Posso olhar para minha história e ver que em diversos momentos o evangelho se tornou, para mim, muitos adjetivos. Ora foi consolo e ternura, ora exortação e violência; ora um caminho e direção, ora uma série de dúvidas e porquês; ora foi voz clara e forte a me iluminar, ora silêncio absoluto de Deus. Entre tantas experiências, quero partilhar uma de forma específica: gostaria de explanar sobre a bela relação entre o evangelho e a evangelização.
Nosso mundo padece pelo desconhecimento de Deus. Há uma música muito bela do Focolares que retrata essa busca por Deus inerente ao coração do homem. A canção se chama “Busco a Tua voz” e um trecho em especial explicita bem isso. Diz o seguinte: “Onde estás? Porque não respondes? Fala-me! Onde te escondes? Necessito da Tua presença! Minha alma busca a Ti!”. Esse grito, consciente ou inconscientemente, ecoa em todos os corações. Santa Teresa Benedita da Cruz falava exatamente isso quando dizia que quem busca a verdade, mesmo que não saiba, busca a Deus.
Num mundo que desconhece o Filho muito amado de Deus, o evangelho vem ser esse local de encontro com Jesus. E nós, evangelizadores, precisamos ser esses mediadores, verdadeiras e sólidas pontes para levar o homem ferido ao Pai das misericórdias.
E, se olharmos os evangelhos, é exatamente com isso que nos deparamos: o encontro de Jesus com pessoas que sofrem. Ele, em sua longa caminhada encontrou muitos corações. Corações medrosos, como o de Pedro ao cair enquanto caminhava sobre as águas ou fugindo quando Jesus foi preso; corações incrédulos, como o de Tomé; corações humilhados, como o da mulher que sofria de sangramento há 12 anos; corações corruptos, como o de Zaqueu; corações feridos, como o de Madalena; corações orgulhosos, como o dos fariseus; corações ricos das riquezas deste mundo, como o do jovem rico. Como lidar com esses corações? Existe uma fórmula? Um esquema? Não! Cada evangelização é pessoal e todas elas nascem de uma única fonte: o amor. Até quando exortava, Jesus o fazia movido de amor.
Muitas vezes, nos deparamos com evangelizações desafiantes, e diante delas, a grande pergunta que surge é “ o que fazer? ”. Mas, será que, realmente, é esse o questionamento correto? E se ao invés de perguntarmos o que fazer, perguntássemos “ o que Jesus faria? ”. Se somos amigos de Jesus e Sua Palavra, aprenderemos, também nós, a lidar com o sofrimento do outro. O evangelho é uma escola de evangelização. Nele, não aprendemos com qualquer um, mas com o Mestre.
A evangelização nasce ainda de uma experiência pessoal. Nós só temos propriedade de falar algo se esse algo foi antes experenciado e vivido por nós. Quando Pedro diz “ Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo “, ele está narrando sua experiência, e isso é essencial. Foi a partir da experiência pessoal de Pedro que Jesus diz que sobre ele fundará Sua Igreja. Deus age eficazmente em nós na medida em que crescermos na experiência com Ele. E o evangelho é a porta para essa experiência e para o crescimento nela. O evangelho se torna assim, remédio para o mundo que não conhece Jesus, mas também, remédio para nós, portadores desta verdade, e que tantas vezes, infelizmente, tende a duvidar dela.
