Formação

Apostolado dos Leigos

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1. O SANTO CONCÍLIO, desejando tornar mais intensa aatividade apostólica do Povo de Deus1, volta-se de maneira solícita aoscristãos leigos, cuja responsabilidade, específica e absolutamente necessária,na missão da Igreja já lembrou em outros documentos.2 Pois o apostolado dosleigos, decorrente de sua vocação cristã, nunca pode faltar na Igreja. ÀsSagradas Escrituras provam abundantemente quão espontânea e fecunda foi estaatividade nos primeiros tempos da Igreja

Nosso tempo exige dos leitos um zelo não menor pois ascircunstâncias atuais reclamam deles um apostolado mais intenso e mais amplo.Com efeito, o aumento constante da população, o progresso da ciência e datécnica, as relações humanas mais estreitas, não só aumentaram o campo de açãodo apostolado leigo de maneira extraordinária; campo em grande parte só a elesaberto, mas criaram também novos problemas, que esperam deles um conscienciosocuidado e estudo. Tal apostolado anuncia-se tanto mais urgente, quanto aautonomia de muitos setores da vida humana, como se esperava, se desenvolveu nomáximo, por vezes com desvios de ordem ética e religiosa e com grave perigopara a vida cristã. Além disso, em muitas regiões em que os sacerdotes são tãoescassos ou, como também acontece, estão sendo cerceados em sua liberdade deministério, sem a ação dos leigos, a Igreja mal poderia garantir sua presença eação.

Sinal desta múltipla e urgente necessidade é a açãomanifesta do Espírito Santo, tornando os leigos de hoje mais e mais cônscios daprópria responsabilidade, e estimulando-os por toda a parte para pôr-se aserviço de Cristo e da Igreja.3

Neste decreto, quer o Concílio ilustrar a natureza doapostolado dos leigos, sua índole e possibilidades, enunciando ainda osprincípios fundamentais e transmitindo as instruções pastorais para uma açãomais eficiente. Todas essas indicações sejam normativas para a revisão doDireito Canônico no tocante ao apostolado dos leigos.

3 Cf. Pio XII, Alocução aos Cardeais, 18-2-1946: AAS 38(2946), pp. 101-102. Idem Sermão aos Jovens Operários Católicos, 25-8-1957: AAS49 (1957), p. 843.

 CAPÍTULO I : VOCAÇÃO DOS LEIGOS PARA O APOSTOLADO

 2. Nasceu a Igreja com a missão de expandir o reino deCristo por sobre a terra, para a glória de Deus pai, tornando os homens todosparticipantes da redenção salutar1 e orientando de fato através deles o mundointeiro para Cristo. Todo o esforço do Corpo Místico de Cristo que persiga talescopo recebe o nome de apostolado. Exerce-o a Igreja através de todos os seusmembros, embora por modos diversos. Pois a vocação cristã é, por sua natureza,também vocação para o apostolado. Como não organismo de um corpo vivo, nenhummembro se porta de maneira meramente passiva, mas, unido à vida do corpo,também compartilha a sua operosidade, da mesma forma no Corpo de Cristo, que éa Igreja, todo o corpo “segundo a atividade destinada a cada membro, produz oengrandecimento do corpo” (EF. 4,16). Mais. Tão grande é neste corpo a conexãoe a coesão dos membros (cf. Ef 4,16), que o membro que não trabalha para oaumento do Corpo segundo sua medida, deve considerar-se inútil par a Igreja epara si mesmo.

Existe na Igreja diversidade de serviços, mas unidade demissão. Aos Apóstolos e a seus sucessores foi por Cristo conferido o múnus de,em nome e com o poder d’Ele, ensinar, santificar e reger. Os leigos, por suavez, participantes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo,compartilham a missão de todo o povo de Deus na Igreja e no mundo.2 Realizamverdadeiramente apostolado quando se dedicam a evangelizar e santificar oshomens e animar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho, demaneira a dar com a sua ação neste campo claro testemunho de Cristo e a ajudarà salvação dos homens. Já que é realmente característico do estado leigo viverem meio ao mundo e aos negócios seculares, são eles chamados por Deus para,abrasados no espírito de Cristo, exercerem o apostolado a modo de fermento nomundo.

