De um modo geral, a associação entre literatura e poder político não é de todo sadia. Na maioria das vezes quando tal relação acontece, a tendência é serem produzidos livros meramente propagandísticos, de baixa qualidade estética, com o intuito apenas de enaltecer o poder estabelecido. No entanto, o livro que será abordado nesta edição do Bendita Leitura vem nos mostrar que essa relação entre literatura e poder é muito mais complexa do que podemos supor, principalmente quando se diz respeito ao maior império da antiguidade Ocidental: o Império Romano.
Quando se fala no poema Eneida, de Vírgílio, é impossível não situá-la dentro das condições políticas e culturais que lhe deram origem. Recomendada pelo Imperador Otávio Augusto no século I a.C., Eneida é a expressão literária que sintetiza os ideais do Grande Império Romano, que, na época de sua escrita, estava no seu ápice:
A partir de Otávio Augusto, O império Romano conheceu momentos de intenso desenvolvimento econômico (…). O governo de Augusto foi marcado pelo florescimento das artes, em especial as letras (…). Nesse século de ouro, destacaram-se o poeta Virgílio, o escritor Horácio e o historiador Tito Lívio. (…). O poder da máquina de guerra romana e a centralização político-administrativa deram ao Império períodos de certa estabilidade e prosperidade, constituindo a pax romana, que durou até o segundo século da era cristã.[1]
O contexto em que se insere a Eneida é o da pax romana, ou seja, os conflitos internos que anteriormente marcavam Roma, foram, de algum modo, controlados, muito embora a cultura expansionista de conquistas de territórios tenha se alargado. Essa nova fase política e social de Roma, denominada Alto Império, coincidiu também num florescimento artístico considerável, cujas obras procuraram formar ou consolidar uma cultura própria e original romana e mais independente de expressões culturais de outros povos. A figura artística central desse período é o poeta Virgílio.
Virgílio nasceu no norte da Itália no ano 70 a. C e morreu no ano 19 a. C. Dentre seus principais textos antes da Eneida, estão as Bucólicas, poema pastoril, e as Geórgicas, poema agrícola. Em Eneida, o poeta, ao contrário dos seus escritos precedentes, não irá tratar do ambiente rural, bucólico e pastoril, mas desenvolverá, através da mitologia, um poema sobre as origens de Roma, no intuito de engrandecer e idealizar o próprio Império. Para tal objetivo, Virgílio irá se apoiar nas duas principais obras do período antigo grego, Odisseia e Ilíada, de Homero. Ou seja, a partir da imitação (imitatio) desses dois poemas gregos, Virgílio tentará superá-los e tentará também criar algo novo. Assim como na Odisseia, onde vemos a trajetória de Odisseu, que navega pelos mares gregos, saindo de Troia, após a guerra, em busca de sua terra de origem, na Eneida, também vemos um combatente dessa mesma guerra, o troiano Eneias, saindo da arrasada Troia, junto com algumas outras embarcações, em busca de outra terra a qual lhe é destinada a sua fundação.
Os seis primeiros livros (ou capítulos) da Eneida são baseados na Odisseia, de Homero, e os seis livros finais são baseados na Ilíada, pois assim como vemos o relato de um conflito que, no caso da obra de Homero, é entre gregos e troianos, no caso da obra de Virgílio o combate se dará entre a tripulação que chega à península itálica, liderada por Eneias, e o reino local. Um dos momentos mais importantes da Eneida é quando a tripulação de Eneias atraca na ilha de Cartago. Eneias é recebido pela rainha local Dido, que solicita que o mesmo lhe relate a história da queda da cidade de Troia. Após o relato a rainha, já enamorada de Eneias, tenta obstruir que o mesmo parta em direção à terra que, por meio de uma profecia, fora lhe destinada para a fundação. Assim, Dido, em lágrimas, fala ao herói troiano:
Porventura foges de mim? Por estas lágrimas que derramo pela tua mão que aperto, por nossa união, se eu algo te mereci, se alguma coisa de mim te foi doce, tem piedade duma casa destruída, e se em ti não houver lugar para minhas preces, suplico-te, renuncia a esse projeto funesto.[2]
Após a fala da rainha, Eneias, consciente daquilo que lhe foi revelado por meio do senhor de todos os deuses Júpiter e confiando na proteção de sua mãe a deusa Vênus, permanece decidido a partir e, portanto, a negar os amores de Dido. Esse episódio relatado no livro (capítulo) quarto é de grande importância, não apenas porque vemos de imediato a influência da Odisseia, de Homero, cujo personagem principal também precisa dizer não a uma eventual paixão a fim de, no caso do livro grego, voltar para Ítaca, mas principalmente porque verificamos na Eneida a nobreza de caráter de Eneias que, ao renunciar a permanecer em Cartago com a rainha, obedece aos desígnios dos deuses e parte para a península itálica. Esse episódio é fundamental para o prosseguimento do enredo e enfatiza talvez como nenhum outro a relação bastante próxima entre o personagem principal e os deuses.
