Formação

Aprenda a superar as crises familiares

comshalom

Ana Carla Bessa

Missionária da Comunidade Shalom

 

     Até o matrimônio mais feliz está sujeito a crises, queprecisam ser vistas como um fenômeno de crescimento do amor conjugal e não comorazão para a separação. Um matrimônio cujos cônjuges jamais discordam é preocupante.Será que eles são iguais em tudo ou uma personalidade está se sobrepondo àoutra, que por sua vez não se revela ao outro na sua verdade? Uma passagembíblica me faz lembrar os falsos relacionamentos, aqueles que precisamamadurecer, e cujo crescimento é às vezes bem doloroso: “Subirei contra um povotranqüilo e os tirarei de sua falsa paz”. E há uma passagem nas Regras de Vidada Comunidade Shalom que, acredito, completa o ciclo que vai da falsa àautêntica paz matrimonial: “A verdadeira paz não vem dos homens, mas de Deus”(RVS, 355). Dependendo de como será vivida, cada crise, mesmo a mais penosa,pode levar ao aprofundamento do amor entre os esposos e ao fortalecimento cadavez maior do matrimônio. Vamos refletir sobre isto?

Uma escolha livre

    Antes de tudo, talvez seja preciso compreendermos que omatrimônio não é “questão de sorte”, como alguns costumam dizer. Ele é fruto deuma escolha livre que cada um fez. É verdade que há esposos que se escolheramapressadamente e por razões pouco consistentes, mas nunca podemos esquecer que,através do Sacramento do Matrimônio, Deus nos concedeu uma graça da qualpodemos lançar mão para que seja ratificada esta escolha e “aumentada” asemente da afeição que um dia tivemos um pelo outro. Esta semente, que nos moveua subir ao altar, pode, pela graça de Deus, desabrochar e crescer como umagrande árvore cheia de frutos e frondosos galhos capazes de fazer sombra e“abrigar toda espécie de pássaros”, como diz o Livro do Profeta Isaías.

    Esta livre escolha não é uma “cruz” para se carregar pelavida como um “fardo”. A cruz do matrimônio vem de fora, do demônio e do pecadodos homens, como a cruz que Jesus um dia carregou por amor a nós. O nossoesposo ou esposa jamais é a “nossa cruz”. O demônio bem que gostaria que pensássemosassim… Mas se Jesus tivesse pensado assim nós nunca poderíamos ser salvos. Acruz pode vir do pecado do outro, mas ela não é o outro. O outro é uma bênção,um presente de Deus na minha vida; o outro é um mistério, um desafio, oinstrumento que eu preciso para chegar a Deus, felicidade suprema!

    Por isso, nos momentos de crise de nada adiantam asagressões, as lamentações ou revanches. Também de nada adianta culpar a famosa“incompatibilidade de gênios”, pois não existem pessoas absolutamente iguais.Ao contrário de afastar, toda diferença pode ser ajustada, ao ponto de nosfazer funcionar como rodas dentadas de uma máquina, cuja força consistejustamente em se ajustarem nos pontos desiguais. Se alcançarmos isto, viveremosum amor vitorioso sobre nossos pecados e suas conseqüências, experimentaremosconcretamente no matrimônio a vitória de Cristo, e a verdadeira paz seráalcançada.

A adaptação

    Um longo matrimônio pode vir a atravessar muitas crises. Umadelas é a crise na adaptação física e/ou psicológica, que pode surgir no iníciodo matrimônio e ser superada, entretanto pode ser camuflada por anos a fio, atéque um dia exploda tragicamente. Cada um dos esposos traz para o matrimôniomodelos às vezes muito fortes das relações entre os pais, de sonhos que pormuito tempo alimentaram sua imaginação, mas que não correspondem à realidade.Pretender adaptar o outro a seus modelos ou ressentir-se com ele por isto égrande prova de imaturidade, e razão suficiente para orar sobre si mesmoministrando a Palavra de Deus que diz: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos ea carne da minha carne!… Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe paraligar-se à sua mulher, e se tornam uma só carne” (Gn 2,23.24).

    As crises financeiras, pelas quais passam os cônjuges, podemafetar seriamente a relação conjugal, se estes não buscarem em Deus a graçapara resistir às suas conseqüências, e conservar a unidade. Neste momento,podem surgir acusações mútuas, sentimentos de inferioridade ou superioridade, ea falta do dinheiro pode se tornar o “bode expiatório” de ressentimentosantigos ou da preguiça de dialogar.

    Às vezes pensamos que a infidelidade começa quando um dosparceiros se entrega a uma “paixão”, mas ela pode começar bem antes, nocoração, quando começamos a nos fechar em nós mesmos, analisando os erros um dooutro e desnudando-o diante de terceiros. De nada adianta tal atitude que, alémde “envenenar” o relacionamento, pode nos colocar na mão de falsosconselheiros, que infelizmente se alimentam e até se alegram em aumentar adivisão entre os dois.