2 Conf. Conc. Vat. II Const. Dogm. Sobre a Igreja, LumenGentium, n. 31: AAS 57 (1965), p. 37.

 

[Fundamentos do Apostolado dos Leigos]

 

 

3. Os leigos derivam o dever e o direito do apostolado desua união com Cristo-Cabeça. Pois, inseridos pelo batismo no Corpo Místico deCristo, pela confirmação robustecidos na força do Espírito Santo, recebem dopróprio Senhor a delegação ao apostolado. São consagrados para formar osacerdócio régio e povo santo (cf. 1Ped 1,4-10), de sorte que por todas asobras ofereçam hóstias espirituais, e por toda a parte apresentem o testemunhode Cristo. Pelos Sacramentos, porém, particularmente pela SS. Eucaristia,comunica-se e alimenta-se aquela caridade que é como que a alma de todoapostolado.3

3 Cf. Ibid., n. 33, p. 39; cf. ainda n. 10, p. 14.

 

Exercem o apostolado na fé, esperança e caridade, virtudesque o Espírito Santo derrama nos corações de todos os membros da Igreja. Mais,Pelo preceito da caridade, que é o maior mandamento do Senhor, não instados oscristãos todos a promoverem a glória de Deus pelo advento de Seu reino e aconseguirem a vida eterna em favor de todos os homens: para que conheçam oúnico Deus verdadeiro e àquele a quem enviou, Jesus Cristo (cf. Jo 17,3).

Impõe-se pela a todos os cristãos o dever luminoso decolaborar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e acolhida portodos os homens em toda a parte.

para exercerem tal apostolado, o Espírito Santo – que operaa santificação do povo de Deus através do ministério e dos sacramentos –confere ainda dons peculiares aos fiéis (cf. 1Cor 12,7), “distribuindo-os atodos, um por um, conforme quer” (1Cor 12,11), de maneira que “cada qual,segundo a graça que recebeu, também a ponha a serviço de outrem” e zelam elespróprios “como bons dispensadores da graça multiforme de Deus” (1 Ped 4,10),para a edificação de todo o corpo na caridade (cf. Ef 4,16). Da aceitaçãodestes carismas, mesmo dos mais simples, nasce em favor de cada um dos fiéis odireito e o dever de exercê-los para o bem dos homens e a edificação da Igreja,dentro da Igreja e do mundo, na liberdade do Espírito Santo, que “sopra ondequer” (Jo 3,8), e ao mesmo tempo na comunhão com os irmãos em Cristo, sobretudocom seus pastores, a quem cabe julgar sobre a autenticidade e o uso doscarismas dentro da ordem, não por certo para extinguirem o Espírito, mas paraprovarem tudo e reterem o que é bom (cf. 1 Tess 5,12.19.21).4

 

[Espiritualidade dos Leigos Orientada para o Apostolado]

 

4. Uma vez que Cristo, enviado pelo Pai, é fonte e origem detodo apostolado da Igreja, torna-se evidente que a fecundidade do apostoladodos leigos depende de sua união vital com Cristo. Pois é o Senhor quem diz:“Quem permanecer em Mim e Eu nele, este dá muito fruto, porque sem Mim nadapodeis fazer” (Jo 15,5). Esta vida íntima de união com Cristo na Igrejaalimenta-se por meios espirituais, comuns a todos os fiéis, principalmente pelaparticipação ativa na Sagrada Liturgia.5 Devem ser de tal sorte utilizadospelos leigos, que estes, enquanto cumprem corretamente as funções mesmas domundo nas condições ordinárias da vida, não separem a união com Cristo de suavida, mas cresçam nela enquanto realizam o próprio trabalho segundo a vontadede Deus. É mister que os leigos progridam por este caminho na santidade comespírito disposto e alegre, fazendo o possível por vencer as dificuldades comprudência e paciência.6 Nem os cuidados pela família, nem os demais assuntosseculares devem ser estranhos à espiritualidade da sua vida, segundo aexpressão do Apóstolo: “O que quer que fizerdes por palavra ou por ação,fazei-o em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças a Deus Pai por ele” (Col.3,17).

