Não é por acaso que as Sagradas Escrituras descrevem de maneira mais bela e profunda descoberta do amigo: “Amigo fiel é refúgio seguro: quem o encontrou, encontrou um tesouro” (Eclo 6,14).
Quando vamos escrever uma carta ou oferecer um presente para um amigo, geralmente é assim que começamos: “Ao meu amigo”… Mas é necessário começar dizendo que um artigo sobre amizade não pode ser comparado “à carta ao meu amigo!”
A comunicação entre os amigos exprime aquela intensidade afetiva de quem escolheu um ao outro livremente. Surge, então, aquele espaço de mistério de amor que faz com que os amigos “identifiquem-se” mutuamente, embora sejam diferentes. E falar dos seus segredos, das suas angústias, esperanças e alegrias, torna-se bem mais fácil. Os amigos são transparentes! Grande alegria é ter um amigo com quem eu tenha, na sua presença, a liberdade de sentir-me fraco, ser diante dele aquilo que realmente eu sou, pois, mesmo limitado, confio em sua acolhida e compreensão.
Também é verdade que nada substitui o encontro com o amigo. Mesmo que esteja próximo ou distante, estar com o amigo é sempre o nosso maior desejo. Quando o encontro não é possível, utilizamo-nos daquilo que temos à nossa disposição: a carta, o bilhete, o e-mail, a música, o telefonema, a foto, etc. O importante é sempre deixar que o amor se expresse, seja verbalizado ou transformado em atos generosos como frutos da gratidão. O meu amigo precisa saber que o amo e o tenho como amigo. Isso é gratidão! Não há amizade quando não há gratidão. Daí a importância de sempre escrevermos para aqueles que amamos.
“A carta é expressão duradoura da amizade. (…). A amizade precisa da carta em que conto ao amigo o que me impulsiona para frente. (…) As pessoas que nunca trocaram cartas não se conhecem”.
Nunca se necessitou tanto escrever sobre a amizade como nos nossos dias. Isso se dá pelo fato de que o homem moderno, embora seja o protagonista de uma sociedade em desenvolvimento eletrônico e científico, continua cada vez mais isolado e solitário. O homem se aventurou em ir à lua, em construir a bomba atômica, em descobrir o Código Genético (DNA), mas ainda não descobriu a arte de conviver, de relacionar-se, de viver a sua mais sublime vocação ao amor, amor que é doação e comunhão. O homem moderno, conhecedor de tantos idiomas, tem dificuldades para conhecer a linguagem do verdadeiro amor, que é simples e vai acontecendo no encontro com o outro. Portanto, não constrói amizades duradouras, “aquelas que são escritas no céu”.
Talvez isso ainda explique o fato de que os gregos foram apaixonados pela amizade e deram a ela o nome de “Philia” como um dos tipos de amor que marca as relações humanas. Vasta é a literatura deixada como patrimônio de todos os homens, fruto da sabedoria e vida dos filósofos acerca da amizade. Aristóteles é o filósofo que mais escreveu sobre a amizade, chamando-a de virtude, ou seja, “um bem absolutamente necessário para a vida”. Foi ele ainda quem nos forneceu a mais célebre definição de um amigo: “Um amigo é uma única alma habitando em dois corpos.
A amizade sofreu mudanças ao longo do tempo e foi o Cristianismo quem a elevou ao plano mais sublime. O amor “Philia” foi revestido pelo amor “Ágape”, amor de benevolência, de altruísmo, de doação da própria vida pelo amigo. “Tendo amado os seus, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Cristo nos mostrou que é uma necessidade do coração do homem ter amigos. A amizade nos recorda e renova o sentido da vida em Deus e do amor aos homens. “Assim como o Pai me amou, também eu vos amei. Permanecei no meu amor… Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelo seu amigo” (Jo 15,9.13).
A amizade é um dom de Deus e uma escolha nossa que exige a arte do cultivo, da confiança, da fidelidade e da paciência em deixar que a semente cresça. A amizade não pode ser procurada desesperadamente como se fosse fruto das nossas mãos e projetos humanos. Ela nasce da convivência, da escolha e do cultivo. A amizade não se impõe, “cativa-se”, como disse a raposa ao Pequeno Príncipe na obra mais célebre de Saint-Exupéry, escrita em 1942. As diferenças não anulam a amizade.
“Característica da amizade é a certeza de encontrar o imutável no mutável”.
“Não existe amor sem riscos. Não existe amizade sem riscos. Não existe fé sem riscos, não existe confiança sem riscos”. Felizes aqueles que resistem à prova na amizade. Ela é de fato esse selo que se coloca na relação depois de um certo tempo de prova. Portanto, felizes os que têm amigos que permaneceram mesmo quando veio o tempo da adversidade.
A distância não é uma ameaça à amizade, mas prova a sua autenticidade. Ainda seria possível recordar o testemunho da amizade de tantos Santos nas Sagradas Escrituras e na história da Igreja. Aprendamos com elas e nos abramos ao que a Providência de Deus quer realizar em nossas vidas. Saibamos perdoar os nossos amigos e dar-lhes uma outra chance quando erraram na maneira de amar. Perder um amigo é uma experiência profundamente dolorosa. Antecipemo-nos em dar-lhes provas de amor.
Essas palavras são dedicadas a todos os amigos que estão próximos e distantes, nos diversos estados de vida e vocação, no céu e na terra. “Ao meu amigo”… faço memória ainda à pessoa de Nossa Senhora que viveu intensamente a amizade com sua prima Isabel, com seu esposo São José e com o seu amigo João. Que você possa encontrar o seu amigo e dizer-lhe olhando nos olhos: “Amigo, a exemplo da amizade de Jonatan e Davi, que o Senhor esteja para sempre entre mim e ti” (ISm 20,42). Obrigado por sua amizade!
Antonio Marcos de Aquino
Arquivo Shalom 2002