O que é, o que é: um país cujos escritores eram tão bons, que suas obras literárias inspiravam os compositores a escreverem óperas?
Não sabe? Não, não é a Grécia, embora esta seja considerada o berço das óperas. Estou falando da nossa gentil, pátria amada, Brasil.
Sim, é verdade, mesmo que pareça muito difícil de acreditar, houve um tempo no qual nosso país vivia uma cultura que valia a pena, tempos do excelente José de Alencar; de Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras; do compositor Carlos Gomes e do poeta Castro Alves.
– E como foi isso? Como conseguimos esta mutação da ópera para a “sofrência”?
– Sei não, deve ter sido da mesma forma que Saruman transformou Elfos em Orcs, eu suponho… uma proeza sem precedentes…
O que eu sei é que, infelizmente, talvez porque fomos obrigados a ler alguns destes ótimos autores nos tempos de colégio, sob a ameaça de reprovação em Português e Literatura, ou mesmo como fruto de um constante bombardeio de lixo cultural, a verdade é que nos acostumamos a medir tudo por baixo, desde os livros às músicas, até o amor (ou o que dizem ser o amor por aí).
Assim, a dica de hoje tem este caráter de reconciliação em relação aos clássicos da literatura brasileira, como se fosse aquela segunda chance que todo mundo merece na vida, então, proponho que você também dê essa segunda chance para estes excelentes livros que serão indicados vez ou outra por aqui, nem que seja para começar a termos consciência que o nosso Brasil é capaz de produzir muito mais do que samba, políticos corruptos e futebol.
A estreia de escritores brasileiros em nossa coluna literária será “de gala” e ficará a cargo do meu conterrâneo: o escritor, poeta, advogado, político e dramaturgo José de Alencar e um dos seus primeiros romances, intitulado “Cinco minutos”, publicado pela primeira vez em 1856.
A história é dirigida à prima do narrador e tem início quando este perde o horário do ônibus que habitualmente apanha nos fins de tarde e acaba tomando a próxima condução e nesta, casualmente, começa a conversar com uma moça que estava sentada a seu lado, da qual podia conhecer apenas a voz e a fragrância do perfume, pois estava com o rosto coberto por um véu negro.
O título do livro se dá porque foi exatamente o atraso de cinco minutos que gerou toda a trama da história.
A partir daí a narração segue com vários encontros e desencontros, sendo que o mistério acerca do rosto e da identidade daquela moça não lhe saía da cabeça, tornando-se a grande motivação para que não desistisse de encontrá-la novamente.
Hoje vivemos em um tempo no qual tudo é muito rápido e todos têm necessidade de receber informações imediatas e muito se perde da beleza da espera, da construção dos relacionamentos aos poucos e o resultado é que se conhece muito em pouco tempo, mas não se consegue passar de uma mera superficialidade e nada é aprofundado como merece.
No caso deste livro, vemos exatamente o valor contrário aos tempos atuais, da preservação do mistério que é o outro, do labor para deslindar este segredo e o quanto vale a pena o desvendar paulatino que gera o conhecimento por inteiro do que ou quem se almeja alcançar.
Enfim, até comecei a escrever mais bonito ao falar deste ótimo livro, pois ler os clássicos da nossa literatura, além de nos fazer descobrir as verdadeiras riquezas genuinamente brasileiras, nos enriquecem também no vocabulário, na escrita e na linguagem.
Resumindo, é uma leitura que vale a pena, é rápida (são menos de cem páginas) e um ótimo começo para quem quer se aventurar a garimpar os muitos tesouros (infelizmente bem desconhecidos) do nosso Brasil.
Autor: José de Alencar
Título: Cinco Minutos
Gênero: Romance
Literatura clássica brasileira
Catálogo: Coleção L&PM Pocket
Boa leitura!
* Este livro pode ser encontrado na Biblioteca Ronaldo Pereira na Diaconia Shalom, em Aquiraz. Contato: biblioteca@comshalom.org ou (85) 33087419

