Formação

Até quando?

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Atéquando? Este é o grito daqueles que tinham sido imolados por causa daPalavra de Deus e do testemunho que tinham dado, narra o evangelistaJoão, autor do Livro do Apocalipse: “Senhor, santo e verdadeiro, atéquando tardarás em fazer justiça, vingando o nosso sangue contra oshabitantes da terra?” (Ap 6,10). Este clamor é o grito daqueles quevivem suas vidas com coerência e dignidade clamando aos céus porintervenções que possam devolver apreço pela vivência da justiça eestima pela dignidade de toda pessoa. Acompanhar os acontecimentosdeste tempo é sentir brotar dentro do coração este clamor: até quando?Até quando se deve esperar por mais instituições com forçaorganizacional e influência moral na sociedade? Até quando seráconsiderada obscurantista uma instituição de maior credibilidade numasociedade? Até quando reinará uma oligarquia que controla a vidaeconômica não aceitando perder os seus privilégios e fechada napartilha do poder?

Atéquando durará a sede insaciável de livre acesso aos recursos naturais,com cumplicidades imorais? Até quando se manipulará informaçõesformando opiniões sem base na verdade de fatos? Até quando a opiniãopública será manipulada para favorecer ganhos e vantagens espúrias? Atéquando as populações pobres vão ser sacrificadas com a subida dospreços, dificultando a aquisição de alimentos, empurrando-as na direçãodo flagelo da fome? Até quando se continuará a prometer, sem cumprir oprometido, ações para mudar o cenário da fome no mundo? Até quando ospobres têm que esperar por uma organização social e política maisjusta, garantindo-lhes direito e dignidade? Até quando se poderáacreditar nos propósitos e esforços dos participantes da Cúpula sobreSegurança Alimentar da FAO/ONU, de reduzir pela metade, até 2015, onúmero de 860 milhões que sofrem fome?

Atéquando vai continuar a desmontagem da agricultura familiar substituídaviolentamente pelo agronegócio? Até quando a economia irá bem e o povomal? Até quando as ameaças e interessesconservadores vão empurrar a população no sentido de fechar-se sobre simesma, olhando só para seus próprios interesses, matando o remédioinsubstituível da solidariedade e se firmando na xenofobia? Até quandose vai esperar uma reforma tributária que possibilite mais justiça euma consideração adequada dos pobres? Até quando pagarão o mesmo peloalimento, em impostos, o pobre e o rico? Até quando os representantesdo povo vão estar pouco a serviço de suas necessidades?Até quando osque governam vão se sentir em paz com o que já fizeram e sem se afligirquotidianamente com urgências que precisam ser respondidas no âmbito desuas responsabilidades governamentais?

Atéquando as pessoas vão burlar as leis, fazendo valer seus interessesmesquinhos? Até quando se esperarão as melhorias nas condições dasestradas, usando os recursos que vêm da contribuição cidadã? Até quandoa morte dos outros será causa de indiferença? Até quando a violêncianão será debelada? Até quando se discutirá tanto, em congressos,cúpulas, reuniões, sem efetivação mais rápida e adequada dasnecessidades básicas na vida do povo? Até quando a indiferença vaiimperar? Até quando os interesses políticos falarão mais alto do que obem comum? Até quando os que têm o compromisso de pregar a paz evalores continuarão calados e fracos por sua falta de coerência? Atéquando?

Alista é interminável. Uma verdadeira ladainha! Uma lista que se podecompor infinitamente e de muitas maneiras. Uma revelação do horror quecobre os céus da humanidade. Assim será até quando não se perceber quehá uma gravíssima questão de fundo cavando um incomensurável fosso paraa humanidade? Até quando não é um grito de simples lamentação, amarguraou desespero. É um clamor de esperança. Particularmente, a esperança deque os cidadãos todos, em suas diferentes funções, histórias eresponsabilidades percebam que tudo isso tem uma causa que antecedeaquela técnica, histórica e organizacional. É preciso investir ecorrigir o núcleo secretíssimo da pessoa, sua consciência. Há umagravíssima crise de syneidesis/consciência, criando um buraco nestenúcleo secretíssimo e determinante. As pessoas não estão conseguindo sesaber com o outro e consigo mesmas. A consciência individual e social,no contexto contemporâneo, não é sadia. Não se consegue relaçõessalutares com o próximo e com a comunidade.

Éurgente acreditar que é preciso investir muito na formação daconsciência, como regra mais próxima do agir. Há, por isso, uma grandedegradação do humano, corroendo dignidades. O Estado é laico, masprecisa da transcendência, de referência a valores que estão para alémdele mesmo, em fontes inesgotáveis como o Evangelho, para vencer estedesafio tremendo, responsabilidade sua de qualificar a pessoa e acultura humana.

Fonte: CNBB – por Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


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