Viver a espiritualidade do cotidiano é identificar os rastros e sinais presentes na manifestação do Espírito de Deus, que fala em situações e ocasiões concretas na nossa vida, e na maioria das vezes, pelo enorme barulho interior de nosso coração e pela falta de percepção espiritual, vemos, mas não enxergamos, ou ouvimos, mas não escutamos, como diz São Paulo em Atos dos Apóstolos.
Em determinada ocasião, alguém dizia que Bento XVI, por ocasião do início de seu pontificado, dizia que seu consolo era a certeza de que Deus sabe trabalhar com instrumentos “insignificantes”, e depois alguém contestava: ele não disse “insignificante”, mas “insuficiente”. Afinal, disse, somos muito valiosos para Deus, apesar de nossa própria desvalorização pessoal.
Mas, temos a noção real, a consciência, ou melhor ainda, a certeza, a convicção pessoal de qual é o valor e o significado real da nossa vida para Deus?
Para descobrirmos isso, diante de Deus, em oração, temos que responder às seguintes perguntas: Qual o valor real que dou à minha existência humana? Qual a consciência que tenho da importância de minha vida para Deus? Quão significativa entendo ser a minha vida para Deus e para os homens?
O mais usual é atribuirmos à palavra “significativo” um conteúdo positivo de importância ou relevância, ou seja, algo que merece nossa atenção especial. Por outro lado, “insignificante” seria algo sem valor, que não requer ou necessita de atenção. Mas há também o sentido de “significativo” como representar e indicar algo.
Quando comecei a pensar nisso, vieram-me à memória às palavras de Jesus a Pedro, questionando-o: “Pedro, tu me amas?” Para mergulharmos no sentido dessas palavras devemos ter em mente a situação em que se encontrava Pedro, quando a pergunta foi feita. Ora, é certo que Jesus, que tudo sabe, sabia que Pedro o amava, portanto, por que perguntou? Na verdade, Jesus desejou que Pedro entendesse a partir de si mesmo o conteúdo dessa Verdade – o Amor. Jesus usa a pergunta como meio para levá-lo a refletir acerca de sua real consciência sobre o significado do Amor. O que teria mais significado para Pedro: seu fracasso pessoal como discípulo que negou o mestre? Sua fragilidade humana, manifestada pela incapacidade de permanecer aos pés da cruz do mestre? Sua desconfiança e desesperança em face da morte de Jesus e do futuro do seu discipulado? Seu sentimento de incapacidade para a missão? Seu medo das perseguições, etc?.
Ao questionar Pedro sobre o amor, Jesus queria que o próprio discípulo buscasse em si a experiência vivida com Jesus da única coisa que tem significado e importância em nossa vida. O ponto central de sua caminhada com o mestre e de sua descoberta pessoal, única, que mudou todo o sentido de sua existência e o levou a reconhecer o real sentido de sua missão, do seu significado para Deus.
Jesus, com a pergunta que fez a Pedro e faz a nós, deseja que descubramos que o amor, a capacidade de reconhecer-se amado, de se relacionar com o Amado, de responder ao amor e de comunicá-lo amando a todos, é o real significado da existência humana. É isso que dá sentido a todo o resto.
Tu me amas? É outra maneira de perguntar: “És capaz de enxergar além das circunstâncias, das situações, das palavras, de tudo que te envolve, que a única coisa que interessa a Deus é o amor, e que tu, homem, és objeto do amor de Deus? Que o significado de sua existência é o Amor com que tu foste amado e chamado a amar, dia a dia, em meio a todas as situações, desafios, quedas, sacrifícios? E nada que te aconteça ou que faças pode mudar ou alterar o amor de Deus por ti?”
Jesus sabia que o verdadeiro discípulo é aquele que reconhece que o real significado da vida humana é o amor, não as circunstâncias ou as situações. A verdade de ser o homem objeto do amor apaixonado de Deus é o mais eficaz instrumento de comunicação desse amor por toda a face da terra.
Quando esquecemos o real sentido de nossa existência, perdemos o significado de nossa vida e da vida dos nossos irmãos para Deus, e começamos a nos considerar “insignificantes”. Numa sociedade onde tudo sofre sob a ditadura do relativismo, como nos disse Bento XVI, tratamos hoje a vida como algo sem valor, porque perdemos a referência do real valor da nossa vida. Mas, como pode ser insignificante o objeto do amor divino capacitado, plenamente, pelo Espírito Santo, a ser artífice desse mesmo amor que transforma a face da terra?
Como resultado dessa perda do significado da existência humana, podemos ver como conseqüência o egoísmo, a indiferença, o medo, a violência, a fome, a injustiça, o desespero e homens e mulheres que se vêem como incapacitados, como insignificantes e impotentes para mudar as situações. Eles estão esquecidos de que são portadores da maior potência transformadora da face da terra: são amados por Deus e capacitados ao amor divino que realiza milagres.
É milagre do amor divino hoje, alguém em meio a uma assembléia, dizer. ”Não sou insignificante para Deus. Ele me ama e eu amo nele.” Uma pessoa que, assim como Pedro, respondeu: “Sim, Jesus, tu sabes que te amo. Tu sabes que reconheço teu amor por mim.
Fiquei pensando, será que, diante de todas as situações de minha vida, sei identificar os sentimentos, pensamentos, movimentos e ações que me levam a perder a consciência do meu significado para Deus e me considerar insignificante? Tenho consciência do significado da vida humana para Deus, o nosso Criador?
Que tal respondermos, em oração, diante de Deus, as perguntas: Será que em minha vida cotidiana tenho dado significado à minha vida, lembrando da grande importância que ela tem para Deus? Será que tenho deixado as situações, as pessoas, ocasiões me convencerem de que sou insignificante para Deus? Será que tenho acreditado mais no mundo que me rodeia, nos fatos que me envolvem, que tentam me convencer que não tenho valor ou importância? Será que, como o Papa Bento XVI, estou convencido de que só o amor é capaz de mudar a face da terra, e que Deus me amou me capacitou a amar com esse amor que tudo pode mudar, criar, curar e transformar?
Por Maira Silvia Duarte Peixoto
