Formação

As “fases” da Páscoa

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Você sabe que a lua, a cada mês, passa por quatro fases: lua nova, quarto crescente, lua cheia e quarto minguante. Você sabe também (será que sabe?) que, tanto para os judeus como para os cristãos, a data da Páscoa depende de uma das fases da lua, isto é, da lua cheia de abril. Se, para nós, abril corresponde à estação do outono, no hemisfério norte, abril é tempo de primavera, a estação da renovação da vida. Quando o povo de Israel foi libertado do Egito e celebrou a primeira Páscoa, era primavera. Quando Jesus foi crucificado e morto, e em seguida ressuscitou, era primavera. Tanto para Israel quanto para Jesus, a Páscoa foi o início de uma VIDA NOVA!


Para nós, cristãos, a Páscoa é o ponto alto da nossa Liturgia e deve ser – e será – também o ponto alto da nossa vida. Como, porém, tudo é medido pelo tempo, também a Páscoa – como a lua – tem suas “fases”. Vou enumerá-las aqui para que você celebre bem a Páscoa deste ano e a Páscoa da sua vida.

A Páscoa de Israel – Como acenei acima, foi instituída por Deus, através de Moisés, para comemorar a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. Você encontra uma descrição minuciosa desse rito no Livro do Êxodo. Em síntese, na noite da libertação, os judeus, por famílias ou por grupos de famílias, deviam matar um cordeiro, assá-lo e depois comê-lo, em pé, com o cajado na mão, prontos para partir. O cordeiro era consumido junto com ervas amargas que lembravam as amarguras da escravidão. O pão era sem fermento porque, pela pressa da fuga, não tivera tempo de levedar. Os judeus deviam também marcar com o sangue do cordeiro imolado as portas de suas casas, pois, naquela noite, o anjo exterminador haveria de “passar” (páscoa significa “passagem”) e matar todos os primogênitos do Egito, inclusive o do faraó; o anjo pouparia as casas dos hebreus que estivessem assinaladas pelo sangue do cordeiro. Assim foi feito. Celebrada a ceia pascal naquela noite, os hebreus fugiram e ficaram livres da escravidão do faraó. Assim, a Páscoa não significou somente a “passagem” do anjo exterminador, mas também a “passagem” do povo de Deus da escravidão para a liberdade. Através dos séculos até hoje, os judeus celebram a Páscoa para recordar as maravilhas que o Senhor fez por eles ao libertá-los da escravidão e ao conduzi-los até a terra prometida. Esta, em síntese, é a primeira “fase” da Páscoa, a Páscoa dos judeus.

A Páscoa de Jesus – Teve dois momentos: a última ceia e a crucifixão, morte e ressurreição do Senhor, momentos que nós, cristãos, celebramos e revivemos no tríduo pascal, a começar da quinta-feira santa à tardinha até o domingo de Páscoa. Jesus é o novo Moisés que conduz toda a toda a humanidade (não só o povo hebreu) da terra da escravidão do pecado e da morte para a terra da graça e da vida eterna. Jesus é de fato o grande Libertador. Não só, Jesus é também o novo cordeiro pascal imolado na cruz, cujo sangue nos livrou do pecado e nos comunica a vida (Eucaristia). O momento alto da vida de Jesus foi o Calvário: pregado na cruz, Ele ofereceu ao Pai por nós todo o seu amor, entregou voluntariamente sua vida; ressuscitando, venceu a morte, derrotou o pecado e o diabo, e abriu para nós o caminho da vida eterna. Esta foi a Páscoa de Jesus, isto é, sua “passagem” da morte para a vida, proporcionando também para nós a “passagem” do pecado para a graça, da escravidão para a liberdade dos filhos de Deus, da morte para a vida eterna. Na última ceia, Jesus antecipou, sob a forma de um rito a ser renovado perpetuamente (a Missa), os acontecimentos do Calvário. No ritual da última ceia, Jesus era o cordeiro pascal que haveria de ser imolado na sexta-feira santa. Desse modo, a Páscoa de Jesus foi ritualmente condensada na última ceia a ser perpetuada através dos séculos pela celebração da Eucaristia. Cada vez que se celebra a Eucaristia se celebra a Páscoa do Senhor… e a nossa Páscoa também.

A Páscoa do cristão/ã (I) – É o Batismo. Como ensina São Paulo, pelo Batismo, somos tornados semelhantes a Jesus Cristo em sua morte e em sua ressurreição. Com Cristo, somos sepultados na morte; com Cristo, ressuscitamos para a vida eterna. É a nossa libertação. Jesus ensinou a Nicodemos que “quem não renascer pela água e pelo Espírito Santo não pode entrar no Reino de Deus”. O Batismo nos liberta da escravidão do pecado, do diabo e da morte e nos introduz na terra prometida da vida com Deus. É a nossa “passagem”, a nossa Páscoa. Por isso, a celebração do tríduo pascal é um convite a retornarmos ao momento do nosso Batismo quando fomos lavados por Cristo e tornados filhos/as e Deus. É de fato verdade que o Batismo é a Páscoa do cristão.

A Páscoa do cristão/ã (II) – O Batismo se desdobra ao longo de toda a vida do cristão. A morte ao pecado e a ressurreição para a vida divina deve ser o contínuo esforço do cristão. A vida cristã não é outra coisa senão o seguimento de Cristo até a cruz e a ressurreição. A vida divina acolhida em nós pelo Batismo se alimenta da Palavra de Deus, da fé, esperança e caridade, dos Sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, da oração, da renúncia ao mal sob todas as formas que ele assume em cada um de nós e na sociedade como um todo. A vida cristã deve ser uma contínua Páscoa, isto é, “passagem” do pecado para a graça, da morte para a vida, da renúncia ao diabo para o seguimento de Jesus.

A Páscoa do cristão/ã (III) – O Batismo, pelo qual morremos com Cristo e com Cristo ressuscitamos, assume forma concreta no momento da nossa morte e da nossa ressurreição: a morte, em qualquer momento do tempo; a ressurreição, no fim dos tempos, como prometeu Jesus. A nossa morte e a nossa ressurreição tornarão plena a Páscoa em nós, pois provocarão a “passagem” definitiva para a vida eterna. Então, seremos semelhantes a Cristo Ressuscitado! Ele é a Páscoa definitiva, e nós, com Ele, participaremos da sua Páscoa para sempre.

Como você vê, a Páscoa é um acontecimento “complexo”, ou como disse no início, a Páscoa tem “fases”: o que em Jesus foi um processo de alguns dias, em nós será um processo longo tanto quanto Deus permitir e terá seu acabamento no dia do grande Retorno do Senhor na glória. Naquele grande Dia, a Páscoa desembocará na glória e estaremos para sempre com o Senhor.

Por tudo isso você vê que o fato fundamental da sua vida, depois do nascimento, é o seu Batismo, a primeira fase da “sua” Páscoa. A Páscoa dura toda a vida. Portanto, a vida cristã consiste em viver o próprio Batismo, ou seja, consiste na “passagem” diária da morte para a vida divina. Não é questão de multiplicar práticas religiosas, mas de viver com intensidade e com fidelidade a “sua” Páscoa.

Dom Hilário Moser, SDB
Doutor em Teologia Dogmática pela Pontificia Università Salesiana, de Roma, lecionou por vários anos no Instituto Teológico Pio XI, de São Paulo.


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