– Volta para mim…
Dizia ela mais uma vez ao telefone. Choramingava, mendigando em súplicas qualquer tipo de relacionamento. A sua carência falava mais alto que o amor próprio. Era dependente daqueles sentimentos desde o fim do namoro firme de três anos.
Como um bumerangue o vaivém era constante. Ficaram juntos tantas mil outras vezes. Festas, baladas e encontros propositais ou não, era certo rolar um fica. Idas e vindas. Lágrimas e despedidas. Recomeços e términos com status geralmente atualizados nas redes:
– Amei!
– Casal lindo!
– Torcendo por vcs!
– De novo?
Pra ele era só um passa tempo. Afinal caiu na rede… era um vivido. Ela, cheia de esperanças. Nos anseios daqueles beijos via a possibilidade de um retorno e nos abraços o aconchego de uma morada.
– Ele me ama! Se iludia.
No entanto, era apenas um brinquedo retornável, advertiam as amigas já cansadas do assunto. Só sabia ir e voltar para as mãos de seu “dono”. Se diminuía, na lei do retorno.
Esse amor bumerangue, já nem sabia se era amor. Chegou a questionar. Dominação? Fraqueza… Falta de respeito a si mesma. Ele era o centro de tudo. Se sentiu sufocada. Queria sair. Prometia que aquela seria a última vez. Não resistia. Só mais uma vez. Era vício. Ele jogava.
No vaivém do “rolo”, tão antigo quanto os bumerangues encontrados nas primeiras civilizações australianas, não havia regras. No fundo sentia-se uma perdedora por não saber vencer e assim, desgastava ainda mais a frágil relação. Ele brincava. Ela um bumerangue.
Para chegar neste ponto, muitas rodadas e lances aconteceram, e as muitas investidas foram em vão. Cansada, iria desistir. Entregar os pontos! Finalmente! Não foi fácil. Saiu de campo.
Percebeu que não ser correspondida é natural. Os momentos do namoro existiram mas os deixou lá, parado no tempo vivido. Descobriu que cada pessoa é livre em suas escolhas, inclusive ele! O que não era natural era persistir no mesmo jogo, com estratégias de preencher vazios e carências mendigando afetos. Já não se divertia… fortes dores, caiu em si.
Encarnou a própria verdade. Experimentou a Felicidade, conheceu o Amor que se dobra pra não romper. Já não era um bumerangue, colocou de lado a visão distorcida de si mesma. Deixou ser revelada a sua preciosidade e a vontade de acertar. De ir e não mais voltar. E em um novo abraço, permanecer.