    É claro que existem também aqueles que têm boa vontade emajudar, mas não conseguem ver que neste tipo de confidências apenas um dos doisteve o direito de falar e na maioria das vezes trará somente suas “razões”,pois não consegue ver as do outro. Ocorre-me um trecho do Evangelho que nessemomento se encaixa com perfeição para prevenir os arranhões diários que podemminar o amor dos esposos: “Por que reparas o cisco que há no olho do irmão, enão vês a trave que está no teu?” (Mt 7,1-5).

    Outra crise bem séria é a do envelhecimento das relações, afamosa “perda da novidade”, que pode acabar em infidelidade. Esquecidosde que todo ser humano será sempre um mistério e uma novidade, um ou ambospodem projetar seu próprio tédio interior no rosto do outro, e achar que vãoreencontrar a alegria numa outra companhia. Não raro, depois de algum tempo ocônjuge que buscou uma nova aventura acabará se encontrando com seu própriocansaço, e queira Deus que ainda haja como retornar, pois já terá envolvidomuitos outros na sua decisão precipitada. 

Permanecer fiel

    O que leva um casal, que foi capaz de enfrentar tantosdesafios juntos, a desistir num momento que deveria ser o mais feliz etranqüilo de sua relação? Este, que seria o período da colheita, o tempo maisrico e precioso da vida conjugal, transforma-se tantas vezes em motivo dedescaso ou implicâncias mútuas. O medo do envelhecimento, da morte corporaltambém pode gerar a falsa ilusão de que uma companhia mais jovem pode lhe trazerde volta os anos “perdidos” ou retardar um tempo tão precioso que é a terceiraidade. Gostaria de colocar aqui o pensamento de uma mulher que viveu bem todasas fases da sua vida e certamente estava cheia de Deus quando o externou: “Achoque as diversas etapas de nossa vida temos que vivê-las alegremente na graça doSenhor. A velhice bem vivida é uma fonte de paz, já que temos passado a épocade maiores trabalhos, restando-nos aguardar a vinda do Senhor para gozá-loeternamente”.

    Contudo, o trágico disso é que, seja qual for o motivo dacrise, tem ficado cada vez mais freqüente a idéia de que o divórcio é a únicasolução para o problema, de modo que cada um possa “ir para o seu lado” comoquem desfaz um acordo de negócios.

    É claro que quando a violência física, psicológica ou moraltorna um dos cônjuges um perigo para a saúde do outro e dos filhos, a separaçãopode ser o único meio de preservá-los, mas nunca podemos esquecer que ela éincapaz de gerar a quebra do vínculo matrimonial, pois o divórcio civil de nadaadianta no plano religioso. Espiritualmente, ainda somos responsáveis um pelooutro até o dia da sua morte. E mesmo que o outro já não esteja disposto a umareconciliação, será sempre digno do nosso perdão, do nosso respeito, das nossasorações, porque Jesus mereceu isto por ele na Cruz.

    Por isso, ao invés de desistir no meio da luta, vale a penaperseverar até o fim, ou, se por acaso ocorreu a separação, orar e esperar compaciência, pois ainda pode ser que um dia Deus nos conceda a graça de “casar pelasegunda vez” com a mesma pessoa, o que será um gesto humano extraordinário.Este segundo casamento, obviamente não consiste nem requer repetição do ritomatrimonial, nem o relacionamento do casal será repetitivo, porque um homem euma mulher renovados estão ali, ainda mais lúcidos do que antes, dispostos aretomar sua unidade. Mas seu “novo casamento” se beneficiará da experiênciaadquirida antes para que o amor seja retomado onde houve a ruptura.

    O Evangelho de São João narra que Jesus ressuscitado apareceuaos seus discípulos reunidos e proclamou: “A paz esteja convosco”. Vitorioso,cheio de poder, Cristo é a nossa paz, o Shalom do Pai, que vem estabelecerentre nós a paz verdadeira, não baseada em nossos desejos egoístas, nem em umajustiça meramente humana, nem na ausência de diferenças, porque esta paz seriauma ilusão. Por isso precisamos deixar que Ele pacifique a nossa confusãointerior, a luta das nossas paixões, nosso egoísmo, e transforme nosso orgulhoe vaidade em mansidão e humildade. O sacramento do Matrimônio traz consigo oremédio certo para este amor que deve crescer sempre: A oração e a Eucaristia,que trazem o Cristo vivo para dentro de nós, renovando estas graças e asmultiplicando dia após dia. Que Jesus, nossa paz, renove ainda hoje em sua casao amor familiar onde este necessitar ser renovado!

 

Bibliografia consultada:

Philippe, Marie-Dominique. No coração do Amor. São Paulo:Paulinas, 1997.

Regras de Vida da Comunidade Católica Shalom.


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