Formação

Afinal, o que é vida interior?

Somente quando somos “jogados” dentro de nós mesmos é que podemos ter aquilo que conhecemos como “vida interior”. Continuaremos respondendo alguns questionamentos sobre vida de oração no segundo episódio desta série.

Bertrand Wadi

A vida interior, como o nome já sugere, diz respeito àquilo que acontece na interioridade do nosso ser.  Difere da “vida exterior” que compreende aquilo que acontece fora de nós, como conversar com os demais, assistir vídeos no celular, tocar algum instrumento, etc. Certamente, a vida interior e exterior não estão desvinculadas. Aquilo que acontece no exterior, isto é, aquilo que vemos, escutamos, sentimos e tocamos afeta, irremediavelmente, o nosso interior. Também aquilo que acontece no nosso interior, isto é, aquilo que refletimos, rezamos, compreendemos, avaliamos, tem incidência no nosso exterior.

No mundo das religiões, certamente, poderemos encontrar várias definições de vida interior e várias formas de vive-la e desenvolvê-la. Para muitos a vida interior pode ser um voltar-se para dentro de si apenas para encontrar a si mesmo, alcançar a paz em si mesmo, sem necessidade de outrem. Para outros a vida interior pode ser um egoísta desconectar-se dos outros, a fim de não entrar em contato com seus defeitos e sofrimentos, uma espécie de apatia estoica moderna.

Respondendo ao questionamento

Certamente, isto não é a vida interior cristã. Então, o que é a vida interior? Antes de lhe responder, preciso lhe apresentar alguém que nos ajudará a trilharmos este percurso rumo à vida interior.

Há um teólogo francês da ordem de São Domingos – também conhecidos como dominicanos ou pregadores- que durante o início e meados do século XX, dedicou-se a meditar, escrever e ensinar bastante sobre o tema da vida interior. O nome dele é Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964). É considerado um dos maiores teólogos do século XX; foi catedrático de Teologia no Angelicum –Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino- em Roma por muitos anos; e escreveu diversas obras sobre teologia ascética e mística. Instruiu inúmeros alunos a respeito do pensamento de Santo Tomás de Aquino. Inclusive, foi professor de São João Paulo II e Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI).

Enfim, ele nos ensina que a vida interior é um diálogo íntimo com Deus. Certamente, pode começar a partir de um diálogo de cada um consigo mesmo, que se dá no momento em que nos encontramos sozinhos, sem estar em conversação com os outros, ou sem nos encontrar no meio do barulho das grandes cidades onde habitamos. Nesse momento, nos deparamos com os nossos pensamentos e nos questionamos a respeito de diversos assuntos.

Provavelmente um jovem se questionará sobre seu futuro; um ancião, se lembrará do seu passado; um estudante pensará nas suas provas; e uma noiva pensará no dia do seu casamento. Quando se ultrapassa a superfície da reflexão, surgem questionamentos profundos, tais como: o que há depois da morte? Para que fui chamado à vida? O que fiz, faço ou estou pensando em fazer, é bom? No meio desse turbilhão de ideias surge um nome que fica ressoando no interior: Deus. Deus. Deus. Com efeito, todas essas inquietações e muitas outras só encontram resposta quando são dirigidas a Deus.

Estabelecendo um diálogo

A alma começa a dirigir os seus pensamentos a Deus. Estabelece um diálogo com Ele. Pergunta, escuta, se expressa, agradece, chora. Tudo isso numa conversa silenciosa que tem lugar no mais profundo da alma humana. É este diálogo com Deus, com todo o intercâmbio que comporta (diálogo difere de monólogo porque pressupõe uma troca de ideias e consequentemente um enriquecimento mútuo) o que chamamos de vida interior.

Garrigou-Lagrange ensina: “a vida interior é precisamente uma elevação e uma transformação da conversa íntima de cada um consigo mesmo, a partir do momento em que ela tende a tornar-se uma conversa com Deus” .

Este esquema parece ser muito complicado para o nosso tempo, que conta com numerosos e constantes estímulos. Celular, filmes, vídeos, música, conversas… A vida exterior oferece muitíssimo material. Com efeito, isto faz que para a nossa geração seja mais desafiante desenvolver uma vida interior.

Isto quer dizer que estamos fadados ao fracasso nesta busca? De modo algum! No próximo artigo você verá que é possível ter uma vida interior principalmente devido à sua origem, isto é, de onde ela nasce, como é gerada no nosso interior. Fica ligado!

Série Vida Interior #1: Sobre o problema de estarmos jogados dentro de nós mesmos


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