As redes sociais atualmente estão cheias de grupos de filosofia. Muitos dos participantes desses grupos ficam jogando frases prontas uns nos outros, porém, quando os questionamos, notamos que no fundo “ouviram o galo cantar, mas não sabem onde”. Acham que, por terem lido meia dúzia de postagens duvidosas nas redes sociais, já estão em condições de se contraporem a tudo e a todos.
Os mais ousados questionam sem o mínimo de modéstia intelectual até a metafísica e a moral da Igreja. Colocam em cheque os princípios que foram sendo amadurecidos e aprofundados por meio da graça de Deus e do esforço sincero de grandes pensadores e intelectuais cristãos. Gostaria que esse texto despertasse em você uma sadia curiosidade e modéstia intelectual, que permitisse olhar para si mesmo, para o mundo e para os outros com uma inteligência integradora.
A Igreja desde o seu início, além dos judeus, precisou lidar e oferecer respostas ao politeísmo romano, que em suas celebrações cultuavam diversas divindades. Precisou ainda encarar e responder aos discursos filosóficos tão fortes nos ambientes de influência cultural grega. Algo que ajudou muito a Igreja a responder de modo maduro aos questionamentos de cada tempo foi o fato de acreditarmos que:
“A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (Fides et ratio, cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).
Para nós, cristãos da milenar Igreja Católica, e para qualquer outro cristão amigo do hábito de pensar, a razão é um componente essencial de nossa natureza humana, sem ela não se é possível ter fé.
O ateu e o agnóstico
Numa certa ocasião, eu dava uma palestra onde haviam alguns universitários, um jovem levantou a mão e disse: “Eu sou ateu!” Eu perguntei: “Por que você é ateu?” Ele respondeu resoluto: “Porque eu não acredito na existência de uma verdade absoluta”.
O rapaz não se dava conta de que para relativizar o conceito verdade absoluta, ele precisaria absolutizar outros princípios, inclusive, a própria opinião que ele tanto defendia. A lógica dele era: “Uma coisa só é verdade quando eu digo que é verdade”. Isso se chama subjetivismo, relativismo, desonestidade intelectual e não racionalidade.
Dentro ainda dessa problemática da existência de Deus e da fé, há outra figura, qual seja: ”O agnóstico”. Enquanto o ateu não crê de jeito nenhum, o agnóstico opta pela indecisão, ou indiferença. Ele diz assim: “Pode ser que exista Deus e um verdade absoluta ou não, para mim, porém, tanto faz”.
Assim, confesso que, na minha vida de missionário, sempre achei mais fácil dialogar e até iniciar um caminho de evangelização com um ateu racional, porém sincero, do que com um agnóstico. A verdade não pode ser enxergada, nem acolhida por quem não a quer e não a busca com sinceridade.
Um maravilhoso discurso
Gostaria de terminar essa nossa reflexão, com um trecho da oração proferida por um gigante intelectual, Santo Agostinho. Um homem que viveu anos indiferente a Deus, contudo ele buscava com sinceridade a verdade, quando a encontrou proferiu esse maravilhoso discurso:
“Tarde te amei! Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz! Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”.
Deus abençoe você sempre, Shalom!
Por Rodrigo Santos
