Na primeira e segunda parte desse nosso estudo vimos que a Sagrada Escritura é uma carta de amor, é a maneira que o Pai encontra para entreter-se amorosamente com seus filhos e conversar com eles, como então devemos lê-la?
Nada melhor do que procurar na própria Palavra de Deus e na Tradição da Igreja a resposta para esta pergunta.
UM POUCO DE HISTÓRIA
Como vimos acima, o Antigo e o Novo Testamento não sistematizam uma técnica de leitura, mas dão dicas importantes para aprender a ler a Bíblia: leitura em voz audível, escuta atenta, conservação da Palavra no nosso coração (decorar), empenho de colocá-la em prática, perseverança neste empenho.
Na história da Igreja, o primeiro que fala de forma mais explícita sobre a maneira que devemos ler a Palavra de Deus é Orígenes. Nos seus escritos aparecem pela primeira vez o termo lectio divina. Ele diz que, para ler a Bíblia é necessário um esforço de atenção e de assiduidade:
“Cada dia de novo, como Rebeca, temos de voltar à fonte da Escritura!” E o que não se consegue com o própria esforço deve ser pedido na oração, “pois é absolutamente necessário rezar para poder compreender as coisas divinas”. Deste modo chegaremos a experimentar o que esperamos e meditamos.
Em torno da Palavra, ouvida, meditada e rezada, surgiu e se organizou o monaquismo do deserto. As sucessivas reformas e transformações da vida religiosa sempre retornavam lectio divina como a sua marca registrada. As regras monásticas de Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento fazem da leitura da Bíblia, junto com o trabalho manual e a liturgia, a tríplice base da vida religiosa.
Por volta do ano 1150, um monge cartuxo chamado Guigo II escreveu uma carta a seu irmão Gervásio na qual sistematizou a lectio divina em quarto degraus: “Um dia, ocupado no trabalho Manual, começou a pensar no exercício espiritual do homem. E eis que, de repente, enquanto refletia, se apresentam a meu espírito quarto degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação.
“Esta é a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu. Embora dividida em poucos degraus (leitura, oração meditação e contemplação), ela é de imenso e incrível comprimento, com a ponta inferior apoiada na terra, enquanto a superior penetra as nuvens e perscruta os segredos do céu (cf. Gn 28,12)”
Para detalhamento desta comparação, ler o item posterior do nosso estudo.
Nesta descrição dos quarto degraus, Guigo sintetiza a tradição e a transforma em instrumento de leitura para servir de instrução aos jovens que se iniciavam na vida monástica.
No século XIII, os mendicantes tentaram criar um novo tipo de vida religiosa, mas inserida no meio dos pobres. Eles fizeram da lectio divina a inspiração do seu movimento renovador, como transparece na vida e nos escritos dos primeiros franciscanos, dominicanos, carmelitas e outros. Eles souberam colocar a lectio a serviço do povo pobre e marginalizado da época.
Houve um longo período que a lectio divina arrefeceu, era o efeito da contra-reforma na Igreja. O medo do protestantismo fez perder o contato com a fonte. O Concílio Vaticano II retomou a tradição antiga e no seu documento Dei Verbum (DV 25) recomenda com grande insistência este método de leitura. A lectio divina reaparece no meio das comunidades pobres, dos movimentos eclesias e das novas comunidades, primeiro sem este nome, posteriormente, sendo cultivada explicitamente. Graças a este movimento do Espírito, a lectio retornou aos conventos e aos seminários (dos mosteiros ela nunca esteve ausente).
LEIA TAMBÉM | A parábola do servo inútil: crescer na fé e servir com humildade
A DINÂMICA DA LECTIO: 4 DEGRAUS
Guido II, na sua carta já citada, compara a lectio como uma escada composta de quarto degraus:
“Qual primeiro fundamento, vem a leitura. Ela fornece o material e nos leva à meditação.
“A meditação por sua vez, perscruta com maior diligência o que se deve desejar, e como que cavando, acha e mostra o tesouro. Mas, como não pode por si mesma obtê-lo, leva-nos à oração.
A oração, elevando-se a Deus com todas as suas forces, obtém o tesouro desejável, a suavidade da contemplação.
“Sobrevindo a contemplação, ela recompensa o trabalho dos três degraus referidos, embriagando a alma sedenta com o orvalho da doçura celeste”.
Devemos entender esta comparação não como passos sucessivos de um método. Estes “degraus” não são mais que movimentos, etapas de um caminho que se percorre. Sem dúvida a primeira etapa, a leitura, deve ser percorrida sempre, mas a partir daí, o Espírito Santo pode nos levar diretamente à contemplação ou à oração sem passar pela meditação; ou nos fazer deter mais na meditação. Às vezes, quando se chega à oração ou contemplação, pode-se voltar à leitura.
Além disso, a lectio oferece uma tal elasticidade que se pode recriar e adaptá-la para pessoas e grupos levando em conta idade e situação. Isso significa que não existe O método, mas vários métodos. Tantos quantos são o número das pessoas que se aproximam da Palavra de Deus. É preciso que cada um vá descobrindo a sua forma de ler a Sagrada Escritura, a “sua” lectio. Para fazermos isso é preciso experimentar a maior quantidade de métodos possíveis (daqueles que estão ao nosso alcance) para escolher o que mais me ajuda a mergulhar na Palavra do Senhor e encontrar Cristo nela. Para fazer este caminho é muito salutar contar com a ajuda de um acompanhador pessoal.
Para ajudar a compreensão da “escada da lectio” gostaríamos de traduzir esta explicação de Guigo com quatro perguntas bem simples, as três primeiras são de Carlos Mesters:
- Leitura: O que diz o texto?
- Meditação: O que me diz o texto?
- Oração: O que me faz dizer o texto?
- Contemplação: O que a Palavra realiza em mim?
Ainda com o intuito de compreender melhor a “escada da lectio”, apresentamos uma frase de S. João da Cruz que a resume bem:
“Buscai lendo, e encontrareis meditando; chamai orando e abrir-se-vos-á contemplando” (Ditos de luz e amor, 157)
Gostou desse conteúdo? Clique aqui e receba formações da Comunidade Shalom no seu WhatsApp!
Por Germana Perdigão