Mas o quê, de fato, torna Eneida um livro especial uma vez que essa obra se baseia diretamente em outras obras já existentes no mundo antigo? E ainda, como um livro que está, digamos, a serviço explicitamente do poder instituído pode ter uma elevada beleza estética, não permanecendo, assim, num mero texto propagandístico? A resposta a essas indagações está principalmente na peculiaridade da situação e do contexto da própria Roma no momento. Esse Império dominou praticamente todo o mundo conhecido da época e, não só dominou, mas, principalmente, dialogou com as culturas de outros povos, cujos territórios já estavam sob o seu domínio, como no caso da cultura grega e judaica. Dessa forma, é natural que todo grande império deseje também desenvolver uma cultura particular, como fora o intento no caso romano.
A estabilidade interna e a consolidação do poder imperial de Roma, período esse denominado pax romana, foi fundamental para que se estabelecesse um ideal de progresso. Esse ideal está vinculado à própria literatura do período. A Eneida foi um poema encomendado com o intuito de que se expusesse a origem daquilo que chamamos Roma. A origem de Roma, segundo a Eneida, está ligada aos heróis e ao contexto da Guerra de Troia, onde Eneias, protagonista do livro, lutou antes de ir para a península itálica. Esse talvez seja o que de mais importante encontramos na Eneida. O valor do poema de Virgílio está, sobretudo, no modo como esse poema atingiu seus receptores ou no modo como ele foi lido em sua época. Dessa forma, sobre Virgílio, assim nos diz Erich Auerbach, crítico literário alemão:
Era (Virgílio) filho de camponeses de um lugarejo nas proximidades de Mântua; os primeiros temas de sua poesia são rurais; a simplicidade pura e rematada da terra itálica e os hábitos de vida comedidos acompanharam-no mesmo quando chegou ao ápice da ascensão social, e esse espírito está presente na profundidade erudita e mítica de suas obras. Sua poesia refinada (…) foi tão ao encontro do gosto geral que por muitos séculos serviu de norma da língua materna para as crianças e ainda inflamava a imaginação humana mil anos após a morte de seu autor[3].
Como vemos, Eneida exerceu um papel, no primeiro momento, muito importante no sentido de marcar com grande eloquência o ideal romano de grandeza. A própria excelência da escrita do poema, no chamado latim clássico, ou seja, aquele utilizado pelas camadas mais eruditas, exerceu um poder educativo e modelar considerável na época. Além disso, a longo prazo, é impossível quantificar a influência de Virgílio sobre a literatura posterior, especialmente sobre os poetas medievais, sobre Dante, cuja principal obra tem como um dos personagens o próprio Virgílio, e sobre Camões.
Dessa forma, é impossível desvincular a Eneida do Império Romano. A positividade dessa afirmação reside no fato de que as origens da civilização Ocidental encontram-se nessa civilização romana. O legado que ela nos trouxe tanto a nível do Direito, como também das instituições, da organização e estruturação das cidades, do poderio e estratégias militares, também a nível linguístico, pois as principais línguas modernas surgiram do latim falado, esse legado tem nas obras literárias, como, no caso da Eneida, um valor permanente.
[1] FREITAS NETO, José Alves de. História Geral e do Brasil. São Paulo: Habra, 2006, pp.80.
[2] VIRGÍLIO, Eneida. Tradução de Tassilo Orpheu Spalding. 6 edição. Editora Cultrix, pp. 78.
[3] AUERBACH, Erich. Ensaios de Literatura Ocidental. Tradução de Samuel Titan Jr. 2 edição. Editora 34. São Paulo, 2012, pp. 101
Ficha
Ano: 2011
Páginas: 368
Idioma: Português
Editora: Porto Editora

