhecimento da sua verdade, da sua própria miséria – vê mais claro a luz do dia, como está cheio de pecados e faltas.
Ao chegar a esse ponto da caminhada a criatura está apoiada unicamente na pura fé para se elevar até Deus, sabe ela que nada tem, nada possui e nada pode, pelo contrário, é devedora diante da grandeza do amor do seu Criador. A criatura sai assim dos seus próprios limites para subir esta escada divina da fé, que se eleva e penetra até as profundezas de Deus. É como que, saiu “disfarçada”, isto é, despojou a veste e maneira natural para se revestir do divino e, graças a esse disfarce, escapou aos olhares do demônio. Vai trilhando seu caminho em busca da união divina, escondida e encoberta e tão alheia a todos os enganos do demônio que verdadeiramente vai caminhando “na escuridão segura”, e adianta-se com muita segurança nos caminhos de Deus, tomando unicamente a fé por guia, libertando-se das concepções naturais do “sentir”. E quanto menos a criatura age em virtude da própria habilidade, mais segura vai, porque anda na fé. Começa Deus a projetar sobrenaturalmente na criatura um raio de luz divina que é o princípio da União Perfeita. Para tal união não consiste em sentir, compreender, gostar, ou imaginar a Deus, nem está em qualquer outra coisa, senão na pureza e no amor, isto é, na desnudez e resignação perfeita de todas essas coisas unicamente por Deus.
Para compreender, qual seja esta união que estamos tratando, é necessário saber que Deus faz morada substancialmente em toda criatura, ainda que seja o maior pecador do mundo. Esta espécie de união existe sempre entre Criador e criatura, conservando-lhes o ser: sem essa presença, seriam aniquiladas e deixariam de existir. Assim, quando falamos de união da criatura com Deus, não nos referimos a união substancial sempre permanente, mas a união e transformação da criatura em Deus por amor, só realizada quando há semelhança de amor entre Criador e criatura. Desta forma, Deus se comunica mais à criatura mais adiantada no amor, isto é, aquela cuja vontade mais se conforma à Dele. Sendo a conformidade perfeita, a união e transformação sobrenatural será consumada; e quanto mais a criatura se prende a outras criaturas e confia nas suas habilidades naturais, segundo o afeto e o hábito, menos condição terá para tal união, pensando ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo (Gal 6,3), porque não permite que Deus a transforme totalmente no extraordinário, na fortaleza, na beleza, no perfeito; e, sem a transformação, a criatura não pode nascer de novo para ser atraída pela união com o Criador, como diz o apóstolo João: “Quem não renascer da água e do Espírito Santo jamais verá o Reino de Deus” (Jo 3,5).
Nossa tendência é buscar os consolos de Deus do que o Deus Consolador. Ao alimentarmos as nossas tendências, experimentamos as quedas decorrentes da fragilidade humana, sendo consequentemente aprisionado a elas. Precisamos estar atentos de que o único erro verdadeiro é aquele do qual nada se tira proveito. Portanto, a experiência pessoal das nossas tendências, nos faz cativos em virtude do receio de perde-los. E se ficamos presos aos consolos, virá imediatamente as quedas; e maior perigo é ficar aprisionado as quedas e erros, pois é maior prejuízo a alma da criatura. Como diz o rei Davi, se mil vezes cair, mil vezes levantarei.
É de grande prejuízo para criatura não acreditar na misericórdia do seu Criador, pois, não acreditando no amor incondicional do Criador, estará voltada para si mesmo, tentando levantar-se com suas próprias forças sem jamais conseguir.
Precisamos, sim, tirar proveito de nossas quedas, fragilidades, imperfeições, afetividades etc. Antes de mais nada, é necessário que exista no coração da criatura o anseio pela liberdade, já que está aprisionada: querer ser livre. Ser livre significa não estar à procura de ser compreendida, antes querer apenas compreender; não está à procura de ser perdoada, antes perdoar; não está à procura de ser amada, querer apenas amar. Encontrará, portanto, o primeiro degrau da liberdade – a alegria do abandono e a liberdade de espírito – “É maior felicidade dar do que receber” (Atos 20,35).
Por Valdo Lacerda, consagrado da comunidade de aliança de Recife-PE
