A frase acima, de autoria daquele que se tornaria Bento XVI[1], reforça que a ressurreição de Jesus é o fundamento da fé Cristã. Sem essa certeza toda a história do cristianismo perde o seu sentido, pois estaria alicerçada sobre o testemunho de um mestre exemplar cuja derrota trágica faz parte da história do passado.
A esse respeito escreve São Paulo para a comunidade de Corinto: “Se Cristo não ressuscitou, então é vã a nossa pregação, é vã a nossa fé. E nós aparecemos ainda como falsas testemunhas de Deus, porque contra Deus afirmamos que ele ressuscitou a Cristo” (1Cor 15,14-15).
Uma leitura sinótica dos quatro Evangelhos, nas narrações da Ressurreição de Jesus, permite observar que são concordes em afirmar a presença das mulheres no túmulo no terceiro dia da semana, antes do raiar do sol, a pedra removida, a presença de anjos que anunciam a Ressurreição e as envia para comunicar aos discípulos. Existem pequenas diferenças que podem suscitar eventuais desconfianças e suspeitas de inverdade, por isso é importante compreender adequadamente o sentido de determinados termos e costumes do a mbiente judaico, além das circunstâncias particulares nas quais tudo aconteceu. O então Cardeal Ratzinger assinala[2]:
“Quem se aproxima das narrações da ressurreição com a ideia de saber o que é a ressurreição dos mortos, não pode deixar de interpretar de modo errado tais narrações, acabando depois por pô-los de parte como coisa insensata”
Aparentes discrepâncias entre os Evangelhos não fragiliza a historicidade do querigma; mas ao contrário, constitui prova contundente da veracidade dos eventos narrados. Primeiramente, impõe-se considerar a distância cronológica entre o fato histórico e a codificação dos textos, bem como a especificidade teleológica de cada um dos evangelistas e o horizonte de recepção das respectivas comunidades eclesiais.
Ademais, tal heterogeneidade documental atesta que a Igreja primitiva não laborou em uma harmonização artificial mas prevaleceu, outrossim, a intenção genuína de testemunhar o que os sentidos apreenderam e o que as mãos apalparam, em estrita observância à tradição joanina (cf. 1Jo 1,1). Despojada de artifícios retóricos ou “maquiagens” apologéticas, a Verdade salvífica se impõe por sua própria evidência nitidamente ontológica e não puramente mística como defendem alguns.
Mas é importante conhecermos esses particulares, porque isso ilumina a nossa inteligência acerca do ponto central da nossa fé. Por exemplo: o fato de todos narrarem que as mulheres chegaram e encontraram o túmulo vazio, não é um testemunho absoluto de que Cristo Ressuscitou, enquanto não há uma certeza do que aconteceu com aquele corpo.
O fato da Igreja primitiva proclamar que foram as mulheres as primeiras testemunhas da Ressurreição, quando o testemunho feminino não tinha valor jurídico nas leis hebraicas é, também, uma prova a favor da veracidade da Ressurreição. Podemos acreditar que os discípulos estavam dispostos a sofrer e a morrer por uma mentira inventada ou por uma lenda criada? E, caso fosse uma invenção, por que inventariam uma história quando sabiam que os seus interlocutores não acreditariam?
A Ressurreição como Fato e Mistério: o que nos ensina o Catecismo
Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), a Ressurreição de Cristo se estabelece, primeiramente, como acontecimento real e historicamente verificado, sustentado pela tradição viva que remonta ao ano 56 com São Paulo (CIC 639). O ponto de partida factual é, como dito anteriormente, o sepulcro vazio, que, longe de ser mero detalhe, constitui um “sinal essencial” e o primeiro passo para o reconhecimento do fato da ressurreição, conforme atestado pelas santas mulheres e pelos Apóstolos (CIC 640).
A credibilidade histórica deste evento não está em uma “exaltação mística” da comunidade, mas na experiência direta dos discípulos que, inicialmente abatidos e tomados pela dúvida — a ponto de considerarem os relatos das mulheres como “desvario” (CIC 643) —, foram convencidos pela realidade física das aparições de Jesus, que lhes censurou a “teimosia” em não crer (CIC 643-644).
Assim, a Ressurreição situa-se no centro do mistério da fé precisamente porque, sendo um fato histórico comprovado, ela simultaneamente transcende e ultrapassa a história em sua essência íntima, inaugurando a era do “homem celeste” e a reconstrução de uma nova criação (CIC 642, 646-647)
Outro ponto central é quanto às aparições do Ressuscitado e quanto seu corpo glorioso. Por que Ele não foi imediatamente reconhecido pelos seus amigos? O que dizem sobre Ele as testemunhas da ressurreição?
Estes são alguns dos temas tratados na aula sobre “As provas da Ressurreição”, do Instituto Parresia, e você poderá acessá-la abaixo:
Josefa Alves
Instituto Parresia
Paulo César Gomes Albuquerque
Instituto Parresia – Setor Comunicação
[1] BENTO XVI. Homilia da Vigília Pascal, 15 de abril de 2006 (onde se utilizam conceitos similares ao falar da Ressurreição como a maior “mutação” da história)
[2] Jesus de Nazaré. Ed. MBC, 2021, p.523
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