5 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sobre a Sagrada Liturgia,Sacrossanctum Concilium, cap. 1, n. 11: AAS 56 (1964), pp. 102-103.

6 Cont. Com. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, LumenGentium, n. 32: AAS 57 (1965), p. 38; cf. também nn. 40-41, pp. 45-47.

Tal vida reclama o exercício contínuo da fé, esperança ecaridade.

Só pela luz da fé e meditação da palavra de Deus podealguém, sempre e por toda a parte, divisar Deus em quem “vivemos e nos movemose somos” (At 17,28), procurar em todo o acontecimento Sua vontade, ver Cristoem todos os homens, sejam parentes sejam estranhos, proferir julgamentoscoretos sobre o verdadeiro significado e valor das coisas temporais em simesmas e em relação ao fim do homem.

Os que possuem tal fé vivem na esperança da revelação dosfilhos de Deus, lembrados da cruz e da ressurreição do Senhor.

Na peregrinação desta vida, escondidos com Cristo em Deus elivres da escravidão das riquezas, enquanto anciam pelos bens que duram sempre,dedicam-se inteiramente, com espírito generoso, à expansão do reino de Deus e àtarefa de animar e aperfeiçoar a ordem das coisas temporais dentro do espíritocristão. Nas adversidades desta vida, encontram coragem na esperança,considerando que “os sofrimentos deste tempo não se comparam com a futuraglória que há de revelar-se em nós” (Rom 8,18).

Movidos pela caridade que vem de Deus, praticam o bem paracom todos, máxime para com os irmãos na fé (cf. Gál 6,10), depondo “todamalícia e falsidade, simulações e invejas, e toda a sorte de maledicência” (2Ped 2,1), atraindo assim os homens para Cristo. A caridade de Deus por sua vez,“difundida que está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”(Rom 5,5), torna os leigos capazes de exprimirem de fato em sua vida o espíritodas bem-aventuranças. Seguindo a Jesus pobre, não se deprimem na pobreza nem seenvaidecem com a abundância dos bens temporais. Imitando a Cristo humilde, nãoambicionam a glória vã (cf. Gál. 5,16). Esforçam-se antes por agradarem mais aDeus que aos homens, sempre prontos a tudo abandonarem por Cristo (cf. Lc14,26) e a sofrerem perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5,10), lembradosda palavra do Senhor: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tomea sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Cultivando entre si a amizade cristã, prestam-semútua ajuda em qualquer necessidade.

Esta espiritualidade dos leigos deve revestir-se decaracterísticas peculiares conforme o estado de cada um: vida matrimonial efamiliar, celibato ou viuvez, doença, atividade profissional e social. Nãodeixem portanto de aperfeiçoar constantemente as qualidades e dotes que lhesforam outorgados correspondentes a tais condições, e de usar os donsapropriados recebidos do Espírito Santo.

Além disso, os leigos que, por vocação, se inscreveram emalguma das associações ou institutos aprovados pela igreja, reforcem-se porassimilar fielmente as características da espiritualidade que lhes é própria.

Tenham igualmente em alta estima a competência profissional,o espírito de família e de civismo, bem como aquelas virtudes que fazem partedas relações sociais, a saber, a honestidade, o espírito de justiça, aautenticidade, a afabilidade, a coragem pois sem elas nem a verdadeira vidacristã pode subsistir.

Modelo perfeito desta vida espiritual e apostólica é abem-aventurada Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos. Enquanto levou na terra vidaigual à de todos, cheia de cuidados familiares e de trabalhos, estava sempreintimamente associada ao Filho, cooperando de modo absolutamente singular naobra do Salvador. Agora, porém, elevada ao céu, “com amor materno se empenhapelos irmãos de seu Filho que ainda peregrinam, expostos a perigos e angústias,até que sejam conduzidos à pátria feliz”. A ela venerem todos com a maiordevoção e entreguem a vida e o apostolado à sua maternal solicitude.

Carta sobre o Apostolado dos Leigos – Concílio Vaticano II

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