Alguém aqui já ouviu esta frase: “É impressão minha ou o tempo antigamente passava mais devagar”?
Que eu saiba, no que concerne às leis da física, as regras de tempo e espaço continuam as mesmas, porém, esta sensação é real porque o mundo está cada vez mais abarrotado de informações que circulam com muita rapidez; também as distâncias foram encurtadas pelos meios de transporte e comunicação, assim, ações tão bacanas como escrever uma carta ao invés de um WhatsApp, são consideradas hoje como uma grande perda de tempo.
Isto não quer dizer que os homens da antiguidade não tinham este mesmo sentimento de urgência que é tão pungente nos dias atuais. Por exemplo, a frase “o tempo custa muito caro” é atribuída a Teofrasto, pensador grego que viveu três séculos a.C., e, nesta perspectiva, ele era capaz de escrever um livro a cada dois meses, o que continua sendo um feito extraordinário até hoje; por sua vez, o americano Benjamin Franklin, há quase trezentos anos, inspirado por este pensamento, teria chegado à célebre frase “tempo é dinheiro”.
Assim, unindo a pressa que é inerente ao ser humano à evolução tecnológica, o homem encontrou um modo de, aparentemente, “alargar” o próprio tempo, pois, em tese, não precisa mais esperar por nada. Entretanto, a questão central não é a otimização do tempo trazida pela tecnologia, pois não há nada de errado em aprimorar as horas de trabalho, estudo ou lazer, mas o grande perigo está no efeito colateral desta evolução: o imediatismo.
Poderíamos resumir o imediatismo como uma nociva e excessiva impaciência, que apressa tanto as situações, que faz perder o verdadeiro gosto que poderiam ter, caso fossem desenvolvidas no tempo apropriado, e a pressa que supostamente deveria aprimorar o tempo, acaba por arruinar o seu transcurso.
E o que isso tudo tem a ver com a leitura, que é o foco aqui?
Ler é uma ação que custa tempo, certo? Dependendo do livro, pode levar horas, dias ou até semanas para ser concluída, e, diante desta aceleração crescente da humanidade, é como se toda a informação que valesse a pena fosse somente aquela que se obtém num click, o que, na verdade, pode tornar o conhecimento superficial e impedir a compreensão da essência das coisas, bem como, corre-se o risco de formar uma geração afetada por uma impressionante preguiça de raciocinar ou desacostumada a fazer valer o trabalho pelo esforço nele empregado.
Por estes motivos, infelizmente, o hábito da leitura é constantemente ofuscado pela mentalidade do instantâneo e, com esta ameaça, vão surgindo também outras consequências, como o empobrecimento da escrita, a perda da cultura e dos seus referenciais, a desvalorização dos escritores, o esquecimento dos grandes nomes da literatura mundial, e por aí vai.
E qual seria o remédio? Plagiando Santa Teresa de Jesus, que diz: “para o mal de deixar a oração, não há remédio, senão, recomeçar”, eu digo que para o mal de deixar a leitura, não há remédio, senão, recomeçar.
De fato, para não entrarmos nesta onda do imediato, precisamos reavaliar todas as nossas escolhas, porém, se ao menos começarmos por cultivar pequenos e bons hábitos, como, por exemplo, a leitura, certamente perceberemos que nem tudo o que é feito de forma instantânea é o melhor, ou, trocando em miúdos, mesmo que o seu miojo de cada dia pareça a opção mais deliciosa e rápida do universo, nunca, nunca e nunca vai chegar nem aos pés do sabor e qualidade de uma boa pasta italiana feita com massa caseira e molho de tomate natural. E caso você discorde desta comparação, é porque ainda não comeu a massa certa.
Assim, se você não consegue, por exemplo, desgrudar os olhos das redes sociais, elas são o seu miojo, aquilo que você está acostumado a preparar num instante e sem muito labor, enquanto o livro que vou indicar hoje é o maravilhoso e suculento espaguete à bolonhesa servido com muito queijo parmesão ralado.
Estou falando da excelente e indispensável poesia épica “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, obra que é considerada como a unificadora da língua italiana, escrita no início do século XIV.
Em um paupérrimo resumo, trata-se do maior poema da civilização ocidental, que narra através de 14.233 versos e inúmeros simbolismos, a jornada espiritual do próprio autor ao Inferno, Purgatório e Paraíso, guiado por Virgílio (sim, aquele mesmo, que escreveu Eneida) e inspirado por Beatriz (símbolo do Amor Divino para Dante), para que, fazendo a experiência com o verdadeiro sentido da vida, pudesse transmiti-lo aos seus leitores.
Jerusalém seria o ponto de impacto de Lúcifer ao ser expulso para a Terra, o inferno estaria na região do Mar Morto, que era composto de camadas, nas quais as almas padeciam conforme a gravidade do pecado que fora o passaporte para os suplícios eternos; enquanto o Purgatório seria uma ilha, um local intermediário entre o Inferno e o Paraíso, este representado como sete céus móveis e um fixo, onde a Santíssima Trindade habitaria, a qual Dante consegue visitar pela intercessão de São Bernardo e da Virgem Maria.
Inicialmente, chamava-se apenas “A Comédia”, em alusão ao estilo literário da época que se diferenciava da Tragédia, aquela por ter um final feliz, enquanto esta tinha um final, como o próprio nome indica, não muito favorável aos seus personagens. O título de “Divina” foi acrescentado um pouco depois por Giovanni Boccaccio, poeta e crítico especializado na obra prima de Dante.
Ademais, como o próprio autor disse, esta é uma obra alegórica, ou seja, aberta a várias interpretações, portanto, podemos aproveitar e voltar ao assunto do início e, considerando que o livro trata dos Novíssimos – Céu, Purgatório e Inferno –, isto é, fala sobre a condição atemporal pela qual o homem passará após a morte, daquilo que viveremos quando o nosso tempo nesta vida terminar, podemos parar nesta leitura e pensar se estamos construindo a nossa eternidade na boa vivência do hoje, ou arruinando-a por meio de uma mentalidade contaminada pelo imediatismo, que, mesmo no anseio pelo que é eterno, tanto se perde no que é passageiro.
Ficha
Autor: Dante Alighieri
Gênero: Poesia épica
Idioma original: Língua italiana
Boa leitura!

