Sou a Magna Araujo, tenho 21 anos, sou postulante da aliança da Missão de Natal/RN. Não podia deixar de falar o que Deus fez na minha vida durante esses dias em Chaves. Quando me inscrevi, eu já sabia que iria, Deus já havia me dado essa certeza. Fui com nenhuma expectativa, mas com um único desejo: não voltar a mesma. Eu tenho o gênio muito forte, e na maioria das vezes eu uso como armadura. Lembro que antes de chegar em Chaves, eu pensei em desistir umas 100 vezes, e quando entrei naquele barco pensei mais 1.000 vezes, enquanto na minha mente:”o que é que eu estou fazendo aqui? Eu preciso passar por isso?”, doce engano o meu…
Assim que cheguei lá, que meus pés sentiram aquele chão, que meu olhos se depararam com aquelas pessoas, aquela cidade, só senti aquele vento no meu cangote, era Deus me dizendo: “vai lá, desiste agora!” (risos). Deus começou a me vencer e foi incrível como no primeiro dia eu já não queria mais voltar para casa. Logo depois conhecemos como era a cidade e começou a me doer quando falaram da pobreza, das condições precárias, senti isso quando fomos para a evangelização porta a porta, o número de crianças por cada casa eram enormes. Lembrei da minha infância, eu já passei fome, meus pais eram humildes…
Vi um filme passar na minha cabeça, e na minha humanidade fraca eu pensei:”É como se esse povo, essa terra fossem esquecidas por Deus”. Me enganei de novo, na verdade esse povo e essa terra eram esquecidos por mim, por tantos que tem “tudo” e que simplesmente ignoram o sofrimento do outro, do pobre. Me vi querendo abraçar aquelas famílias, me vi iguais a eles.
Voltando para nosso grupo de missionários, me peguei olhando para os que lá viviam, parecia que os braços deles comportavam as vidas das pessoas daquela região. A Responsável Local era feliz demais e chegou a dizer que não se imagina saindo de lá. Engraçado que dentro de mim eu também sentia a mesma coisa. Deus em pouco tempo fez de nós, voluntários desconhecidos, tornarem-se grandes amigos. Éramos tão felizes juntos! Foi então que Deus me fez lembrar da cura que Ele me prometeu: a cura na vida comunitária. Fui muito amada por eles, olhava cada um e dizia: Eu os amo, eles são a minha cura e eu gostei de estar com eles. Me ensinaram a amar, pois é, aprendi a amar antes de olhar o que de bom eles poderiam me oferecer… Foi tão simples!
Nos dias de Renascer eu pude tocar na vida de um menino, rezei por ele na efusão das crianças, ele chorava muito, me abraçava. Teve um momento em que perguntei por que ele chorava e respondeu que estava triste, mas não falou o motivo. Lembro que logo depois que rezei por ele eu saí da sala e fiquei aos prantos lá fora, eu não sei dizer, mas a tristeza dele doía em mim também. Saí perguntando para as meninas que serviram no kids quem era o menino e uma delas me respondeu que ele foi um dos que mais deram trabalho. Entendi que Deus me deu aquela vida para que cuidasse.
Depois do Renascer ele passou o tempo conosco, principalmente nas fraternidades. Tentava uma forma de chegar perto, de continuar o nosso papo do Renascer. Foi então no dia da Copa Shalom que ele foi aonde eu tava (na lanchonete), sentou do meu lado e comecei a perguntar sobre a vida dele. Ele me falou tudo, família, escola… Perguntei a ele porque ele estava triste naquele dia e ele me respondeu que não lembrava. Eu insisti, mas ele não falou. Como se não bastasse ele não falar o motivo, ele ainda acrescentou: “eu sou triste, sempre fui, só sou feliz no carnaval e no dia das crianças”. Ele acabou comigo (choro). Depois disso ele não quis falar mais nada sobre ele, mas me fez muitas perguntas da minha vida.
No último dia ele foi se despedir, me levou até o barco, dei a ele o meu terço e disse que ele não era triste, que Papai do céu o criou para ser feliz assim como a tia é, ele confirmou e disse que não seria mais triste. Me pediu pra voltar e eu disse que voltaria. Ele é feliz, só não tinha se sentido amado, então eu apresentei o amor a ele, eu o amei.
Sou fruto do Renascer 2013, foi onde o Senhor me alcançou, imagine como eu estava vivendo esse Renascer em Chaves, minha terra de missão. Me entreguei por inteira! Estar ali na frente animando com a alegria de quem encontrou Jesus e que é feliz demais apesar das dores, foi viver o paraíso, eles me olhavam e eu respondia com um olhar de que de fato não há alegria maior.
Chaves foi o maior presente que Deus poderia ter me dado, recebi a resposta de ingresso na Comunidade Shalom um dia antes de viajar, então fui mais feliz ainda. No último dia que estávamos em Chaves, logo após a nossa missa, antes irmos para o barco, eu chorava muito, não só por estar voltando pra casa, mas é como se eu tivesse deixado algo lá. Saí da missa e fui para um lugar perto do rio e lá fiz memoria de tudo que vivi. Queria que meus pais tivessem visto. Me vi uma criança chorando e falava com eles baixinho: “Mainha, painho, olhem onde estou, eu continuei, eu venci e agora sou o que tanto queria ser… Missionária”. Quis tanto que eles me vissem, quis tanto ser abraçada por eles naquele momento. Mainha sem dúvidas também estaria chorando, ela era muito boa e certamente iria querer morar lá. Foi então que Deus colocou no meu coração: “eles te veem e tem orgulho de você”.
Saí de Chaves com duas certezas: de que Eu voltarei e de que Deus não erra. Fui muito feliz em Chaves e até hoje não tem um dia sequer que não acorde sem agradecer a Deus por isso.
O que mudou na minha vida? Eu passei de órfã triste, a missionária feliz em sua totalidade. Aprendi a ter esperança olhando pelos olhos daqueles que desde muito cedo lutam diariamente para ser feliz com o pouco que os sustém. Eu renasci. Vale a pena ir em missão e isso não é poesia.

