– Que namoro é esse? Questionou ela se olhando nos olhos em sua imagem dolorosamente refletida no espelho. Estava sofrida. Fazia três dias que não saia do quarto, arrasada com o boy que não respondia suas mensagens e áudios e com ela mesma, que se odiava, por não ter forças para reagir.
Tinha dificuldades em se assumir nos seus relacionamentos. Sua personalidade se anulava a medida que se envolvia com um namorado novo. Se o cara gostasse de cinema ela também gostava, se fosse de rock ou de pagode dançava no mesmo ritmo. Era Maria vai com as outras e nunca Maria leva as outras. Não curtia cabelos muito longos, muito menos tatuagens e bebida. Porém, deixava-os compridos para agradar o parceiro, no namoro passado tatuou dois coraçõezinhos e com o primeiro namorado tomou um porre de cerveja. Não tinha opinião própria. Muitas vezes frequentava lugares indesejados e convivia com pessoas amigas somente dele. Seu amor era fragmentado, de acordo com o namorado da vez, se reduzia no mundinho do outro… amava por interesse dos afetos e agradava para exigir ser correspondida. Parecia ter várias “máscaras”.
Era dissimulada, artifício que desenvolvera ainda criança para disfarçar suas carências e inseguranças. Depositava no outro sua esperança e salvação. Alguém que preenchesse e suprisse seus anseios em tudo. Achava que disfarçava bem as suas ansiedades que, com o tempo se mostravam na medida que ficava pegajosa… um grude. Deixava de viver a própria vida para viver a do outro. Sufocava. Se abandonava por inteira, necessitava ter alguém… dela faziam o que queriam. Pulou várias fogueiras ao se envolver com pessoas de caráter duvidoso.
Ela sabia bem do que não gostava mas, estava longe de descobrir do que realmente gostava. Precisava se descobrir, procurar sua autenticidade e verdade. Saber dizer NÃO ou SIM na hora certa! Fez o teste com esse último namorado… Se impôs! Disse que naquela noite, sairia com umas amigas do trabalho. Pela primeira vez, se sentiu livre sendo ela mesma. Até mesmo, por momentos, esqueceu que tinha um namorado.
No outro dia ele deu o troco silenciando e, conhecendo suas fragilidades, silenciou mais ainda… Surpreso com a atitude dela, resolveu magoá-la. Ela ferida e meio arrependida da sua inovação, estimulada pela terapeuta, ao enviar as mensagens com conteúdo e promessas de que, jamais faria isso novamente, se rebaixava cada vez mais, tão grande era o desespero de ficar sozinha, sem alguém para conduzi-la. Não se respeitava. Era dependente.
– Antes mal acompanhada do que só! Era seu estilo de vida.
Para os de fora, fingia ser bem resolvida em seus namoros bancando a forte, independente e ainda declarava que, os homens é que eram muito carentes e dependentes dela. Quando estava sem ninguém parecia ser pior, se cobrava e se julgava incompetente em não ser capaz nem de arrumar um “love”. O que os outros iriam falar?
Aos trancos e barrancos foi a mais uma sessão na terapia, narrar o seu insucesso na tentativa de fazer algo por si mesma… Chorou e chorou muito, por finalmente se ver tão dependente de pessoas que não a mereciam e tão pouco a valorizavam… Se viu tão vulgar… Um ser rastejante.
Passou um tempo quieta, juntando seus fragmentos. Era um quebra cabeça de mil peças. Se aproximou mais de sua mãe, a quem criticava por religiosamente ir à missa diariamente. Nela descobriu o amor verdadeiro, incondicional e na eucaristia, o amor que preenchia seus vazios e revelava seu verdadeiro rosto, o quão preciosa era.
Caiu sim, algumas vezes… partilhara com um amigo. A cura? Fez memória de todos os seus relacionamentos e ali, transformou a dor em amor.
