A Trilogia Tebana
Caro leitor, nas próximas três semanas, adentraremos em um mundo que, no primeiro momento, pode parecer estranho, pode parecer muito antigo, pode parecer muito diferente. Mas, se você olhar bem de perto, encontrará algo novo algo, algo inusitado, que irá mesmo tocar pontos importantes da nossa sociedade.
Adentraremos no universo da Grécia Antiga pela via do teatro grego. A dica de leitura das três semanas que se seguirão é a famosa Trilogia Tebana, do dramaturgo Sófocles. Essa trilogia é composta pelas peças Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona, que abordaremos uma dessas semanalmente.
Escritas e encenadas no século V antes de Cristo, as peças nos revelam, através dos conflitos, dos personagens, das situações, realidades que despertam em nós reflexões acerca do homem, da sociedade e da religião, que, não obstante as disparidades cronológicas, podemos, sem exagero, dizer que são bem atuais.
Édipo rei¹ ou o enigma do Homem
A cultura grega para o homem do século XXI é vista de um modo geral como algo de elevado, de belo. No entanto, apesar da veracidade da aplicação desses adjetivos, poucas são as pessoas que se detêm ou enfrentam o universo recheado de tensões, de conflitos, de ações corajosas, de ações temerárias, de personagens controversos e de personagens virtuosos, que estão presentes no mundo grego.
A obra de hoje é uma das mais altas elaborações da literatura universal e ápice do gênero teatral: Édipo rei, de Sófocles. Encenada pela primeira vez em Atenas no ano de 430 a.C., a obra retrata a história bastante conflituosa de Édipo. Filho do grande rei de Tebas Laio e de sua esposa Jocasta, Édipo já nasce carregando o fardo de um destino cruel fruto da desobediência de seu pai aos desígnios divinos. Antes do nascimento de Édipo, Laio e Jocasta estavam impossibilitados de terem filhos. O rei tebano consulta, então, o famoso oráculo de Delfos na tentativa de saber o porquê da esterilidade, e este, por sua vez, diz que se Laio tiver um filho, este mesmo filho irá matá-lo e desposará Jocasta. Laio, atemorizado, volta para casa.
Por ironia do acaso (ou do destino!) nasce Édipo. Com medo de que este venha se apropriar do reinado de Tebas, Laio decide entregar o recém-nascido a um criado para que ele o mate. No entanto, por compaixão, o empregado resolve entregar a criança a um pastor oriundo da cidade de Corinto, que a deixa sob a tutela da família real dessa cidade.
Édipo então cresce acreditando ser filho de Pólibo, rei de Corinto. Entretanto, alguns acontecimentos o fazem duvidar de sua precedência. Édipo resolve consultar o oráculo de Delfos que, enigmaticamente diz: “Matarás teu pai e deitarás com tua mãe”. Nosso herói resolve imediatamente fugir de Corinto. Nessa fuga, Édipo se desentende com alguns viajantes que passavam pelo caminho e acaba matando-os. Um desses viajantes era Laio. Édipo, sem se dar conta, acaba por matar seu pai biológico.
Édipo se dirige para Tebas. Nesse período, essa cidade é assolada pela esfinge, metade mulher e metade leoa, que devora as pessoas que não conseguem decifrar o grande enigma: “Quem, entre os que vivem na terra, nas águas, nos ares, tem um só modo de falar, uma só natureza, mas tem dois pés, três pés e quatro pés”. Édipo, então, aceita o desafio e depois de refletir diz: É o homem. Quando ainda é criança, ele engatinha, na idade madura, caminha sobre as duas pernas, e quando envelhece apoia-se numa bengala para ajudar sua marcha hesitante e cambaleante”. Resolvido o enigma, a esfinge joga-se do rochedo e morre. Édipo se torna rei de Tebas e casa-se com Jocasta, sua mãe, com quem tem quatro filhos, Etéocles, Polinices, Ismena e Antígona.
A profecia estava cumprida. Édipo sem se dar conta, mata seu pai e casa-se com sua mãe. A partir de então vários acontecimentos se darão, principalmente com a aparição de alguns personagens oculares, até a tragédia caminhar para o seu ponto culminante: a descoberta de Édipo de quem ele é, que desencadeia uma série de consequências que nos revelam até onde pode chegar o desespero e angústia do homem.
Comentando esses episódios e a vida turbulenta de Édipo, Jean-Pierre Vernant, grande especialista do mundo grego, diz-nos:
“Ora, o que Édipo representa? Quando nasce, Édipo assume o papel daquele que não deveria estar lá. Ele é inoportuno. O herdeiro de Laio é ao mesmo tempo descendente legítimo e procriação monstruosa. Sua condição é totalmente capenga. Ao mesmo tempo que matava o seu pai, a ele se identificava, tomando seu lugar no trono e no leito de sua mãe. Gerando filhos na própria mãe, (…) ele se identificava não só com o pai, mas com os próprios filhos, que são simultaneamente filhos e irmãos, filhas e irmãs. Esse monstro de quem falava a Esfinge, e que ao mesmo tempo tem dois, três e quatro pés, é Édipo”².
Édipo, apesar de ter decifrado o enigma da esfinge, é, paradoxalmente, esse mesmo enigma, que vai sendo decifrado conforme é tecida a narrativa. Diante de tão claro conhecimento, pois, na verdade, ao final da tragédia Édipo toma ciência de quem é, prefere se tornar cego (ao final ele mesmo perfura os dois olhos) a reconhecer essa verdade. Interessante notar que toda a tessitura humana, ou seja, todo esse drama humano em torno de Édipo tem como pano de fundo circunstâncias políticas, já que Édipo é filho do rei e herdeiro do trono real. Cada movimento seu na obra tem repercussões maiores, pois não é apenas um simples destino de uma pessoa que é tematizado, mas é o destino de um rei, que, como tal, afeta toda a cidade. Essa relação com a cidade, que no caso é Tebas, é muito relevante, pois não é apenas o destino de um que é malogrado, mas toda uma atmosfera de relações com os circunstantes.
Por tudo isso, vemos que, apesar de toda a dinamicidade da tragédia, em Édipo Rei a problematização política está bastante relacionada com a problematização humana. Ora, podemos observar que muito embora a sua confusão de identidade, Édipo continua sendo rei, continua ocupando o trono real e sendo a autoridade maior de Tebas. Como o poder real pode subsistir sendo os reis tão diversos? A tragédia Édipo Rei é escrita no ápice da democracia grega, período em que a voz popular se fazia mais presente e em que as distâncias entre governo e povo eram menores se comparada com períodos anteriores. Logo, a obra em questão se faz muito relevante no mundo atual, onde o papel representativo e o sistema de poder são tão questionados.
Ficha
¹SÓFOCLES. Trilogia tebana: Édipo rei, Édipo em colono e Antígona. Tradução Mario da Gama Kury. 5ª ed. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996.
² VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. Tradução Rosa Freire Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp 176.

