No dia 2 de novembro, a Igreja nos reúne para rezar pelos que morreram na amizade de Deus, mas não ainda inteiramente purificados: a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Nesta data, há três opções de Evangelhos e aqui meditaremos o das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a), o mesmo que é proclamado na Solenidade de Todos os Santos. E isto é providencial, pois o caminho que os Santos trilharam e que os celebramos no dia 1º é o mesmo para nós hoje que ainda militamos nesta terra. Antes de serem uma “lista”, as Bem-aventuranças são o retrato de Jesus. Ele é o pobre, o manso, o misericordioso, o puro, o pacífico, o perseguido por causa da justiça. Por isso, quem vive assim já participa da felicidade futura, mas ainda não na plenitude (cf. 1Jo 3,2).
O livro do Apocalipse nos diz: “Felizes os mortos, os que desde agora morrem no Senhor…que descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham” (Ap 14,13). Se as obras os acompanham, então vale a pena meditar sobre este caminho (e suas obras) que nos levará para a felicidade eterna.
No nosso podcast desta semana (cf. https://youtu.be/y682rId6DJA), meditamos nove pontos que podem ajudar na sua oração com este Evangelho.
- Os pobres de espírito
O Cardeal Raniero Cantalamessa, distingue quatro tipos de pobrezas, duas materiais e duas espirituais. I-(a) Pobreza material negativa: a miséria que desumaniza e que fere a dignidade e deve ser combatida; (b) Pobreza material positiva: a do desapego evangélico, livremente abraçadas por amor; II-(a) Pobreza espiritual negativa: de quem vive sem os valores e sem Deus; (b) Pobreza espiritual positiva: a que Jesus fala nesta bem-aventurança, a humilde confiança no Pai.
O pobre evangélico é quem se entrega: não é apenas “não ter”, é dar-se (Maria, José, os apóstolos) à imagem de Jesus que “se fez pobre” (2Cor 8,9) por amor; e como exemplos de ricos “pobres” temos Zaqueu e José de Arimateia. A maior pobreza do nosso tempo é viver sem Deus; é a esta que somos enviados.
- Os aflitos (os que choram)
Há lágrimas por perdas e dores (Jesus chorou por Lázaro; Maria Madalena pelo “roubo” o Senhor) e lágrimas de conversão (a da pecadora (cf. Lc 7,36-50), as de Pedro que “chorou amargamente” (Lc 22,62)). Na Comemoração dos Fiéis Defuntos, o Evangelho legitima o nosso luto e aponta para uma promessa: “…serão consolados”. O Senhor, que “enxugará toda lágrima” (Ap 21,4), transforma o pranto em esperança.
- Os mansos
Esta mansidão não é questão de temperamento; é força sob domínio e coração entregue. Jesus soube ser manso e soube ser firme. O manso confia: não busca vingança, não alimenta rancor, entrega a causa ao Justo Juiz. É um modo de viver, não um momento isolado.
- Os que tem fome e sede de justiça
Aqui, “justiça” é santidade. Quem tem fome e sede de justiça deseja ser como Jesus. É a inquietação boa de quem reza: “Sede santos, porque Eu sou santo.” (Lv 19,2; 1Pd 1,16). É também o empenho concreto por retidão e reparação, do íntimo ao cotidiano.
- Os misericordiosos
Usar de misericórdia é parecer-se com o Pai das misericórdias (cf. Lc 15,11-32). Quem é misericordioso, será “misericordiado”. A Igreja pede que intercedamos pelos fiéis defuntos exatamente por crer que a misericórdia não revoga a justiça: a supera e a consuma.
- Os puros de coração
“Os puros verão a Deus.” Pureza não é uma ideia abstrata: é ter o coração indiviso, um olhar limpo que aprende a contemplar. A vida de oração sustenta a castidade e a castidade guarda a oração. Quem subirá ao monte do Senhor? O de mãos inocentes e de puro coração (cf. Sl 24(23),3-4).
- Os promotores da paz
“Os pacíficos serão chamados filhos de Deus.” Jesus é a nossa paz (cf. Ef 2,14), o Príncipe da Paz (cf. Is 9,5). Quem semeia a paz revela uma filiação divina. A promoção da paz começa em casa, passa pelo perdão e deságua na Jerusalém celeste, para onde caminhamos com os que amamos.
- Os perseguidos por causa da justiça
Quem procura viver como Jesus acabará também sendo perseguido. “O servo não é maior que seu Senhor. Se eles me perseguiram, também vos perseguirão” (Jo 15,20).
- Quando vos injuriarem, perseguirem…
A última bem-aventurança se torna pessoal: “Felizes sois vós…”. Quando a fidelidade custa, o discípulo participa da cruz do Senhor e recebe a alegria como prêmio antecipado e a promessa de uma grande recompensa.
Conclusões práticas
- Escolha uma bem-aventurança talvez a mais desafiadora para você e faça dela sua via de conversão nesta semana de modo concreto.
- Examine seu desejo de santidade: o que hoje lhe afasta do caminho das Bem-aventuranças?
- Cumpra os requisitos para a indulgência por alguém falecido que o Senhor lhe inspirar a rezar.
- Transforme o luto em caridade: um telefonema, um perdão, um gesto de paz.
- Alimente a esperança: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25).
- Confie na eficácia humilde da oração: Deus escuta a quem pede com fé.
Passos da Lectio Divina
- Leitura (lectio): Leia Mateus 5,1-12a com calma. Sublinhas as palavras que te tocam (p. ex.: “pobres”, “choram”, “misericordiosos”, “perseguidos”).
- Meditação (meditatio): Qual bem-aventurança Deus te chama a viver ou a crescer? Onde te falta mansidão, pureza, misericórdia, fome de santidade…
- Oração (oratio): Reze: “Jesus manso e humilde de coração, faz o meu coração semelhante ao teu. Dá-me lágrimas de arrependimento, sede de santidade e um coração misericordioso.”
- Contemplação (contemplatio): Permaneça um instante em silêncio. Deixe a paz de Cristo pousar no seu coração e entregue a Ele os que você ama e que já partiram.
- Ação (actio): Ofereça um sufrágio por um fiel defunto (Missa, comunhão, terço, visita ao cemitério). Pratique hoje um gesto de mansidão ou um ato de misericórdia que você vinha adiando.
Por que a Comemoração dos Fiéis Defuntos?
- Porque lembrar os nossos mortos é confessar o destino eterno e reforçar o nosso caminho; as Bem-aventuranças nos preparam para este encontro.
- Para viver a Comunhão dos Santos, nós que continuamos nesta terra (Igreja militante), rezamos pelos que se purificam no Purgatório (Igreja padecente), sustentados pela intercessão dos Santos no Céu (Igreja triunfante).
- Para usufruir do valor da oração e das indulgências que é um ato de fé na justiça e na misericórdia divina. Não é algo “automático”; Cumpridas as condições ordinárias (estado de graça, confissão, comunhão, oração nas intenções do Papa, visita piedosa ao cemitério), Deus cumpre o que a Igreja estabeleceu pelo “Poder das Chaves” (cf. Mt 16,19).
Até a próxima semana.
Shalom!