Jesus me enxergou!
Muitos me olhavam, alguns com desejo, outros com desprezo ou raiva. Tinha aqueles que desviavam o olhar ou então cutucavam alguém para mostrar a pecadora passando.
Porém, aquele Rabi, que estava cercado de gente, falava algo que os fariseus não gostaram de ouvir. Era possível ouvir os murmurinhos. Eu nunca tinha visto aquilo!
Estava prestes a virar e continuar meu caminho quando nossos olhos se encontraram e, enquanto falava algo à multidão, ele sorriu. Quis gritar para afastar aquele olhar de mim, parecia errado alguém como ele olhar pra mim daquela forma.
Mas, de repente, desejei me tornar amiga dele, como ele disse que era meu amigo. Que loucura era aquela? Ele nunca poderia ser meu amigo, a não ser que quisesse ser chamado de impuro. Porém, aquele olhar tinha algo diferente, não era igual aos outros, não tinha prazer ou desprezo, muito menos raiva ou zombaria.
Como uma criança que precisa de colo, quis correr em sua direção, falar alguma coisa e pedir perdão. Por que eu não conseguia falar nada? Por que meu corpo não reagia? Por que meu coração insistia em me fazer se aproximar daquele que me olhava? Sim, que olhava para mim, a Maria e não a pecadora.
Não sabia como reagir, somente que precisava fazer algo. Saí daquele encontro pensativa. Afinal, o que tinha acontecido? O que aquilo significava? Olhei então para a roupa que usava e os enfeites no cabelo, me olhei no espelho daquele lugar onde passei tanto tempo em busca de prazeres e percebi o que deveria fazer.
Eu ouvi quando Simão o convidou para um jantar. Sabia onde encontra-lo, mas precisava ser rápida e, enquanto corria ao local do jantar, apenas desejava que ele ainda estivesse lá. Quando cheguei, olhei aquela casa cheia e as pessoas que lá estavam, eram as mesmas que tinham olhado com desprezo pra mim. Parei, olhei para o frasco que tinha em mãos e, segurando-o firme contra meu corpo, tomei fôlego e entrei naquela casa.
“Perdoada? Ele disse perdoada?”. Eram muitos murmurinhos, alguns nem conseguia entender. Pensava: “Então, o que eu sinto por ele era amor? Isso é amor?”. Ainda de joelhos, diante dele, chorei. “Perdoada”. Levei as mãos ao meu coração e, finalmente, consegui levantar meu olhar quando ele disse: “Tua fé te salvou. Vá em paz”.
Quando o olhei, lá estava ele como naquele dia, sem nojo, repulsa ou raiva, mas com amor. Sim! Amor. Mais uma vez aquele olhar de pai que enxerga seu filho e o incentiva. Poderia sentir pelo seu olhar ele dizendo: “Coragem!”.
Enquanto me olhava, inclinou a cabeça, sorriu e estendeu a mão. Olhei para aquela mão, depois para o seu rosto e o sorriso ainda estava lá. E, também me permitindo sorrir, segurei sua mão e saí.
Ah, Rabuni, lutei contra ti até não ter mais força. Antes eu me esbaldava em vinhos e nos prazeres da cidade, mas, desde aquele momento, percebi que não precisava mais daqueles vinhos velhos. Finalmente entendi que eu tinha encontrado um vinho novo. Fui verdadeiramente seduzida e arrastada por Jesus e em mim não existia resistência alguma porque tudo que eu possuía, derramei aos pés dele.
Era isso que eu sentia: que tinha derramado toda minha vida junto daquele perfume e lágrimas, me despi de tudo e essa nudez era nova. Sentia meu coração rendido. Eu sempre mostrei meu lado mais belo e bonito, mais confiante e atrativo, mas o que aconteceu ali era diferente, eu tinha mostrado minha pior parte.
Pela primeira vez, abri mão de todas as minhas vergonhas, vaidades e orgulho. Ainda estava parada na frente daquela casa e naquela noite, que parece como todas as outras, lembrei do meu passado e me surpreendi ao não sentir vergonha, mas esperança e uma vontade imensa de não voltar pra aquela vida, para aquela Maria.
Olhei mais uma vez para trás, sorri e saí. Estava na hora de finalmente voltar para casa.
Bárbara Pinheiro
