Formação

Ana, Simeão e a juventude

Simeão e Ana se alegram porque alguém vem depois deles e continuará a obra que eles começaram. Têm a coragem de se alegrar com a própria decadência que dá espaço ao novo, ao que vem a seguir.

comshalom

Não creio que encontremos no Brasil um jovem que se chame Simeão, ou mesmo alguém que dê este nome a um filho, pois, este personagem bíblico citado somente em S.Lucas (capítulo 2, 22-40), era um ancião. Simão até vai, por causa de S.Pedro, mas Simeão é nome de velho. Ana não ficou com a mesma fama, e continua sendo um nome belíssimo e muito popular em todas as culturas e idiomas. Esta senhora bastante idosa em seus 84 anos, testemunha uma rara longevidade, principalmente tratando-se da Antiguidade, servia a Deus noite e dia, nos falam as Escrituras.

Mas quem foram estes dois discretos personagens, anciãos,servos bons e fiéis, quem sabe amigos de longa data, no templo em Jerusalém,têm nos braços o Menino Jesus? O que podemos com eles aprender, além do evidente louvor, fruto de vida de oração, e da fé nas promessas do Senhor, em suas palavras? Quem são esses dois que abordam José e Maria nos átrios do templo e reconhecem na criança recém-nascida o Messias que havia de vir?

Quem nos falou a respeito foi o biblista Gregorio Vivaldelli, nosso amigo e irmão, da comunidade irmã Shalom de Riva del Garda na Itália,  em uma missa em Nazaré, na Terra Santa.

Ana em sua velhice representa todos os estados de vida que servem o Senhor, em oração, à espera do Senhor que vem, nos ensinou o Gregório. Ela representa todas as faixas etárias e estados civis, acrescento eu, pois o evangelista faz questão de dizer que ela era viúva. E quantas milhares de mulheres viúvas, separadas, divorciadas reconstroem a própria vida ‘nos átrios do templo’, na vida comunitária, paroquial, nos apostolados?

Ana nos ensina o valor de encontrar Jesus, nas realidades ordinárias da missão cotidiana de nossas vidas. Reconhecer Jesus onde Ele está e onde Ele se esconde. Se Ana não tivesse esta sensibilidade espiritual dada pelo Espírito Santo e pelo contato com os profetas, com a Palavra de Deus, não reconheceria o Menino no braço de sua Mãe, pois Maria e José eram um casal igual a todos os outros que passavam pelo templo em meio à multidão. Quem já teve a alegria de ir à Jerusalém sabe como aquele espaço é imenso e se não fosse pelo Espírito Santo eles passariam despercebidos. Mas Ana reconheceu Jesus e o teve em seus braços, diante de seus olhos. Deve tê-lo abraçado contemplando-o com toda ternura e emoção. Ela sabia que carregava e via o Libertador da humanidade!

Já Simeão além de erguer a voz em ação de graças,testemunhando publicamente sua fé e amor pelo Senhor, e de profetizar o que aconteceria aos pais daquela criança, em especial à Virgem Imaculada, nos aponta outro caminho surpreendente: o da esperança e da confiança nas novas gerações! Disse-nos Gregório que “o Evangelho nos transmite toda a comovente confiança de um homem ancião no pequeno Jesus. Essa imagem que nos é revelada na apresentação do Senhor é verdadeiramente bela, mais ainda se avaliarmos com que facilidade ao longo da história, adultos e anciãos consideram os jovens como motivo de lamentação”. E para ilustrar, nosso amigo biblista nos surpreendeu com algumas citações que pareciam ter sido colhidas das conversas que circulam nas escolas, nas ruas, nas famílias e em quase todos os ambientes e publicações na atualidade, preocupadas e aflitas com a juventude, e não há centenas de anos:

“A juventude agora um triste lixo. Não tem mais uma gota de bom humor e não faz outra coisa a não ser protestar”.

“Nossa juventude vive na abundância, no luxo. Mal educada, despreza toda autoridade e não demonstra qualquer respeito pelos mais velhos. Nossos filhos são verdadeiros egoístas que frequentemente se rebelam contra os pais”.

“Não há mais nenhuma esperança para o futuro do nosso país quando a ‘desmiolada’ juventude de hoje tiver o poder em mãos, no amanhã.Esta juventude é indomável, sem freio e presunçosa” .

“O nosso mundo chegou a uma situação crítica. Os filhos escarnecem seus pais, são insubordinados é só querem se divertir”

“A nossa juventude está corrompida até a medula e é muito pior que as gerações passadas, esta juventude não terá condições de salvar nossa cultura” .

A assembleia de consagrados reunida em Nazaré se sentiu apanhada, rindo meio sem graça, se reconhecendo na murmuração e no temor perante a juventude do século XXI. Fazemos hoje a mesma coisa que faziam ou fazem os pagãos! Os santos como S. João Bosco e o amadíssimo santo Papa João Paulo II nunca temeram a juventude e depositaram sobre ela toda a sua esperança,vendo-a com os olhos da esperança e do amor, do potencial a ser desabrochado e formado.

O mesmo podermos dizer do nosso também amado e respeitado fundador, Moysés Azevedo, que sendo jovem ofertou sua juventude aos pés de João Paulo II em 9 de julho de 1982, para evangelizar outros jovens levando-os aconhecer Jesus Cristo, o Shalom do Pai, o Ressuscitado que passou Cruz, a única fonte da verdadeira alegria, paz e sentido de vida. Em suas próprias palavras,na Carta escrita à Comunidade na Páscoa de 2005, na introdução, refere-se aos jovens com estas palavras: “Saúdo em particular os jovens, alegria de Deus e minha”.

Quem conhece Jesus não teme a juventude, mas, passa a amá-la como Ele ama. Ao colocarem o Menino nos braços e louvarem a Deus, Ana e Simeão nos ensinam a colocar Nele a confiança, guardando um olhar positivo sobre a realidade, pois Deus se fez criança. Há esperança para o futuro exatamente por causa dos jovens, das novas gerações. Acrescenta  Gregorio: “Não se trata de nos tornarmos pessoas iludidas e incapazes de reconhecer o drama que cerca a vida de milhões de jovens, na violência desconcertante, nas drogas, na banalidade viciante da internet, na vida sem sentido, ou no vazio dos ídolos escolhidos como modelo da existência”.

Jesus e Maria ao apresentarem o Menino no templo nos apresentam Nele a novidade que está presente na vida de cada criança e jovem.Um velho e uma anciã abraçam um bebê, mas naquele Menino abraçam o futuro, o futuro de suas vidas doadas a Deus! A esperança é pequena como é pequena cada criança, porém é uma esperança fecunda de vitalidade e de potencialidade.Simeão e Ana se alegram porque alguém vem depois deles e continuará a obra que eles começaram. Têm a coragem de se alegrar com a própria decadência que dá espaço ao novo, ao que vem a seguir. E isso não é fácil, ‘deixar que o velho que há em nós acolha o Menino’, ou o menino, ou seja, tudo aquilo que é novo e que Deus nos apresenta, muitas vezes de maneira imprevisível e inesperada, no tumulto dos átrios por onde nossas vidas passam e por onde tantos passam também por nós.

Elena Arreguy Sala


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