Você sabia que agir e falar de forma sincera vai muito além do que não dizer mentiras?
Da mesma forma que o homem foi criado para o amor, também foi criado para a verdade, porque Deus, que o criou, é Amor e Verdade. Portanto, viver na verdade é uma consequência imediata da fé em Deus. Aqui fundamenta-se o dever moral de dizer a verdade, de agir e falar de forma sincera e franca.
O Catecismo afirma que “o homem tende naturalmente para a verdade e é obrigado a ordenar toda a vida segundo as suas exigências”. [1]
Por isso é de suma importância a formação da nossa consciência, fazendo dela objeto de contínua conversão à verdade e ao bem, porque somente o coração convertido ao Senhor e ao amor do bem é a fonte dos juízos verdadeiros da consciência. [2]
“O oitavo mandamento proíbe falsear a verdade nas relações com os outros. Essa prescrição moral decorre da vocação do povo santo a ser testemunha de seu Deus, que é a verdade. As ofensas à verdade exprimem, por palavras ou atos, uma recusa se abraçar a retidão moral: são infidelidades fundamentais a Deus e, neste sentido, minam as bases da Aliança”. [3]
O cristão é chamado a ser testemunha da verdade, ou seja, a testemunhar a própria fé em Cristo e no Evangelho, ainda que isso lhe custe o martírio, que é, segundo o Catecismo, “o supremo testemunho prestado à verdade”. Diante da difícil escolha entre a vida física e a vida espiritual, os mártires tinham a clara consciência de estar cumprindo o seu dever cristão, optando pela vida da alma, porque sendo eles testemunhas da verdade, deveriam escolher sempre os valores mais altos: “Procurai o que está no alto, lá onde se encontra Cristo, sentado à direita de Deus, é no alto que está a vossa meta, não na terra! De fato, vós estais mortos e a vossa vida está escondia com Cristo em Deus”. [4]
Mas quais são os comportamentos contrários ao dever de viver na verdade? De quais maneiras pecamos contra o oitavo mandamento? O Catecismo nos apresenta uma lista. São eles: o falso testemunho ou perjúrio, a maledicência, a calúnia, a jactância, a ironia e a mentira.
Nesse contexto vemos uma citação de Santo Inácio de Loyola, que nos ensina que antes do dever de não pensar mal e falar mal dos outros, temos o dever de pensar e falar bem de todos:
“Todo cristão deve estar mais inclinado a desculpar as palavras do próximo do que a condená-las. Se não é possível desculpá-las, deve-se perguntar-lhe como as entende; e se ele as entende mal, que seja corrigido com amor; e, se isso não bastar, que se procurem todos os meios apropriados para que, compreendendo-as corretamente, se salve”. [5]
A mentira constitui uma ofensa direta à verdade, porque tem a intenção de enganar e induz ao erro. Em si, trata-se de um pecado venial, mas quando fere gravemente as virtudes da justiça e da caridade, a mentira torna-se um pecado mortal, e nesse caso, como toda falta cometida contra a justiça e a verdade, tal pecado impõe o dever de reparação. [6]
A falta para com a verdade pode provocar graves consequências sobre a vida do próximo, sobre as suas decisões e julgamentos, sobre a sociedade e sobre a confiança recíproca, necessária entre os homens. Mas o direito à comunicação da verdade não é incondicional, ou seja, existem situações concretas onde, por caridade e respeito à verdade, não é conveniente revelar a verdade a todo aquele que o pede. Pensemos, por exemplo, num doente terminal que poderia reagir muito mal diante da notícia sobre a sua condição de saúde. “O bem e a segurança do outro, o respeito à vida privada, o bem comum são razões suficientes para se calar aquilo que não deve ser conhecido ou para se usar uma linguagem discreta. (…) Ninguém é obrigado a revelar a verdade a quem não tem o direito de conhecê-la”. [7]
Com relação ao sigilo do Sacramento da Reconciliação, trata-se de algo sagrado e inviolável, e que não pode ser revelado sob nenhum pretexto.
Com base nos princípios fundamentais da verdade, liberdade, justiça e solidariedade, os meios de comunicação devem servir ao bem comum, difundindo informações, sem ferir a caridade ou promover difamações. Também cabe às autoridades civis, zelarem para que tais princípios sejam respeitados, através da publicação e aplicação de leis, sempre em vista do bem comum, evitando o mau uso dos meios de comunicação, que podem causar graves prejuízos aos costumes públicos, a pessoas privadas e ao progresso da sociedade. [8]
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Existe um modo peculiar de comunicação da verdade, que é através da arte, especialmente a arte sacra. Toda a forma autêntica de arte é um caminho que conduz a realidades mais profundas, e pode ser um meio muito eficaz de aproximação da fé. É “por isso que a plenitude evangélica da verdade não podia deixar de suscitar, logo desde os primórdios, o interesse dos artistas, sensíveis por natureza a todas as manifestações da beleza íntima da realidade.”[9] A arte, enquanto forma de comunicação deve tender ao testemunho da verdade.
Da mesma forma como Deus governa o mundo não subjugando-o mas atraindo-o com a sua beleza e esplendor, o homem que observa fielmente o oitavo mandamento guia a si mesmo e os outros com a luz e a força que promanam de Cristo, aquele que é caminho, verdade e vida.
[1] Cf. Cat 2467.
[2] Cf. VS 64.
[3] CIC, 2464.
[4] Col 3,1-3.
[5] Sto. Inácio de Loyola, Ex. Spir., 22, in CIC, 2478.
[6] Cf. CIC, 2483-2487.
[7] CIC, 2489.
[8] Cf. CIC, 2498.
[9] Cf. João Paulo II, Carta aos artistas, 6.
Josefa Alves
Missionária da Comunidade Shalom e membro do Instituto Parresia*
*O Instituto Parresia é o setor acadêmico da Assistência de Formação da Comunidade Católica Shalom. Desenvolve o aprofundamento dos conteúdos da fé cristã, através do estudo a nível acadêmico, de cursos, de grupos de estudos e pesquisas, na área da Teologia, Filosofia, Doutrina Cristã, História da Igreja, Sagradas Escrituras, Psicologia e outras ciências humanas. Entre em contato conosco: institutoparresia@comshalom.org